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A Nuvem

Por Guilherme Whitaker em 05/11/2004 10:56


 

A Nuvem
Autor: Luciana Rodrigues


"Creio que nós, latino- americanos, devemos sempre partir da nossa realidade sociocultural. Não que ela seja melhor que a dos outros. Tenho para mim que cada país deve se expressar de maneira própria em relação às suas tradições. Tenho tentado, em meu diálogo com cineastas latino- americanos, combater o cinema da cópia. O arremedo do cinema de Hollywood. Eles fazem o cinema deles que, por sinal, está fincado nas tradições culturais, mitos e no processo histórico que ergueu os EUA. Por que nós temos que copiar as fórmulas deles?..."
(Fernando Solanas).

Ano passado entrou em circuito de cinema nas grandes cidades o filme A Nuvem (La Nube, 1998), o sétimo longa- metragem do cineasta argentino Fernando Solanas, mundialmente conhecido pelos filmes Tangos- O Exílio de Gardel (Tangos, El Exílio de Gardel, 1985) e Sur- Amor e Liberdade (Sur, 1987).

Para os não conhecedores do cinema político de Solanas um aviso: não se trata apenas de um leve entretenimento, uma sessãozinha para se assistir e esquecer logo a seguir. O seu cinema é extremamente corrosivo, deixa cicatrizes, não sendo apenas sobre a Argentina atual, mas sobre o Brasil ou qualquer país latino americano, condenado ao desprezo, à burocracia, à corrupção. "Até quando vamos andar para trás?" Esta frase do filme ecoa e sufoca mesmo após o filme terminado.

A fotografia de A Nuvem, como sempre muito boa, opta pelos tons de branco, cinza e preto, nos mostrando uma Buenos Aires úmida, escura e chuvosa (e não poderia ser de outro jeito). A Argentina de Solanas é tratada em tons operísticos e os personagens são velhos conhecidos nossos: os aposentados esquecidos em pilhas de processos, os governantes e burocratas adesistas, os capituladores, os loucos, o Poder Judiciário inoperante e os pobres artistas, condenados a gritar no vazio.

E são os artistas de teatro independente de A Nuvem que detonam toda a ação, sempre mostrada em tons oníricos.

Entre um ato e outro da peça, protagonizada pelo também diretor Max (Eduardo Pavlovsky), vemos teatro falar de vida ( "Era uma vez um país onde inteligentes eram governados por idiotas... e estes inteligentes tiveram que fazer coisas cada vez mais idiotas para serem respeitados pelos idiotas,...") e vida falar de teatro.

Dentro dos conflitos dos membros do teatro El Espejo é que vemos os "esquecidos" representados: o artista sem público, a mulher negra (brasileira) vítima de toda a sorte de preconceitos, o cantor de tango que prefere o hospício à realidade, o autor teatral que não consegue recompensa por décadas de dedicação à arte... É no teatro, com a eletricidade cortada e ameaçado de demolição, que se desenvolve a maior parte da trama, secundada por mais dois espaços: o palácio do Tribunal de Justiça e o hospital psiquiátrico, captados em lente grande angular para dar idéia de imensidão.

A cultura (a arte em geral) relegada a último plano, a televisão substituindo qualquer outro meio, os traidores no governo, a impunidade... todos são os ingredientes de Solanas para fazer um apelo à resistência.

O cinema de Solanas continua a resistir, mesmo nos momentos em que capitular parecia mais fácil... e esta resistência data de muito. Em 1966/1968 realizou um documentário de quatro horas, extremamente engajado, La Hora de Los Hornos, que inclui trechos que filmes de cineastas cinemanovistas, como Maioria Absoluta. Pouco tempo depois elaborou um manifesto por um "Tercer Cine", no qual faz um apelo a um cinema de guerrilha, mas a guerrilha do diretor argentino acaba alcançando um público mais vasto porque não perde o humor e a poesia.

Neste último período, quando o cinema brasileiro se dispõe a falar sobre o Brasil o faz ou de forma tímida ou de forma falsa, mentirosa, infiel. Talvez por isto seja possível dizer que quem melhor representou o que somos nós hoje, latino- americanos alijados, traídos, foi o cinema do argentino Solanas, um homem a quem se pode fazer sérias críticas, inclusive por sua ligação com o peronismo, mas que não se pode acusar de esquivar-se da sua responsabilidade como artista com a sociedade e seu tempo.

* Publicado originalmente no jornal " Em Tempo" número 313 - fev/2000


Luciana Rodrigues é graduada em direito e cinema, cursa pós-graduação no CTR-ECA e faz parte do Conselho Editorial do site www.mnemocine.com.br.
Contato pelo e-mail: luciana@mnemocine.com.br.


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