33 Filmes Indicados ao Troféu Filme Livre! ::  | Curta o Curta

33 Filmes Indicados ao Troféu Filme Livre!

Por Guilherme Whitaker em 07/02/2006 05:45


33 filmes indicados ao troféu Filme Livre!


Os filmes indicados fazem parte da programação normal da MFL, dentro dos 16 panoramas da sala de cinema do CCBB. Para cada prêmio também foi criada uma única sessão especial que exibirá, de uma só vez, todos os filmes indicados para cada prêmio. Confira no final na página as datas destas sessões únicas.

Filme Livre! Curtas 
Dia 14/02 - 16:30 - Sala 26 do CCBB 
Filmes de até 29 minutos realizados sem apoio estatal.

Artifícios do olhar
de Pablo Lobato | MG | 2005 | 20 min | Mini-DV/DVD

Neste hipnótico filme visitamos uma África do Sul raramente vista nas tvs e cinemas. Neste hipnótico filme visitamos uma África do Sul raramente vista nas tvs e cinemas. Um registro sem rodeios sobre uma população bem parecida com a brasileira, seja na sonoridade de seus sotaques, na natural dança de seus corpos eou nos freqüentes e bonitos sorrisos, mesmo num povo submetido a tanta violência e domesticação ao longo dos últimos séculos. Os habitantes locais são os protagonistas, ou melhor, seus olhares o são. Sem muitas explicações, a câmera passa de mão em mão por várias pessoas, que então gravam seus pontos de vista, talvez, pela única vez na vida. O filme não precisa de diálogos e/ou offs para ser compreendido, tão grande é a força dramática dos tantos acontecimentos que não param de surgir, alguns bem curiosos, como os olhos de uma serpente ressecada ou o olhar falido de um bovino sendo descarnado pra virar comida e tapete. Como o nome do filme sugere, o foco esta nas entrelinhas dos olhares, passivos e ativos, que observam ao mesmo tempo em que são vistos por uma câmera/espelho que despreza legendas pois aqui são outros os símbolos que se manifestam em sentimentos que vão da graça ao espantoso espantoso medo ou à simples curiosidade. Guilherme Whitaker

Capitão Zum: O Fora de Sync
& Capitão Zum: Capitão Zum e O Cangaceiro da Moviola

de Fabrício Tadeu | RJ | 2004 | 10 min | Mini-DV/DVD

A Mostra do Filme Livre orgulhosamente apresenta... ELE! Somente ele! O mártir dos quiprocós cinematográficos. O Macunaíma das artes plásticas e dos desocupados. O grande super-herói metalingüístico. Ele: nada mais nada menos que Capitão Zum, que sempre surge quando a coisa tá preta no escurinho do cinema. Tudo aconteceu quando Tony Jorge e Alfredão, pacatos zeladores de uma locadora de equipamentos, viram o aterrorizante tremor que revelou o oráculo sarcófago de Maya Asteca Potyguar - o Cineasta Tamoyo. Abduzidos, regressam herdeiros de misteriosos poderes, tornaram-se guardiões da ordem audiovisual e personagens de um filme Z.Independente da ordem alfabética em que se enquadram – ou justamente por serem “Z”, de “Zum” – o Capitão é um grande barato feito pelo pessoal do Cine Buraco, local que agitava o Rio há pouco tempo atrás. Apropriação pop do mundo dos super-heróis, a série (que conta com cinco episódios) nunca se esconde enquanto filme e parodia a própria maneira técnica cinematográfica. O visual tropicalista-marginal vem a cargo do artista plástico Cabelo, que faz o Capitão. Para esta indicação, consideramos os episódios 3 e 4 como um filme só (até porque um é a continuação do outro): No primeiro, o temível vilão Fora-de-Sync (vivido pelo desconcertante Líbero) inventa uma pílula que tira a sincronia das falas do grande Imperador do Marangá, o Rei da Mata Virgem (interpretado pelo magistral Godofredo Quincas). Este aristocrata marajoara só será salvo no filme seguinte graças a ajuda do Cangaceiro da Moviola, que é o veterano montador Severino Dadá. Diversão garantida ou chame o Capitão Zum se houver problema. Christian KZL

Euclydes & Anna  
de Fernando Coimbra | SP | 2002 | 12 min | Mini-DV/Betacam

A primeira imagem do filme é o guia 4 rodas sobre a cama, ao lado de”Os Sertões”, do Euclides da Cunha, obra que em 2002 fez 100 anos e motivou a produção deste curta, mais um exemplo de ”filme amador, caseiro” repleto de tesão e questão, até porque tais sentimentos não existem em separado. Um casal nu num quarto que depois vira mundo, com seus mares e horizontes e portos e movimentos. Um mundo imagético que não precisa falar com palavras mas que grita muda e explicitamente com imagens na sua busca pelo”significar alguma coisa”, seja na hélice genética da cavernosa sexuação humana, quando os dois corpos se transformam num só, ato de prazer. Euclides e Anna agora sobem e sobem e sobem rumo ao horizonte, tudo registrado ao acaso, sem que a protagonista soubesse que aquilo um dia viraria um filme e que seria visto por mim ou por você. Imagens de uma viagem animada. É também um filme”de edição”, não teve roteiro nem produção e a direção foi guiada pelo mesmo acaso que fez da solitária mosca próxima da luz um figurante. Ou seja, gerado nas férias do prazer, o filme nasceu nos braços duma ilha para, cem anos depois da obra ser Cunhada, ser refletida também em vídeo. Apenas uma cena foi ensaiada, exatamente a última. Guilherme Whitaker

Labirintinho - parte 2
de Rafael Scaggion | SP | 2005 | 4 min | DVD

Eu preciso ter féUm curta de quatro minutos pode ser algumas coisas (não muitas), se suas idéias forem apresentadas com precisão e com grande poder de síntese: um filme-piada, um ensaio formalista, uma versão de um videoclipe. Mas para Rafael Scaggion, diretor de Labirintinho, trata-se de “tudo ou nada”: quatro minutos são suficientes para um ato de confissão, um tratado metafísico, um mergulho doloroso e ambíguo de consciência. Labirintinho é, antes de tudo, um filme religioso. Não que seja apologético, muito ao contrário, mas verdadeiramente religioso, contra a religião dos fariseus, em favor de uma religiosidade pura, talvez mais próxima à filosofia. Mesclando com grande inventividade imagem, texto e som, Scaggion resgatou a grande tradição do cinema das origens: ser um teatro de luzes e sombras, com influências indiretas do expressionismo alemão, tanto na mise-en-scene (as sombras, a falta de diálogos, a encenação frontal, quase como um tableaux suspenso) quanto na essência (o fatalismo, a tendência ao melodrama, o absurdo da condição humana). Em seus questionamentos contra a resignação, em busca de um sentido das coisas, surge o tema da liberdade, que estilhaça este breve mas desconcertante video, de uma morbidez quase infantil, pois só as crianças ainda têm coragem de perenemente questionar o sentido das coisas. Com o questionamento, surgem a dor e a doença, a miséria da condição humana e os limites do mundo. Marcelo Ikeda

Landscape Theory
de Roberto Bellini | MG | 2005 | 5 min | DVD

De repente um risco cruza lentamente a tela. É o céu sendo manchado pela tecnologia kilometrica. Certa vez você foi num lugar onde acontecia algo singular: todos os dias milhares de formigas surgiam de um buraco no meio da rua ao meio-dia e faziam um mesmo caminho até um poste e, nele, desapareciam debaixo da Terra. Você então pega sua câmera de vídeo para registrar este inusitado acontecimento. Você tranqüilamente espera, será que elas virão hoje? Enquanto isso, o céu alimenta as inspirações. Surge então o risco e, junto com ele, o segurança de um prédio. Em off, vocês dialogam sem nunca aparecerem. Você segue filmando e grava o papo ali batido, que depois na edição serviu como pano de fundo das imagens que se seguem e que, paradoxalmente, compõem essa teoria sobre a absurda paranóia relativa à “questão de segurança” no mundo norte-americano e, como não, sul-americano e mundial... O segurança avisa que é muito perigoso filmar ali, que a polícia já prendeu vários e que pode chegar a qualquer momento... Mas surgem as formigas e são mesmo muitas... Guilherme Whitaker


Mora na Filosofia
de Gustavo Acioli | RJ | 2004 | 9 min | 35mm

A história deste curta é longa. Gustavo estava a fim de fazê-lo faz tempo; ele se juntaria ao também sensacional “Nada a Declarar”. Mas quase como fez “Tarantino e seus Kills Bills” (pô, isso dá nome de banda), Acioli resolveu separá-los e deu vida a duas obras instigantes. Fugindo da concisão do curta anterior – que, basicamente, era composta por uma entrevista jornalística – Acioli mais uma vez vai fundo nas feridas, porém agora amparado por bases filosóficas e múltiplas narrativas. Baseado em Platão e na mitologia grega, o diretor (e também autor do roteiro e narrador do off) descarrega sua lábia ainda mais ácida traçando paralelos como o da sociedade atual e o mito da caverna. A execução do Sócrates pós-moderno, sem cicuta, mas com um 38 na cabeça, tem um destino ainda mais trágico quando seu fim se mistura ao Totobola. E assim vai. Sabendo do histórico da produção, podemos comparar o personagem principal com o detestável e maravilhoso protagonista de “Nada a Declarar” (ambos vividos pelo ótimo Bruce Gomlevsky), tornando ainda a leitura de “Mora na Filosofia” ainda mais rica. É isso aí; filme sem historinha, sem frescura, sem nada  global, mas que Vale a Pena Ver de Novo. Christian KZL


O Estrangeiro
de Gabriel Sanna | MG | 2004 | 3 min | DVD

A ausência de si mesmoO que é ser um estrangeiro? Como é sentir-se um estrangeiro, em exílio voluntário, num não-estar lá nem aqui? O escritor Edmond Jabès, de origem judaica, foi um dos grandes pensadores contemporâneos sobre o tema, e dizia que o estrangeiro não é apenas quem tem outra nacionalidade ou quem vem de outro país, mas simplesmente alguém à procura de um desconhecido e que, de fato, é de lugar nenhum. O estrangeiro, na verdade, passa a ser o eu a procura de um si mesmo desconhecido e, por isso, revela-se um ausente de si mesmo. O curta de Gabriel Sanna retoma, de forma indireta, os temas de Jabès, para compor uma reflexão sobre a perenidade da memória, através de estilhaços de imagens e sons que recuperam de forma necessariamente incompleta e parcial o delírio de viver, o desafio de existir. Ao contrário da ilusão romântica do contato com o outro, há apenas o espaço físico, a incompletude da vida, o esvaziamento da memória, a fragmentação da contemporaneidade, do indivíduo. Esses temas são espelhados por uma estética estroboscópica, em que a memória fragmentada se confunde com o próprio princípio da persistência retiniana, essência do cinema. Com isso, sua estética relembra o cinema das origens, e se filia a uma tradição estética vanguardista da intimidade que lembra os filmes de Jonas Mekas. Ao final, fica a sensação que Gabriel Sanna concorda com Jabès, que afirmava que o autor (o escritor, o cineasta) é no fundo “o estrangeiro dos estrangeiros”. Marcelo Ikeda

Quem Navega no Mar Sempre Encontra um Lugar
de Dellani Lima | MG | 2005 | 5 min | Mini-DV/DVD

”Viver o agora, a cada momento como se fosse único e não existisse mais nada.” Wilson Dellani Lima Neste poema audiovisual Dellani Lima penetra em um meio cujo tempo e espaço são regidos unicamente pelos movimentos imprevisíveis da natureza. O acaso como caminho. O caminho como presente.O presente como amplidão.Karen AkermanTchau, paide Lívia Izar e Ricardo E. Machado | PR | 2005 | 2 min | DVDDepoimento do diretor Ricardo Ernest Machado: “Esse curta acabou emergindo de uma cena flagrada durante as filmagens de um outro documentário,”Oséias”, sobre o artista Oséias Leivas Silva, que esta preso há 12 anos por ocultar um latrocínio; tudo aconteceu muito rápido...”Na materialidade das imagens que a câmera consegue captar, um encontro único. Um momento. Um recorte. Um aceno do tempo. Vislumbramos o que ficou de fora, os outros tempos e outros espaços.Um filme que nasce de outro filme e se torna um retalho da eternidade. Karen Akerman

Tchau  pai
de Lívia Izar e Ricardo E. Machado | PR | 2005 | 2 min | DVD

Depoimento do diretor Ricardo Ernest Machado: “Esse curta acabou
 emergindo de uma cena flagrada durante as filmagens de um outro
 documentário,”Oséias”, sobre o artista Oséias Leivas Silva, que esta preso há 12 anos por ocultar um latrocínio; tudo aconteceu muito rápido...”Na materialidade das imagens que a câmera consegue captar, um encontro único. Um momento. Um recorte. Um aceno do tempo. Vislumbramos o que ficou de fora, os outros tempos e outros espaços.Um filme que nasce de outro filme e se torna um retalho da eternidade.  Karen Akerman






Veluda

de Ana Rieper | RJ | 2005 | 8 min | DVD

Uma lugar num povoado de Alagoas, crianças na porta e uma mulher segurando uma mamadeira. A mulher caminha pela Terra, entra num sítio e vai por entre o verde onde borboletas amarelas a seguem. Adiante um par de porcos a recepciona com estardalhaço, vendo-a seguir colina acima. Do alto da colina vê-se um rio que, lenta e indiferentemente, move-se enquanto a mulher chama por Veluda. O curta de Ana Rieper é mais um fruto do potencial criativo de uma pessoa com idéias (o tal artista) à simplicidade de uma produção caseira repleta de signos embutidos. Cada vez mais filmes são feitos mundo adentro, com câmeras amadoras eou nem. É o tipo de filme que “qualquer um poderia fazer”, porém sabemos a distância entre o falar e o fazer de fato, não apenas a gravação mas o resto, o filme enquanto início, meio e fim, enquanto discurso, coisa formatada e apta a ser tecnologicamente vista. Ana estava ali, lá, num presente já passado mas obviamente ainda vivo nesta obra. Tal filme, assim como tantos outros da MFL, exemplifica o poder da imaginação e da livre-iniciativa (vontade) de pessoas que filmam acontecimentos peculiares, como no curta “Landscape Theory”, mostra o que acontece todos os dias em vários lugares e desde muito tempo, décadas e mesmo milênios. Outra questão interessante que o filme permite é: O curta é um documentário ou uma ficção? É um fato ou um ato? É possível ser ambos ao mesmo tempo? Guilherme Whitaker




Filme Livre! OFICINANDO
Dia 15/2 - Sala 26 do CCBB
Filmes realizados em oficinas, escolas, universidades públicas ou privadas.


Veja & Ouça - Maria Baderna no Brasil
de André Francioli | SP | 2004 | 19 min | 35mm

“Veja e Ouça etc etc” resgata, em pleno século XX1 um oportuno elo perdido entre duas entidades (sic) perdidas e malditas da cultura brasileira: a bailarina italiana Maria Baderna (que veio ao Rio no período do Império) e o nosso tão querido Cinema Marginal. Maria, escandalosa, tanto fez que seu sobrenome virou sinônimo de baderna, digo, bagunça, e baixa de Pomba-Gira no despacho cinematográfico promovido por André Francioli em seu filme de realização pela USP. O resultado, anárquico, baderneiro, invade como um sem-terra o campo improdutivo da pasmaceira cultural atual, sem medo de ser taxado de “marginal”, “Glauberiano” ou qualquer coisa que o valha. E sem envelhecer um tantinho sequer; extirpando nostalgias dos “tempos rebeldes”, cujos ídolos morreram de overdose e viraram estampa de camiseta de muderninho. Veja e ouça. E duvide das revistas que dizem falar a verdade. Christian KZL


Homens Pequenos no Ocaso Projetam Grandes Sombras
de Tim Gerlach | RJ | 2005 | 17 min | 16mm

“Não existe guerra alguma, é apenas o capital cruzando o mar” trecho de uma letra de Fred 04Desde a metade do século XX, sob o pretexto da defesa da liberdade de comércio e da democracia, os EUA arrasaram dezenas de países, além de apoiar incontáveis ditaduras militares e invasões criminosas. Mas para quem vê a guerra pela televisão, haverá sempre uma palavra de conforto. Em diversos discursos oficiais dos EUA, durante as guerras no Iraque e Afeganistão, o governo e seus ministros declararam estar agindo em nome de Deus, contra o “Mal”. Sempre haverá um “mal” no mundo a ser combatido, principalmente quando este “Mal” é tão malvado que impede que nações ricas como os EUA enriqueçam inventando guerras que arrasam países pobres, militar e economicamente. “Homens Pequenos no Ocaso Projetam Grandes Sombras” é um ensaio sobre a indiferença de quem está no poder no momento em que as grandes guerras são decididas. Não importa a comunidade internacional, nem as vítimas que sofrerão com uma guerra nuclear. O que importa é o livre comércio...“Não existe guerra alguma / É apenas o capital cruzando o mar” (já profetizou Fred 04, do Mundo Livre S/A). A narrativa, silenciosa, é dividida em dois momentos distintos, como que parecendo indicar que os líderes mundiais decidem a guerra no conforto dos gabinetes, enquanto o sobrevivente moribundo vaga pelo lixo atômico, entre os cadáveres e as baratas, após a detonação das bombas. A devastação nuclear transparece no filme com elementos aterradores; o silêncio sufocante, a tensão crescente com os planos dos relógios numa irracional contagem regressiva para o fim do mundo, os diálogos secos, o grito no vazio do sobrevivente, uma aparente impotência sobre uma nova (e última?) corrida armamentista mundial. Chico Serra

A Sentinela
de Michelle de Paula | BA | 2005 | 22 min | DVCam/DVD

Aconteceu algo peculiar nesta Mostra: houve um boom de inscrições de curtas sobre presídio. Vários deles muito bons e tratavam de forma coerente este assunto tão complexo, mas poucos se encaixaram no perfil da MFL. Como então tratar o assunto “prisão” de forma “livre”? Até que ponto fazer isto não seria uma contradição? A baiana Michelle de Paula manteve o equilíbrio entre documentário-denúncia e a invenção. Começando com um longo e provocador plano-seqüência de uma câmera de vigilância ao centro da tela, numa clara referência ao panóptico pesquisado por Michel Foucault, o filme dá o seu cartão de visitas. Logo após, fica nítida a inumanidade de uma situação imposta: a câmera (da realizadora) registra apenas objetos, lugares vazios, planos-detalhes de goteiras, etc, sem mostrar uma pessoa, tendo como base o depoimento (assustador) de uma detenta adolescente. Ela narra o seu cotidiano por lá, os códigos de sobrevivência aos quais tem de passar e sua vida pregressa. Ou seja: áudio + visual se encaixam produzindo um discurso vigoroso. Outro ponto a ser ressaltado é a beleza crua das imagens, que aproximam o filme da videoarte, mas que ganha aqui um caráter muito além da abstração, coisa rara de se ver neste tipo de trabalho. Christian KZL

Nada com ninguém
de Marcos Pimentel | MG | 2003 | 14 min | Mini-DV/Betacam 

Um homem velho, Dionísio, vive com seu filho Benito (considerado pelos moradores do vilarejo mais próximo “um garoto selvagem”) numa casa de montanha. A última vez que Dionísio recebeu uma visita foi há cinco anos, de um amigo que sempre o vem visitar. Marcos Pimentel, então estudante de documentário da EICTV, de Cuba, tinha que fazer sozinho, como exercício, um documentário sobre um único personagem. Viajou para a região de Sierra Maestra, lugar de origem da Revolução Cubana. Chegando lá resolveu se embrenhar pelas florestas, seduzido pelas lendas sobre Benito, mas o encontro se deu mesmo foi com seu pai, Dionísio.Logo na abertura do filme a frase sobre tela preta - “sou de poucas palavras, o silêncio é um exercício diário de minha personalidade, foi o que me levou até Dionísio” – aproxima o espectador da experiência vivida pelo realizador, no caso, desde o princípio, um personagem do filme. Antes de vermos quem é Dionísio, Pimentel já se apresenta, já se coloca, já está ali, vivendo a experiência junto com seu personagem, escolhido exatamente pela identificação com um aspecto de sua personalidade. Neste sentido, o documentário é o diário filmado por Pimentel em sua passagem pela vida de Dionísio. Sua contemplação, sua aproximação gradativa, os longos momentos de silêncio, acompanhados por frases de reflexão do diretor/personagem. Com imagens que parecem pinturas (influência do pintor holandês Veermer), uma decupagem rigorosa que não se preocupa apenas com o belo enquadramento, mas se coloca o tempo todo como o próprio corpo do observador, e uma montagem análoga a métrica de um poema, Nada com Ninguém é, segundo palavras do próprio diretor, “uma fábula, um conto de fadas”. Karen Akerman


Sobre a Maré
de Guile Martins | RJ | 2005 | 13 min | 35mm 

O protagonista, um ser ideal, não precisa falar nada para fazer sentidos. Apenas vive, atua, e o faz de forma instigante. Também a fotografia, a edição de som e a direção de arte chamam a atenção e desempenham importante papel na força plástica e daí dramática do curta. Assim como em tantos outros filmes da MFL, “Sobre a Maré” não precisa de offs e nem mesmo de diálogos para explicitar suas questões, que são poéticas e também técnicas, o que é simplesmente ótimo na medida em que tal curta é também fruto de um dos prêmios mais originais do Brasil, o Projeto Sal Grosso, que regularmente acontece durante o Festival Brasileiro de Cinema Universitário e que propõe a realização de um curta coletivamente por alunos de 5 universidades brasileiras, cada qual desempenhando uma função no filme. Rodado em 35mm durante 8 dias no Rio de Janeiro. A presença da água no filme é uma constante, do início ao fim o que mais se vê são pingos, gotas, umidade e sons relativos a presença deste vital elemento em cena. Do alto de um prédio vê-se as formas da cidade já velha e suas antenas, caixas d’águas, cores e sons quase infinitos. De seu urbano barco cosmopolita o herói pesca uma boneca inflável, não usa rede mas uma espécie de anzol rudimentar mas ainda eficaz. Agora bem acompanhado, ele dorme e, assim, sonha com sua musa. Adiante acorda para a “realidade” de seu plastificado mundo e, talvez desiludido, observa de seu terraço a noite e a chuva.  Guilherme Whitaker


Trânsito por Dora
de Paula Faro | SP | 2005 | 11 min | 16mm

Viver a vida. O autor muitas vezes já foi comparado com um títere, que controla o rumo de suas marionetes ao seu bel prazer. Mas no curta de Paula Faro, o que importa é a luz de uma marionete, sua possibilidade de sobrevivência, de esperança, de desejo. Com isso, toda a trajetória do curta é de uma singela via-crúcis por uma tentativa de viver a vida, de tornar a matéria inanimada capaz de se libertar de suas correntes e ter um olhar, pulsar um desejo. Aqui, romper as correntes é estilhaçar inclusive as possibilidades da narrativa cinematográfica. Dessa forma, foi várias vezes mal interpretado como um mero entremeio entre a videodança e a videoarte. O corpo se revela cárcere da alma, mas por ele transpassa esse desejo incontido de libertação, que percorre todo o filme, que conta com um trabalho singular de interpretação e postura corporal. Essa desesperada tentativa humana dessa marionete ganhar vida é pontuada por Faro por um cinema austero, mas de grande intensidade poética e de intenso vigor cinematográfico, que dialoga (de forma indireta) com um cinema feminino vanguardista, especialmente o de Maya Deren. Como um anjo caído, a marionete, ao ter contato com o mundo das coisas, percorre a geografia urbana de São Paulo e se entrelaça com ela: as placas de trânsito desorientam a passagem da marionete sonâmbula, como se estivesse num castelo de cartas, num labirinto urbano evocado de Alice no País das Maravilhas. Por entre ruínas abandonadas, semi-mortos vêem seus sonhos de redenção fracassados. No alto de um prédio, a possibilidade do suicídio, acompanhado por um soturno mestre-títere que explicita os recursos do expressionismo alemão, base de referência do filme (acompanhada pela trilha sonora). Pelo caminho, a marionete encontra nada mais a não ser a si própria. No fim do caminho, há uma porta (na verdade, já havia desde o início). Quem ousar abri-la que encontre que encontre a dor e a delícia de ser de carne e osso. Marcelo Ikeda

Filme Livre! CARÍSSIMA LIBERDADE

Dia 16/02 - 16:30 - Sala 26 do CCBB
Participam filmes realizados com apoio estatal. Em 2004 e 2005 a MFL praticou um prêmio específico para filmes feitos sem apoio do estado, chamado Cara Liberdade. Em 2006 resolvemos inverter a posição e criar um prêmio especifico para os filmes com apoio estatal, deixando os principais prêmios da MFL para filmes

Deu no Jornal
de Yanko Del Pino | RJ | 2005 | 3 min | DVCam/35mm

O veterano e um tanto sumido Yanco Del Pino deu a volta por cima e acertou em cheio nesta animação altamente autoral e estimulante. Não há como não ficar envolvido com o filme, com o crescendo da “narrativa” e com a maneira como vão sendo compostas as fantasias do narrador. Também aposto que muita gente já deve ter feito algo muito parecido na vida, mas que não falou pra ninguém (não vou me estender muito aqui para que o espectador tenha as devidas surpresas). E o melhor de tudo: fez tudo sozinho, na cara e coragem, em casa e sem grana. E sem saber desenhar sequer. Mas o resultado taí, superbonito, original e, principalmente, livre. Só no finalzinho, nos 45 minutos do segundo tempo, que Yanco conseguiu apoio governamental pra ganhar uma cópia em 35mm. Merecido, prova que a dedicação “deu no cinema” (o curta também ganhou prêmio no Vitória Cine Vídeo e foi exibido no Festival Luso Brasileiro de Cinema, em Portugal). Então, cara, é isso mermo, vai por aí, com o apoio também da Mostra do Filme Livre.


Início do Fim

de Gustavo Spolidoro | RS | 2005 | 7 min | 35mm

Um plano aberto que mostra um homem sem camisa na varanda/bancada de um palácio branco de colunas avantajadas. Aos poucos o som vai dominando a tela com sirenes num crescente clima de agitação popular. Já dentro do palácio o homem revê algumas fotografias e sutilmente coloca um LP, lá fora (ou dentro da cabeça dele?) segue o clima tenso, agora com tanques eou aviões passando, mas na casa reina a melodia de uma caixinha musical. Quem seria aquele homem? O que estaria acontecendo de fato ali além do início de mais um fim? Ele representa, talvez, o que aflige milhões de pessoas no dia-a-dia contemporâneo, um Ser impotente diante de seu próprio destino, um herói passivo soterrado por um passado talvez feliz e um futuro não muito animado. Guilherme Whitaker


Nascente

de Helvécio Marins Jr. | MG | 2005 | 16 min | Mini-DV & Super-16mm/35mm

Não sou eu quem me navega, ...Através do Rio São Francisco, o filme é uma viagem poética por um Brasil interior (um Brasil verdadeiramente interior, e não o interior de Dois Filhos de Francisco, evidentemente). Nesse percurso cabe todo o cinema brasileiro: está lá o interior dos filmes de Candeias, a frágil canoa de Limite, o sertão-mar de Deus e o Diabo, está lá o mar revolto de alguns dos filmes do Bressane. Está lá o cinema brasileiro, puro e desvirginado, poluído e prostituído. Está lá pulsando discretamente todo um Brasil, um Brasil interior que percorre vários estados, de Minas a Bahia, mas sem nenhum “panfletarismo regionalista” que tanto tem assolado nosso cinema. Há também todo um cinema poético mineiro, todo um percurso de um certo cinema que se vem buscando, pelos membros da Teia, pela jovem vanguarda mineira. Está lá também um percurso individual, um percurso pessoal: não só do próprio personagem que navega o barco, mas deste autor que guia os rumos do barco-filme. Está lá também uma investigação humilde sobre a natureza (não só das coisas como da condição humana), sobre a solidão, sobre o destino, sobre a vida nossa. Está lá um sentimento de cinema que se articula de forma muito íntima com um sentimento de mundo.Esse rumo - poluído e puro, individual e coletivo, real e cinematográfico, poético e realista, ficcional e documental - também me fez colocar uma questão: é o homem que conduz o barco, ou o barco que é levado pela correnteza? Para sabê-lo, decerto que se deve fazer mais outro filme. Quiçá outros. Marcelo Ikeda

O Mundo É Uma Cabeça
de Cláudio Barroso e Bidu Queiroz | PE | 2005 | 17 min | 35mm

 “Das antenas da Manguetown para as telas do Mundo Livre” inspirado livremente em textos de Jorge du Peixe e Fred 04Filmado em meados dos anos 90, o documentário musical O Mundo é uma Cabeça registra o momento de construção tática, ideológica, cultural e política do mangue beat. Do encontro, segundo o músico Otto, de ”dois combatentes às avessas”, de Chico Science, com sua “leitura negra e primitiva da periferia de Recife” com Fred 04 (“jornalista sartreano, um punk fazendo samba”), conscientes de que para o mercado cultural se renovar, era preciso olhar para outros pólos.(“Não espere nada do centro / Se a periferia está morta / Pois o que era velho no Norte / Se torna novo no Sul”). Não se tratava de um artista novo, mas de uma nova cena, antenada com tudo que está rolando no mundo livre e enraizada como uma parabólica na lama, imagem sintética do movimento. A utopia coletiva da manguetown é captada de dentro para fora, e seu reconhecimento não vem apenas do seu território de origem, mas além das fronteiras do terceiro mundo. Das imagens aéreas dos manguezais, sai o batuque virado, o grave sistema de som, recarregando as baterias da “Veneza esclerosada, destituída”, concebida experimentalmente no “norte” para só depois de anos cair nos ouvidos dos produtores e agentes das corporações de entretenimento do “sul” (do Brasil). Música sem rótulo, nova em folha, o mangue beat busca em seu discurso poético a analogia entre a diversidade ecológica do mangue e sua pluralidade musical. Por isso, nada errado em encontrar Mestre Salustiano com Kraftwerk, côco de roda com funk, Josué de Castro com Subcomandante Marcos. Chico Serra

O Som da Luz do Trovão
de Tiago Scorza e Petrônio Lorena | RJ | 2005 | 20 min | Mini-DV & 16mm/35mm

A dupla Tiago Scorza e Petrônio Lorena tem se especializado em fazer documentários bem articulados sobre pessoas escolhidas a dedo. Em sua estréia eles optaram pela miscelânea de temas e técnicas a partir da história do cordelista Raimundo Santa Helena; mas agora, com ”O Som da Luz do Trovão” eles dão um passo de maturidade através da figura do inventor pernambucano Evangelista Inácio de Oliveira. Personalidade inquieta e arretada, Evangelista é uma espécie de Da Vinci nordestino, que criou desde robôs a asa-delta, passando por armas e até câmeras de cinema. Chegou ao cúmulo de bolar uma teoria de que a Terra seria iluminada ao contrário pelo sol. Maluquices (ou não) à parte, o doc tem a mesma versatilidade de seu personagem, criando uma série de soluções para as situações narradas: utiliza animação, leva Evangelista para locais certos (como o planetário, para comprovar sua teoria) etc. O melhor fica com o caráter metalingüístico do curta, quando o inventor destrincha a câmera que inventou e, com ela, um pouco do cinema. Christian KZL




Filme Livre! SÉCULO XX
Dia 17/02 - 16:30 - Sala 26 do CCBB
Participam filmes realizados no século passado. Este prêmio é importante pois normalmente os festivais aceitam filmes com até dois anos de vida. Ou seja, filmes mais antigos, principalmente dos anos 70/80, muitas vezes não foram vistos nestes idos pré-digitais e sob ditaduras era ainda mais difícil, depois de terminado o filme, conseguir exibi-lo de forma regular para um grande público, ainda mais sendo curta-metragem. Grandes obras de nosso cinema seguem no anonimato muito por conta destes detalhes. O prêmio permite que tais filmes sejam revistos eou mesmo resgatados para um novo público interessado. 

A Pátria
de Jorge Mourão | RJ | 1977 | 3 min | Betacam

Já raiou a liberdade...Se não fosse pelo título, nada nos faria associar este filme de Jorge Mourão a uma idéia de nacionalismo ou a algum contexto “maior” que o próprio filme. Daí surge sua essência provocativa. Mas pela força do título, tudo passa a ser repensado, assumindo uma outra conotação: um carro de polícia ao longe, a música operística ao fundo (inserindo toda uma carga dramática que se contrapõe à irreverência das imagens), o suposto conteúdo das revistas que servem apenas para limpar os órgãos genitais do realizador, o creme de barbear espalhado pelo corpo nu, as sombrias escadarias onde se vê escrito a palavra “medo” em seus degraus, o vômito desenfreado numa privada suja, a penumbra do claustrofóbico loft. Mas aqui não há discurso, não há um “filme político”: há no máximo o sentimento de que “a pátria” para Mourão é o símbolo das instituições, o aparelho repressor que impede a liberdade do indivíduo e reprime a diferença. Se a partir da sujeira, da escuridão e da desorganização se faz referência à opressão de um regime militar, por outro lado, por meio desses elementos, o diretor cria uma nova forma de cinema, livre de todas as imposições do cinema convencional. Esse é o paradoxo de Mourão: mesmo sujo e zoneado, a generosidade de Mourão em relação a esse loft é tanta que torna o filme acolhedor, apesar de desconcertante. É o cinema que no momento parece possível. Marcelo Ikeda

Amérika
de Octávio Bezerra | RJ | 1979 | 9 min | 35mm/DVD

A história das américas está praticamente toda contida no primeiro plano de Amérika, uma panorâmica sobre a floresta, com flautas indígenas que somem ao som das bombas e tiros de fuzis. Corta para o mapa da América Latina e uma cartela com letras em vermelho e o manifesto da Confederação Indígena de América de 1973: “Nossos arcos e flechas, instrumentos que nos proporcionam alimentos nada puderam contra as armas que durante séculos foram aperfeiçoadas para matar homens. Por isso fomos derrotados.” O que se segue é um mosaico fotográfico da América Latina, uma colagem de fotos tiradas em vários países do continente sul-americano, entre 73 e 76, documentando populações, símbolos e personalidades históricas, não esquecendo a realidade dos povos indígenas, arrancados de suas terras e transformados em trabalhadores braçais e mendigos de cidades, a religião católica e o militarismo, o sonho, a ilusão norte-americana do consumo (“A expressão mais sofisticada de dominação”), o saque da América Índia, Inca, Maia, Branca e Negra com sangue, armas e fome. Chico Serra


Boato: uma autodefinitude
de Grupo Boato | RJ | 1991 | 14 min | 16mm

“Uma idéia na mão, uma câmera na cabeça”A primeira imagem: uma manivela mântrica/macunaímica, um ideograma audiovisual: a mão produz o movimento do tempo que gira e assobia vibrando suave e contínuo o que não se decifra. “É favorável atravessar a grande água.”Um plano virgem da Lagoa Rodrigo de Freitas. Sete homens nus emergem das profundezas das opacas pequenas ondas negras em contraluz. Sete sereios esguichando seu mel, espalhando música, penetrando nas veias da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Um passeio com estes poetas - músicos, atores, inventores - que pescam o que encontram pelo caminho e brincam com a linguagem do cinema, transfigurando os signos e incorporando ao seu universo, sintetizando suas idéias estéticas em uma montagem caótica e cheia de harmonia. O Grupo Boato surgiu em 1989, formado por um grupo de estudantes que faziam performances nas universidades cariocas e espaços públicos, e mais tarde se transformou em uma das mais expressivas bandas do circuito alternativo carioca. Transitando entre/com a música, a poesia, a performance e as artes plásticas, em um dado momento surge a vontade de fazer cinema. Filmado em negativo 16mm vencido, com direção coletiva do grupo, Boato:Uma Autodefinitude estreou em agosto de 1991, numa mostra chamada “O Q Há de Novo no Rio”, neste mesmo Centro Cultural Banco do Brasil. Depois foi exibido no Festival de Brasília, São Paulo, na XIX Jornada de Cinema da Bahia, no IX Rio Cine Festival. Segundo os autores que estiveram presentes para apresentar o filme: “É um curta sem pretensão. No cinema é legal passar uma coisa sincera. Ainda mais em tempos de guerra”. Em uma carta lida, enviada pelo integrante Beto: “O Boato é cinema fornicando com a poesia, mulher infiel, graças a Deus!”. Karen Akerman

Brasil 1872.000 minutos/Noves Fora?
de Jorge Mourão | RJ | 1977 | 18 min | Betacam

“Foram esses 150 metros quadrados, pioneiros da “revitalização da Lapa”, que conseguiram arredondar a piração de uma chegada fugida e transformá-la em arte.” Jorge MourãoJorge Mourão estava exilado em Nova York na época da ditadura quando, por ter se envolvido em atividades não convencionais, precisou regressar ao Brasil. Aqui chegando ocupou um sobrado “decadente” na Lapa, bem embaixo dos arcos, que veio a se transformar no “LOFT - Galeria Alternativa - laboratório de criação, galeria de arte, studio de filmagens, sala de exibição, auditório de poesia, aparelho de conspirações culturais, manifestações, sede dos ARCHIVOS IMPOSSIBLES by Mourão”. 1872 000 minutos/noves fora? é um registro documental, poético e pirante do que acontecia neste lugar, sendo o título a conta “minutiosa e questionante da estadia forçada no espaço que segurou esse tempo, do tempo que segurou esse espaço. “   Karen Akernan


Cinemação Curtametralha

de Sérgio Péo | RJ | 1978 | 12 min | 35mm/DVD

Seguindo a linha guerrilheira de outro curta também indicado pela mostra (“Cinemas Fechados”), o veterano Sérgio Péo não mediu papas na língua e na câmera para compor a sua metralhadora de farpas, principalmente quanto a situação vigente de então (ano: 1978). E “Cinemação Curtametralha” trata exatamente do momento em que os curtas-metragens foram regularizados para serem exibidos antes dos longas estrangeiros. Mas o que foi uma aparente vitória (nitidamente celebrada no filme), esbarrou depois com uma série de entraves. Afinal, tudo era mais complicado para o cinema de invenção: se nos longas as pessoas se digladiavam pelas verbas na Embrafilme ou faziam pornochanchadas popularescas, os curtas passaram a serem feitos nas coxas para cumprir a obrigação governamental, conseqüentemente sendo odiados pela população. Estas não eram as metas de Sérgio, o que pode ser visto aqui: uma tentativa de pôr a cara do povo na tela e de botar o bloco na rua, usando a voz off, imagens carnavalescas e a música de Ney Mattogrosso. Apesar do assunto datado, “Curtametralha” continua gerando as mesmas questões caras a todos nós. Afinal ainda estão lá a eterna briga do cinema americano X cinema nacional (de quase qualquer país), a falta de espaço para a exibição de curtas-metragens e a defesa deste formato como espaço privilegiado para o antihollywoodianismo. Péo era, em plena ditadura, um batalhador pelo cinema independente, proposta bastante relevante por esta Mostra. Como os tempos mudaram, ver sua obra se torna fundamental. Christian KZL

Cinemas Fechados
de Sérgio Péo | RJ | 1980 | 12 min | 35mm/DVD

“Filme feito no calor de uma discussão provocada pela obrigatoriedade de exibição de um curta-metragem brasileiro em cada projeção de um longa-metragem estrangeiro em todas as salas de cinema do Brasil a partir de 1977. Foi um episódio que revelou muitas contradições da força do cinema e sua história. Sem dúvida é um filme/manifesto que, em sua liberdade poética, porta provocações e reflexões.” Sérgio PeoÉ também um filme ambíguo. Ali estão cineastas gritando pela defesa do curta-metragem brasileiro como fator de suma importância para o mundo (!!!), levantando a bandeira da latinidade contra o imperialismo europeu e norte-americano. E ali também está, aleatoriamente, um argentino, que quando perguntado sobre a questão diz que o curta brasileiro nada tem a contribuir pois ainda está sendo muito mal feito. E o mais incrível é que este trecho foi incorporado a montagem, contradizendo todo o discurso do filme (ou simplesmente se “auto-ironizando”).Se por um lado Cinemas Fechados pode ser considerado um filme datado, uma vez que atualmente pipocam espaços para exibição de curtas, por outro é, acima de qualquer coisa - e neste ponto ainda se mantem completamente atual - uma manifestação da vontade de se fazer cinema, um cinema independente, um cinema livre. Karen Akeman

O Reino de Deus
de Vânia Perazzo e Gueorgui Balabanov | PB | 1994 | 26 min | 16mm 

A Igreja Universal do Reino de Deus trilhou um caminho fugaz no lucrativo comércio da fé, contando principalmente com a fé das populações mais pobres do país. O Reino de Deus, documentário de Georgui Balabandu e Vania Perazzo Barboa, produzido em 1989, registra um culto aparentemente cotidiano da Igreja fundada pelo Bispo Macedo, e evidencia a performance catártica promovida pelos pastores, reunindo ao mesmo tempo referências ao espiritismo, a umbanda e a religião católica. Na visão dogmática da Igreja Universal, qualquer referência de outras religiões (Exú, Pomba-Gira) se equivalem ao demônio, e o espetáculo de exorcismo coletivo é narrado pelo pastor como uma partida de futebol. Mas evidentemente este espetáculo, como tudo no showbiz, tem seu preço. E a Igreja, que já naquela época mantinha um programa na televisão e um programa de rádio, precisava muito mais do que da fé dos seus freqüentadores. É aí que se dá a performance mais incrível do filme: numa analogia ao sacrifício dos tempos bíblicos, o pastor afirma que não pedirá nenhuma oferta, vai pedir tudo. É aí, segundo o pastor, o mestre de cerimônias daquele espetáculo religioso, que se vê a diferença de quem é de Deus e quem não é (“somente esses corações vão ser abençoados”), provocando a caótica devoção dos fiéis, que mesmo na pobreza, doam tudo na esperança de uma mudança milagrosa nas suas vidas financeiras. É aí, quando começamos a questionar a função do documentário e o posicionamento dos documentaristas, que surgem as imagens dos outros corações, não tão abençoados assim: os pobres, os mendigos, as pessoas em situação de miséria - curiosamente os únicos planos filmados do lado de fora da Igreja. Chico Serra

Quarto e Banheiro
de Rodrigo Modenesi | RJ | 1992 | 16 min | Betacam

Um novo primeiro filmeA grande maioria dos indicados ao prêmio Século XX é composta de realizadores veteranos, mas a exceção é a presença do jovem Rodrigo Modenesi e seu Quarto e Banheiro, um vídeo despretensioso, realizado em 1992, primeiro curta do realizador. Mesmo que bastante jovem, Modenesi realiza uma espécie de declaração de princípios do que pretende seguir no cinema e o faz com uma impressionante consciência tanto da linguagem cinematográfica quanto das suas próprias capacidades expressivas. Filme absolutamente livre partindo da escassez completa de recursos materiais, Modenesi filma a si próprio, em sua própria casa. A matéria-prima é a rotina do realizador, e, claro, um desejo de cinema. Uma intimidade se instala através de planos alongados e de uma estética rigorosa, valorizada pela decupagem. A ação se dá pela inação (o não-fazer); a presença se instala por uma ausência (o não-estar lá). Com um domínio desse espaço-tempo particular, o jovem realizador apresenta, em dissonância ao estereótipo do “cinema adolescente”, um pequeno estudo sobre a solidão, sobre o esvaziamento da rotina e o estatuto da própria imagem dentro desse casulo claustrofóbico. Marcelo Ikeda

Filme Livre! Médias e Longas
Filmes com 30 minutos ou mais, realizados sem apoio estatal.

Dia 8/2 - 16:30 - Sala 26 do CCBB
O Espetáculo Democrático
de Guilherme César | SP | 2004 | 39 min | DVD

“Se Lenin vivesse hoje, ele não ia querer fazer um partido, ele ia querer ser dono de uma cadeia de televisão, porque o instrumento de ação política hoje são os meios de comunicação.” Fernando Henrique CardosoÉ difícil afirmar se a propaganda eleitoral foi a maior responsável pelo resultado nas urnas da campanha presidencial de 2002. O que ficou evidente na campanha de Duda Mendonça foi a transformação estética que fez com que o então candidato Lula mudasse o discurso socialista radical de 1989 para o estratégico “Lulinha Paz e Amor” de 2002, conseguindo adesão de banqueiros nacionais e internacionais, da classe empresarial e de grande parcela das oligarquias políticas que permanecem no poder desde tempos remotos. Essa radical mudança tática (ou seria ideológica?) das campanhas políticas de Lula de 1989 a 2002 é o ponto de partida do documentário O Espetáculo Democrático, de Guilherme César. As imagens de arquivo das campanhas de Lula e Fernando Henrique Cardoso, mescladas com depoimentos de políticos como Collor, Maluf e FHC vão além do registro da ascensão de um candidato a presidência para investigar as estratégias publicitárias e políticas que ajudaram a transformar o “comunista” Lula do final dos anos 80 para o moderado candidato eleito em 2002. As imagens iniciais da festa da posse do Presidente Lula em Brasília relembram o êxtase e uma certa ingenuidade da população, enquanto os depoimentos de intelectuais de esquerda desconfiavam das alianças do Partido dos Trabalhadores com personagens historicamente conhecidos como adversários políticos e ideológicos. Imagens dos bastidores da campanha são entrecortados com as previsões para o governo Lula, indo desde a euforia dos militantes mais antigos, que inclusive hoje se encontram fora do governo (ou do PT, como a senadora Heloisa Helena) até o pessimismo dos que esperavam por uma verdadeira transformação que deixou muito a desejar. Chico Serra

Dia 9/2 - 16:30 - Sala 26 do CCBB
Sobre o Amor em Tempos Difíceis
de Dellani Lima | MG | 2004 | 63 min | VHS, Hi-8 & Mini-DV/DVD

O filme é composto por 3 episódios: O dia após o outro, Nos meus sonhos havia um esgoto e As histórias geneticamente modificadas de Otávio Martini. Poderiam ser 3 curtas, completamente independentes um do outro. Mas não estão juntos, neste longa, à toa. São 3 histórias diferentes, de 3 personagens diferentes. Porém, as 3 histórias têm interessantes pontos em comum: como esqueleto da estrutura - imagens de cada um dos personagens em sua casa; como assunto recorrente – o amor, ou a inviabilidade do amor, que acaba fazendo com que estes personagens se fechem em seus casulos e se percam (ou se achem) nos seus labirintos interiores.O longa exercita o tempo todo a subjetividade pura, a solidão extrema em contato com a busca da sobrevivência. A experiência cinematográfica transitando na fronteira da memória pessoal e da memória histórica. “A exploração do inconsciente como meio privilegiado de resistência e de construção de uma nova identidade. Alegorias sobre o modo serial e sufocante como o homem vive na sociedade contemporânea”, segundo palavras do diretor Dellani Lima.Sobre o Amor em Tempos Difíceis consegue, através de uma linguagem completamente inovadora, trazer a tona uma harmoniosa junção entre a literatura (com brilhantes textos, sejam eles escritos sobre a tela preta, sejam em off, com uma narração ao mesmo tempo afetiva e debochada), a música (trilha sonora original que não somente acompanha as imagens mas sugere climas que não estão no plano) e o cinema (uma mistura muito bem sucedida entre a vídeo arte e o cinema narrativo). Karen Akerman

Dia 8/2 - 16:30 - Sala 26 do CCBB
Trópico de Capricórnio
de Kika Nicolela | SP | 2005 | 30 min | Mini-DV/DVD

O documentário de Kika Nicolela vai fundo na investigação de uma figura singular em todo o planeta, comum sobretudo nas grandes metrópoles: o travesti. Afinal, estes homens foram machos o suficiente para se revoltar contra a própria natureza e para aturar preconceitos e ovos jogados pelos carros de playboys. Mesmo sendo facilmente localizado em seus “pontos” e apesar de chamar uma bruta atenção com o suas carnes e silicones a mostra, todos os “cidadãos respeitáveis” fingem não ver estas jóias raras da humanidade (embora muitos desses caretas façam uso dos serviços deles (as)). A forma com que Kika escolheu para ouvir cinco travestis de SP é tão simples quanto eficiente: pagou-lhes um “programa”, mas apenas para ficarem deitados em uma cama de hotel. Sendo filmados por cima, poderiam falar o que quisessem. Para diferenciá-los melhor, foi dado a cada um uma cor diferente, dando um bom acabamento ao documentário – inclusive as próprias legendas em inglês servem para dar um tratamento gráfico ao filme, tornando-se parte indissociável da versão original. De resto, cabe aos espectadores ouvir as mais picantes revelações... Christian KZL

Dia 10/02 - 16:30 - Sala 26 do CCBB
Um Homem Sem Mulher
de Luiz Pretti e Ricardo Pretti | RJ | 2005 | 104 min | DVD

O “TEMPO ÍNTIMO” DE HOMEM SEM MULHER. Um filme que tenta viver (respirar) a intimidade ao invés de discursar sobre o íntimo. Ricardo PrettiUma porta fechada. O Réquiem em ré menor de Mozart surgindo no início do filme, nos conduzindo discretamente e delicadamente a adentrar na intimidade de um homem. A masturbação aflita, desesperada, só. A música termina junto com o gozo e nos faz ficar a sós com esse homem que está se deparando com a sua solidão. A partir daí acompanhamos, em um tempo corajosamente real, a trajetória de nosso anti-herói em busca de um alívio ou uma resposta ou um sentido ou tudo aquilo que se perde quando se leva um chute na bunda. Não saber o que fazer, pensar no que não foi, sair sem rumo, pensar em nada, procurar um amigo, falar sobre a vida, encher a cara, insistir no que já não é mais, se retirar, experimentar a passagem do tempo e o silêncio. Neste filme bastante singular o que chama a atenção é a forma com que os diretores Luiz e Ricardo Pretti, (sendo o primeiro o câmera, e o segundo o ator do filme) expressam o sentimento do personagem através de um tempo que é real - em todos os sentidos - seja no sentido do “passar do tempo” (a duração da experiência do inicio ao fim do filme) como também no improviso dos atores que vivenciam muito mais do que interpretam aqueles personagens. E ficamos sem saber até que ponto são reais ou criados ali, no momento do plano. Karen Akerman

Os filmes indicados fazem parte da programação normal da MFL, dentro dos 16 panoramas da sala de cinema do CCBB. ´Para cada prêmio também foi criada uma única sessão especial que exibirá, de uma só vez, todos os filmes indicados para cada prêmio. 

As Sessões Indicadas serão na Sala 26 do CCBB, sempre às 16h30.

Sessão Indicada 5 - Dia 8/2 - MÉDIAS E LONGAS- exibição dos dois médias que concorrem ao prêmio
Sessão Indicada 6 - Dia 9/2 - MÉDIAS E LONGAS - Sobre o amor em tempos difíceis
Sessão Indicada 7 - Dia 10/2 - MÉDIAS E LONGAS - Um homem sem mulher
Sessão Indicada 1 - Dia 14/02 - CURTAS
Sessão Indicada 2 - Dia 15/2 - OFICINANDO
Sessão Indicada 3 - Dia 16/2 - CARÍSSIMA LIBERDADE
Sessão Indicada 4 - Dia 17/2 - SÉCULO XX

O Júri da MFL, formado por Joel Pizzini, Paula Gaitan e Rosângela Sodré definirá, durante o evento, os destaques a serem premiados. No último dia da MFL, nas Sessões Premiadas, os troféus e prêmios serão entregues.

Confira AQUI a relação completa dos prêmi


Comente aqui...


Você precisa digitar algo na caixa de texto.
Não foi possível enviar seu comentário.
Informe um e-mail válido.
Você precisa informar um nome.
Você precisa digitar algo na caixa de texto.

Jornal do Curta




[confira outras notícias]