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7o Festival de Cinema Super-8 reúne 27 filmes em competição além de clássicos em

Por Guilherme Whitaker em 06/12/2002 15:36


7o Festival de Cinema Super-8 reúne 27 filmes em competição além de clássicos em Super8 dos anos 70


Foram exibidos mais de 30 filmes, em três dias, no 7O Festival de cinema super-8 de Campinas. Reunindo mais de 800 pessoas no auditório da CPFL, o Festival possibilitou o encontro entre os realizadores, nos debates e nos intervalos das sessões, regados a muito álcool e lúcidas conversações sobre as possibilidades independentes da produção super-8 brasilis. Um dos jurados presentes, o cineasta paulista Sérgio Concílio inclusive tratou de falar ao público sobre a experiência dos realizadores em Super8 da década de 70, que, para driblar os censores, cortavam alguns planos antes de submeter o filme a Censura, e que depois de liberados, eram re-emendados e projetados. As exibições com os filmes alterados causavam a fúria dos policiais e a agitação do público.

Por que filmar em super8 hoje (?) foi a pergunta que circulava no debate, em busca de respostas que não fossem a “insanidade” ou afetividade dos realizadores ou o desprezo pela estética televisiva do vídeo...A desconfiança de que a difusão dos meios digitais seja um grande “marketing tecnológico” , podendo causar no futuro uma dependência comercial não deve ser vista como um exagero paranóico, a exemplo do que já acontece com a constante “modernização” dos softwares e computadores presentes no mercado da informática, lembrou Sérgio Concílio, enquanto o arqueólogo do super-8 dos anos 70 Rubem Machado Jr confirma a tese de que o diretor de um filme super-8 fatalmente acaba passando por todos os processos do cinema, do roteiro ‘a projeção, da fotografia ‘a montagem.

Na sessão de quase meia noite da sexta-feira 22 de novembro, foram exibidos curtas em super8 produzidos nos anos 70; pequenas grandes obras produzidas e esquecidas nos anos da ditadura: O Lento, Seguro, Gradual e Relativo Strip-Tease do Zé Fusquinha, produção de Recife de 78 e dirigido por Amin Steple e Ora Bombas ou A Pequena História do Pau, Brasil, de Fernando Beléns, de 81, clássicos manifestos contra slogans e”mitos” criados pelo regime militar como o Jornal Nacional e o pensamento “vivo” dos militares: “Governar é construir estradas”...

Na programação competitiva, filmes de Minas, Rio, São Paulo, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Geraldo H. Romeu, de Geraldo Magela, narra em voz off (sobre fundo negro) depoimentos de populares de Campinas sobre política, eleições e o assassinato do prefeito Toninho, do PT, ocorrido no ano passado na cidade. De quando em quando surge na tela um personagem desfocado e peladão, frente a uma série de manchetes de jornais. Jardim de Alah, de Caio Jobim, é o encontro do gringo endinheirado com a malandragem fundamentalista carioca: prostituição, cachaça e câmera na mão em seqüências anárquicas filmadas na Central do Brasil e na Zona Sul da Cidade Maravilhosa. A Terra do Silêncio de Marco Scarassatti, conta a origem dos sons com impressionista fotografia p&b de Fernando Lammana. Meu Amigo Girassol, de Claudia Cortez e Diogo Fernandes, narra a viagem imaginária de um menino de 10 anos em busca de uma realidade menos violenta e machista, equilibrando um certo humanismo que liberta o filme do sentimentalismo banal. Intolerância, de Paula Fabiana, é um ensaio violento sobre a tortura nos anos do regime militar. Apesar do ótimo elenco, o filme perde um pouco de sua força pela presença dos intertítulos, alguns óbvios demais. Na edição de som, uma seleção musical que reúne Geraldo Vandré e Villa Lobos, entre outros , sem diálogos ou som ambiente. O Dragão, de Diego Corazza, que mostra uma colagem de planos de geografias desconexas, sobre uma frase da Carl Sagan, é uma mistura difícil de entender. O Casamento de Jacutinga e O Banco, ambos de Osnei de Lima, são duas tentativas de resgatar a estética do cinema mudo. Embora com produção e direção de arte bem realizadas, os filmes apelam para um humor que muitas vezes não funciona para um público maior de 14 anos, sendo o Casamento um trabalho melhor idealizado que O Banco. A comédia musical pansexual Rasgue minha Roupa, de Luffe Steffen, montada no ritmo da trilha sonora anos 80, também fica prejudicada pela ausência de um som diegético, que poderia tornar a obra ainda mais cômica. Circo, de Paulo Zaracla, mistura duas narrativas paralelas e no fim não vai muito além de um discurso alegórico sem muita profundidade, sobre meninos de rua transformados em malabaristas e um episódio circense-surrealista. Poeira dirigido pelo mineiro Afonso Nunes é um documentário experimental sobre um mercado informal conhecido como “esquina dos aflitos”. Entre Picadeiros, de Gustavo Taveira, é uma tragicomédia inspirada nas novelas mexicanas que se utiliza com inteligência da falta de sincronia labial presente tanto no super-8 quanto nas novelas importadas do México. Deus dá Fome e La Marcha, dirigidos por Pedro Bronz, mostram duas diferentes viagens audiovisuais: enquanto Deus é um documentário-ritual sobre a lavagem cerebral do pop-cristianismo da igreja universal do reino do ie ie ie, o trailer de La Marcha é uma prévia de um projeto maior que irá documentar a resistência do Exército Zapatista de Libertação Nacional, no México.

Lucas Veja, incansável organizador, curador e projecionista das 7 edições da Mostra Super-8 em Campinas, reservou para o final da sessão de sábado uma raridade trash: Guerra nas Estrelas, super-8 provavelmente realizado pelo Núcleo de Animação de Campinas entre o final dos anos 70 e início dos anos 80, que parodia a seqüência inicial de Star Wars, de 77, com naves de papelão, guardas imperiais de cartolina e um Darth Vader que passa uma seqüência inteira com a cabeça cortada pelo enquadramento. Hilário...

Finalmente, o 8, em meio a tantos elogios por parte dos palestrantes, realizadores e público, consolida-se como referência no incentivo a produção da bitola 8 no país, esperando, por parte da organização e realizadores, dar continuidade a produção cinematográfica independente na cidade de Campinas e no resto do país.

Por Francisco Serra (chicoserra@hotmail.com), colaborou Carlos Abras




Resultado oficial do 7º Festival de Cinema Super

Melhor Filme Júri Popular
Entre Picadeiros

Melhor Filme Júri Oficial: finalizado em Super-8
Rasgue Minha Roupa

Melhor Filme Júri Oficial: finalizado em vídeo
Laurinha, Minha melhor amiga

Melhor Direção
Rasgue Minha Roupa

Melhor Roteiro
Entre picadeiros

Melhor Montagem
Laurinha, Minha melhor amiga

Melhor Trilha Sonora
Terra do Silêncio

Melhor Atriz
Priscila Maia/Rasgue Minha Roupa

Melhor Direção de Arte
Terra do Silêncio

Melhor fotografia
Terra do Silêncio

Menção Honrosa
Intolerância
Meu Amigo Girassol


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