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2000: Um belo ano do Cinema brasileiro

Por Guilherme Whitaker em 05/11/2004 11:00


 2000: Um belo ano do Cinema brasileiro
Autor: Marcelo Ikeda


O ano de 2000 foi um ano marcante para o cinema brasileiro. De fato, após a dita "retomada" e a repercussão de Carlota Joaquina, foi em 1999 e em 2000 os anos em que a filmografia brasileira lançou seus melhores e mais significativos filmes. Dessa vez, não houve um único filme como um ponto de referencial isolado, como um Central do Brasil. Já em 1999 tivemos filmes do porte de um Copo de Cólera, Dois Córregos, Outras Histórias, O Primeiro Dia, Santo Forte, São Jerônimo e O Viajante. Em 2000, o saldo também não deixa tanto a desejar. Verificando o número de filmes lançados, em primeiro lugar, surpreende a diversidade estética desses filmes. Desde o lixo comercial ao filme quase experimental, passando pelos curtas e vídeos, o cinema brasileiro respira com fôlego às incontáveis dificuldades de sempre que lhe cruzam o caminho.

Aqui, neste espaço, reservo um rápido panorama do mais significativo da produção de longa-metragem em 2000, com cinco grandes destaques, já receando alguma lacuna ou esquecimento.

1) Cronicamente Inviável

O novo filme de Sergio Bianchi foi o lançamento mais importante do ano, por vários motivos. O principal deles é que o filme resgata uma proposta de cinema disposta a (re)pensar o Brasil. Mas para Bianchi, isso não significa um discurso político no sentido estrito do termo, como nos filmes de Ken Loach, ou até mesmo no recente A Terceira Morte de Joaquim Bolívar. Quase beirando o niilismo, o filme questiona a possibilidade da existência de possibilidades. Embora na estética o filme não seja tão inovador quanto seu documentário anterior Mato eles?, Bianchi comprova a força de seu cinema e sua indignação com a passividade e a incredulidade de todos nós. Em meio à sua "metralhadora giratória", como muitos rotularam o filme, o politicamente incorreto, o deboche e a sátira são os pontos fortes do filme. Apesar de algumas irregularidades, é um filme obrigatório não só para quem se interessa em cinema mas para todos que de alguma forma querem repensar o Brasil.

2) Eu, Tu, Eles

Eu, Tu, Eles é o filme que comprova o amadurecimento da equipe da Conspiração. Após os fracos Traição e Gêmeas, é um filme que em hipótese alguma pode ser rotulado como tendo uma estética de videoclipe ou de televisão. Apesar de recorrer ao ultra-desgastado tema do sertão, consegue admiravelmente uma perspectiva nova, especialmente pelo sensível humanismo que permeia o filme. O trunfo de Andrucha é que ele não procura fazer um retrato documental daquela realidade, mas sim transfigurá-la através de uma ternura que envolve seus personagens (e que nos leva a associá-lo mesmo que brevemente com Outras Histórias). O filme ainda resolve um aparente paradoxo, unindo um tratamento neo-realista (especialmente pelo trabalho com o tempo, seja através de planos-sequência como de elipses temporais) com um sofisticado modo de produção (cinemascope, belíssima fotografia, atores profissionais).

3) Estorvo

O injustiçado filme de Ruy Guerra, embora tenha sido bastante mal recebido em Cannes, é um trabalho típico do cinema de autor, beirando o experimental, quando trabalha com coragem e vitalidade novos rumos para a narrativa e especialmente em termos do tratamento do ponto de vista no cinema. Consegue, assim, um filme essencialemente psicológico, com um inovador trabalho de câmera que insere o espectador num perturbador mundo claustrofóbico, cuja hipnose/transe só poderá desfeita após os créditos finais.

4) Amélia

Após tantos anos de ausência, Ana Carolina volta aos cinema com o típico humor que caracteriza sua filmografia. Como sempre, o deboche, a crítica à futilidade dos padrões da sociedade, a questão feminina e a alegoria surgem no estilo claramente pessoal da diretora. Resolve sutilmente um conflito entre cultura culta e cultura de massa, ridicularizando a tendência do brasileiro em exaltar o que vem de fora, mas sem deixar de incorporar uma visão crítica quanto à vitória destes.

5) O Rap do Pequeno Príncipe

Comprovando a inventividade do documentário brasileiro e a tendência de dispersão geográfica, o filme de Caldas e Luna é um marcante retrato das desigualdades em um morro no Nordeste. Nunca optando por um discurso moralista ou ingênuo, os diretores confrontam a visão apocalíptica de um jovem justiceiro com as de um conjunto de rap. Na estética, procura um tratamento ousado mesmo nas entrevistas, com ângulos de câmera inusitados, uma montagem sempre marcante e investindo na não-linearidade como forma de evitar um tom didático.

Público - no ano de 2000, surgiram alguns filmes que tiveram uma positiva repercussão com o público, apesar de serem produtos mais questionáveis. Dentre eles, o melhor é indiscutivelmente Eu, Tu, Eles.

O maior sucesso, até certo ponto inesperado, foi o de O Auto da Compadecida. Ancorado pela repercussão da minissérie da televisão, o lançamento do filme nos cinemas acabou conquistando o público. Apesar de defeitos técnicos visíveis, tanto na fotografia, no som, na montagem e especialmente nos efeitos visuais, o humor fácil do filme e a convincente performance dos atores principais, além da inúmeras situações cômicas criadas pelo roteiro sustentam o interesse do espectador até o final. Com isso, passou a ser importante referência para se pensar as relações entre cinema e televisão no Brasil.

Bossa Nova é uma comédia romântica despretensiosa, feito basicamente nos moldes de um filme americano. Trata o Rio como um cartão postal, ingênuo, fantasioso, e sem maior criatividade.

O grupo da Casa de Cinema, com os cultuados gaúchos Carlos Gerbage, Jorge Furtado e Giba Assis Brasil, entre outros, lançaram no final o ano o thriller Tolerância. Este pouco ou quase nada tem na estrutura de um filme brasileiro. Acaba esbarrando em uma série de clichês, culminando com um final na verdade mal resolvido, que ainda por cima resgata a máxima de que "todo filme brasileiro tem que ter um pouco de sacanagem". Infelizmente, a expectativa mais frustrada do ano.

Filmes infantis - entre a mesmice dos sempre presentes filmes da Xuxa e dos Trapalhões, dois filmes infantis merecem destaque. O primeiro é Castelo Rá-Tim-Bum. Embora o tom quase barroco do filme seja um claro exagero e uma excentricidade às vezes pouco justificada, e do roteiro que precisaria ainda de alguns tratamentos, é uma diversão bem acima da média, com algumas soluções inesperadas (como o sofisticado trabalho de câmera).

Mas ainda melhor é o pouco comentado Os Três Zuretas (A Reunião dos Demônios), lançado após mais de dois anos de sua conclusão. Retrato ambíguo, sarcástico e muitas vezes pessimista da infância, é uma visão que recusa todos os estereótipos do dito cinema infantil, composto com um amadurecimento que recusa a piada inconsequente da linha de O Menino Maluquinho.

Outros - Através da Janela, da paulista Tatá Amaral, é outro filme que deve ser realçado por sua proposta radical e sem concessões a um cinema que seja "agradável". Questionando as convenções da narrativa clássica, do ponto de vista restrito ao tratamento da causalidade, Tatá faz um filme importante e vigoroso, dentro de sua proposta de cinema, ainda que ponderando acertos e desacertos.

Além desses, outros filmes devem ser citados e que não envergonham nenhuma filmografia. Embora Cruz e Souza nada acrescente à imagem que já temos do poeta, é um filme sensível nos seus melhores momentos de poesia. Outros filmes, como Villa Lobos, Quase Nada, O Dia da Caça e Hans Staden merecem ser citados, mesmo que de passagem.

Embora o ano de 2000 tenha sido um ano com um saldo extremamente positivo, infelizmente o ano de 2001 não parece promissor, se analisarmos os filmes a estrear. As grandes expectativas são os próximos filmes de Bressane e Sganzerla. Na ficção, Buffo & Spalanzani e Bicho de sete cabeças são desapontadores...

Que o próximo milênio reserve um melhor destino ao sofrido cinema brasileiro... !!!


Marcelo Ikeda, formado em economia pela UFRJ, é aluno do curso de cinema da UFF desde 1998, sendo monitor da disciplina História do Cinema Mundial. Editor do site Claquete (http://w3.to/ikeda), com críticas e ensaios sobre cinema. Seu primeiro vídeo, 'Depois da Noite' (1999), explorando o tema da incomunicabilidade de uma criança, recebeu a Menção Honrosa no Festival Vide Vídeo/UFRJ em 1999.
Contato pelo e-mail: claquete@hotmail.com.


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