"Pelo Ouvido", crítica de José Louzeiro

Por Guilherme Whitaker em 06/05/2009 13:26


Pelo Ouvido

(Especial para o Jornal do Curta)

A Produção é da Guarnicê e da Mutantes Filmes. Direção de Joaquim Haickel, além de cineasta, escritor, poeta e político.
Primeira novidade deste curta que merece extensos comentários: há somente dois atores em cena - Amanda Acosta, como Katie e Eucir de Souza, como Charlie, além do personagem subjetivo Marcos, bem plantado conflito na trama amorosa.

Outro aspecto a ser registrado, de imediato, neste premiadíssimo trabalho de Haickel é a habilidade do cineasta na arte dos cortes, coisa essa que o coloca como pupilo privilegiado de Stanley Kubrick em filmes importantes como Laranja Mecânica, Barry Lindon e Uma Odisséia no Espaço. Kubrick também começou dirigindo curtas, em 16mm, depois de ter sido, durante quatro anos, fotógrafo da revista “Look”.

O desafiador trabalho de Haickel é marcado pela sutileza das ações, coisa essa que transforma o filme de textura erótica num poema de luz, som e cores.

Pelo Ouvido, baseado no conto de mesmo nome, é a metáfora do amor marcado pelo ineditismo das etapas que permeia, coisa de um diretor que, com a segurança do veterano, demonstra invulgar cultura cinematográfica.

A história de Pelo Ouvido, numa leitura simples, também é desafiadora: o namorado de Katie é o escultor que, vítima de um acidente de carro (corte nos ruídos da violenta batida) fica cego, surdo e mudo. Katie não se afasta dele, pelo contrário. Ama-o ainda mais.

Ela é funcionária de uma empresa de serviços, mas seu cotidiano profissional não interessa ao cineasta. Interessa o que ela fala pelo telefone com o colega e admirador Marcos, pois este deseja conversar de perto a fim de demonstrar fisicamente o interesse.

Há um corte belíssimo e Haickel leva a câmera para o atelier/sala do escultor que trabalha na modelagem de uma peça. 

Entre as ligações para tratar dos negócios na firma Katie dá esperança a Marcos de que, um dia, não sabe quando, se encontrariam. Após o trabalho ela vai para casa e para os braços do amado que a vê pelos “olhos dos dedos”, como se estes a esculpissem e Katie gosta de ser “esculpida”.

De maneira brilhante e incomum, o diretor dá a volta na temática mais difícil do nosso cinema: afastar o erótico da pornografia.
Com esse cuidado, Haickel demonstra sutileza no tratamento das imagens (fotografia de Cleisson Vidal) graças aos seus oportunos e bem instalados cortes.

A soma dessas sutilezas coloca Pelo Ouvido como miniatura de um longa bem realizado, pois o cineasta demonstra ter firmeza e consciência do que faz. As linhas do seu trabalho são bem dimensionadas, daí os prêmios que tem ganho, pois inovar na temática do amor não é coisa fácil.

Pelo Ouvido beira a pornografia, mas ergue-se saudável nas cores do amor puro, da satisfação de um casal que não se vê e se ama; ele e ela inspirados pelo sentimento que dignifica, embora haja a voz do demônio tentador (bem plantado conflito) com o nome de Marcos.

Em certo momento, Katie relaciona-se com o escultor ao mesmo tempo em que ouve (somente ela escuta) a fala provocante de Marcos. Aí o diretor deixa claro que ela, também, ama a voz de Marcos e, tocada com as palavras dele, torna-se ainda mais excitada nos braços do escultor.
A tentação é unicamente dela, pois a cegueira e a surdez protegem Charlie das dores e angústias do ciúme, na mesma medida em que torna mais quente o relacionamento na cama com ele, pois ela sabe estar sendo vista somente pelos seus “dedos”. Mas, numa leitura subliminar ela sente-se entregue aos dois, ao mesmo tempo.

Depois deste desafiador Pelo Ouvido, Joaquim Haickel está pronto para fazer sua estréia num longa-metragem. Tomara que isso não demore acontecer. Será bom para o cinema nacional que, atolado na mesmice, necessita, urgentemente, da presença de um inovador na chamada “Sétima Arte”.

Que bom que esse lugar possa estar reservado ao sutil, criativo e dinâmico Joaquim Haickel, cinéfilo e cineasta maranhense que faz sua estréia demonstrando invulgar talento ao lado de sua equipe composta ainda do co-roteirista Arturo Sabóia. Edição de Ângelo Capozzoli, direção de Arte e Produção de objetos de Fernanda Grandesso, figurino de Iraci de Jesus, e trilha sonora original de Ivo Ursini.

José Louzeiro é escritor, jornalista e membro da Academia Maranhense de Letras. É autor de 40 livros e criador, no Brasil, do gênero intitulado romance-reportagem. Os livros mais conhecidos de José Louzeiro são: Infância dos Mortos, argumento do filme Pixote; Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (título homônimo no cinema); Aracelli, Meu Amor; Em Carne Viva, lembrando o drama de Zuzu Angel e de seu filho Stuart Angel, morto na tortura, na década de 60.

No cinema assinou, como roteirista, dez longas-metragens, entre eles os populares são Lúcio Flávio, o Passsageiro da Agonia, Pixote, a lei do mais fraco, O Caso Cláudia e O Homem da Capa Preta.

Guarnicê Produções www.peloouvido.com


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