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A TV brasileira e o Cinema

Por Guilherme Whitaker em 05/11/2004 11:01


 

A TV brasileira e o Cinema
Autor: João Carlos Rodrigues


A principal diferença entre a tv brasileira e a do resto do mundo é que aqui ela produz a totalidade de sua programação e no resto do mundo apenas veicula produtos produzidos por terceiros.

No Brasil foi repetido o velho esquema das capitanias hereditárias, beneficiando Assis Chateaubriand (Tupi), Roberto Marinho (Globo), Silvio Santos (SBT), bispo Macedo (Record) etc e tal. No caso da Globo é pior, pois é uma empresa de comunicações barba-cabelo-bigode que inclui jornal, revistas, rádios, sites internéticos, gravadora de discos. E agora já produz filmes de longa metragem. Nada mais anti-democrático, nos EUA seria proibido pela lei anti-truste.

Nesse rolo compressor não é de estranhar que as emissoras estaduais apenas repitam a programação Rio / São Paulo, nada ou quase nada produzindo que valha à pena fora 10 minutos diários de telejornal local.

No entanto, todas, principalmente a Globo, produzem dramaturgia na língua pátria - enlatados e filmes pouco pesam na minutagem final. Vejamos: a Globo (sempre ela !) produz mais de 12 horas diárias de ficção, começando pela Angélica de manhã e terminando com o programa que vem depois da novela das oito (Casseta & Planeta, Você decide etc - depende do dia).
Isso equivale a 6 longas metragem por dia, por volta de 180 por mês. É numericamente mais que a produção da maioria dos países do mundo.

Por essas e outras serão sempre furadas as tentativas das pessoas de cinema de tentar impor uma cota de exibição de filmes curtos ou longos usando como pretexto a língua nacional ou a ficção nacional. Isso já é feito atualmente na TV aberta e na TV por assinatura não vai pegar porque o assinante pode não topar.

A grande luta portanto seria dificultar ou impedir que a TV aberta possa produzir 100% do que leva ao ar.
É uma briga de cachorro grande porque envolve a super-poderosa Globo, mas valeria à pena, é uma luta pela democratização dos meios de comunicação.

No entanto os sindicatos e associações de classe (que não são representativos da maioria dos profissionais que nem pagam as mensalidades nem votam) tendem a convergir para refazer orgãos estatais tipo a falecida Embrafilme, que vão sugar recursos na burocracia que deveriam ser utilizados na produção.

A legislação atual não é má, tem permitido a volta gradativa da produção, inclusive estreantes no longa e no curta. O problema parece continuar o mesmo: a distribuição. O Rio tem uma distribuidora municipal, São Paulo acaba de criar a sua. As duas juntas abrangerão 70% do mercado. Nada mal.

Outras soluções regionais podem ser reivindicadas:
isenção proporcional de impostos estaduais e municipais para salas de exibição que exibam filmes brasileiros. Isso daria o maior pé.

Criar elefantes-brancos federais só vai incentivar os velhos dinossauros tupiniquins, que embora preguem o contrário, se contorcem de fúria cada vez que um estreante consegue finalizar um longa.

Só cai nesse papo das 69 exigências do tal congresso quem for ingênuo.

Aliás repito: só existem duas indústrias cinematográficas no mundo. A da Índia e a dos Estados Unidos - não tem auxílio estatal e se pagam dentro de seus próprios países. O resto tem atividade cinematográfica com incentivos estatais, não é indústria. Vide França, Irã, México, Dinamarca, Austrália, Espanha etc.

O Brasil devia se preocupar menos em fazer uma indústria e mais em fazer bons filmes.

Até porque uma indústria vai ser bem parecida com a TV Globo - e não vai ter lugar nem para jovens diretores nem para experimentações de linguagem.

Só não vê quem não quer.


João Carlos Rodrigues.
Contato pelo e-mail: jcrodrg@rio.matrix.com.br.


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