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A Corporação - Crítica de Christian Caselli

Por Guilherme Whitaker em 21/06/2005 12:43


"A Corporação", de MARK ACHBAR and JENNIFER ABBOTT 

Embora seja um bombardeamento de informação – e informação barra pesada – é impossível ficar indiferente ao que é denunciado no filme “A Corporação”, que demorou a estrear por aqui. A impressão que dá é que os diretores quiseram pôr em um único filme todas as denúncias possíveis em relação ao capitalismo selvagem americano. O espectador sai meio mal, com vontade de dar um tiro na cabeça, mas tudo bem. 

O documentário novo americano, muito influenciado por Michael Moore (aliás, o próprio dá depoimentos em “A Corporação”) tem um formato parecido: didatismo, denúncia, algum humor estratégico, montagem quase frenética (ou seja, é bastante nítida a intervenção de quem o dirige) e outras características similares. Nada, então, muito inventivo em termos cinematográficos, mas que pelo menos não poupam a espinafração a diversos setores do establishment americano (outro exemplo: “Super Size Me”).

A apropriação de uma linguagem já consolidada pelo cinema hollywoodiano (mesmo se tratando de documentário) não é vista com bons olhos por alguns setores da crítica – principalmente a que defende as idéias eisensteinianas de que “não existe arte revolucionária sem forma revolucionária”. Esta crítica ficou ainda mais clara no duvidoso “Farenheit 11 de Setembro”, filme apenas democrata (no sentido de ser anti-republicano) que nem conseguiu atingir o seu mais claro objetivo, ou seja, não eleger Bush. Mas isto não impede que “A Corporação” seja um filme extremamente necessário de se ver, nem que seja como uma ótima aula de história.

Mesmo com todo o didatismo e com toda a informação direta de “A Corporação”, é possível se fazer interpretações próprias sobre o que é dito (na verdade, é o que sempre acontece com tudo na vida, mas isto é outra discussão...). A premissa inicial que o filme defende é que de toda a deturpação e todo o poder adquirido pelas corporações americanas surgiu quando elas atingiram o status de serem “pessoas jurídicas”. Assim, mesmo não sendo de carne-e-osso e tendo todo um mecanismo artificial de funcionamento, elas acabaram conseguindo direitos muito semelhantes a de seres humanos.

Segundo o filme, este absurdo escancarado foi o principal agente para que as coisas estejam no pé que se encontram hoje: poluição, trabalho semi-escravo, miséria, deturpação de informação, venda de produtos cancerígenos, monopólios e outras gracinhas do mundo moderno. Mas o que fica é que na verdade o homem moderno criou uma espécie de monstro incontrolável, cuja lógica justifica todo o seu comportamento. Ou seja, uma corporação é como uma fera predatória que, para a sua sobrevivência, precisa do lucro. E este lucro precisa ser adquirido, mesmo que seja necessário criar uma guerra e matar pessoas para vender armas; ou propagandear que um carro do ano lhe transforma em um ser superior, mesmo que a poluição aumente.

Veja bem: estas observações não são maldosas. Nada contra os animais, como um leão, um coiote ou uma corporação. Afinal, é o velho lema que impera: é preciso sobreviver. Ou seja, um tigre não está nem aí se está trucidando um lindo, felpudo e quase extinto filhote de mico leão dourado. E o mesmo vale para uma corporação. Afinal, qual o problema de explorar crianças na Tailândia, se o lucro é obtido? “Os fins justificam os meios”, lembra? Ainda mais na Tailândia; tão longe. E ainda tem o caô de estar ajudando uma população paupérrima e de estar gerando empregos. E isto acontece em vários outros setores do capitalismo. Pergunta só pro Palocci se o Brasil vai bem que ele vai justificar que sim; mostrando um monte de números ao seu favor.

Mas o problema maior aqui é que a corporação é um advento artificial. E o homem vive na estrutura tão viciada que criou, que não consegue se ver de outra forma. Diferente dos animais, guiados pelo instinto, a corporação é um ser racional comandado por uma lógica matemática. Isto, mesmo tendo diversos seres humanos (células) compondo o seu organismo. A subjetividade é praticamente abolida em função de ações mecanizadas. Mas tudo justificado graças ao “é preciso sobreviver” e à lógica do lucro a curto prazo. O problema é que a própria natureza, há tempos, vem se manifestado...

O que fazer? Não tenho a menor idéia. Mas assista ao filme. Michael Moore e a Bolívia dão umas dicas no final. 

Visite o site do filme em http://www.thecorporation.com

 
Por Christian Caselli

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