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A vocação cinematográfica de Goiás - Por Beto Leão

Por Guilherme Whitaker em 24/08/2005 12:06


A vocação cinematográfica de Goiás
Por Beto Leão 


Aos poucos, o Estado de Goiás vai assumindo a sua vocação cinematográfica. Sem grande tradição nesse setor, como outros estados brasileiros que convivem com o cinema desde os seus primórdios, Goiás só teve seu primeiro filme de ficção aqui realizado na década de 1960, quando João Bênnio realizou, às margens do rio Araguaia, O Diabo Mora no Sangue. Muito embora existam  registros de que os primeiros filmes realizados por aqui datam de 1912, quando o major Luís Thomaz Reis, o cinegrafista do marechal Cândido de Rondon, filmou a vida dos índios Nambiquara. O primeiro cinema a abrir suas portas em Goiás, na antiga capital, foi o Cinema Goyano, em 13 de maio de 1909. Em Goiânia, a primeira sala exibidora foi aberta em outubro de 1939, o Cine Popular, onde funcionou durante muito tempo o Cine Santa Maria. 

Com o advento do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, realizado desde 1999 durante a Semana do Meio Ambiente em junho, na Cidade de Goiás, o Estado deu o pontapé inicial para tornar-se um pólo de exibição e de produção. Naquele ano, o festival contou com 50 mil espectadores, sendo que na sua última edição quase 200 mil visitantes se fizeram presentes. Em suas sete edições, o FICA vem estimulando os cineastas goianos a produzirem mais, ainda que as produções locais continuem deixando muito a desejar em termos de qualidade estética e estrutura narrativa. Desde o ano 2000, a Goiânia Mostra Curtas vem se firmando como um dos festivais do gênero mais importantes do Brasil, sempre com a sua proposta inicial de formação de público, a qualificação profissional e o incentivo à produção local. Nesse sentido, há que se ressaltar ainda a importância da Mostra o Amor, a Morte e as Paixões, realizada no mês de janeiro há quatro anos, incluindo filmes de vários países e sempre reservando espaço para o cinema feito em Goiás. 

Agora, mais um certame vem se juntar a esses. O I Festival de Cinema Brasileiro de Goiânia (I Festcine Goiânia), que tem realização prevista para novembro deste ano. Entretanto, essa não é a primeira tentativa de se realizar um festival de cinema permanente em nossa capital. Em 13 de setembro de 1966, o Cine Teatro Goiânia foi palco da I Bienal Centro do Cinema Brasileiro. Com direito a tapete vermelho para recepcionar a delegação de artistas, produtores, diretores e críticos cinematográficos, diz a crônica da época que o público se acotovelava na pracinha em frente à casa de espetáculos, buscando a melhor posição para ver seus ídolos da tela grande, efusivamente aplaudidos ao passar. No palco, obedecendo ao ritual tradicional dos grandes festivais cinematográficos, o diretor do Departamento de Turismo do Estado, Selem Domingos, abria o festival com as seguintes palavras: "A finalidade dessa Bienal é proporcionar ao público do Centro-Oeste do País o conhecimento e a atualização das obras cinematográficas nacionais realizadas entre 1965 e 1966 que, pelo seu valor artístico e cultural, contribuam para o desenvolvimento da arte e da indústria do cinema no Brasil." 


Trofeu que será oferecido aos vencedores do I Festcine

Os filmes selecionados concorreram a 5 milhões de cruzeiros (Cr$) , o maior prêmio atribuído em festivais nacionais na época. Além dos respectivos prêmios em dinheiro, receberam as estatuetas em barro com a imagem de uma índia Karajá, as seguintes produções: A Grande Cidade, de Cacá Diegues (melhor filme, melhor produção, Luiz Carlos Barreto, melhor ator, Antônio Pitanga, e menção honrosa para a atriz Anecy Rocha), Amor e Desamor (melhor roteiro, de Carlos Alberto de Souza Barros, melhor trilha sonora de Rogério Duprat) e Toda Donzela tem um Pai que é uma Fera (melhor atriz, Rosana Tapajós). 

Até então, Goiânia nunca reunira tantos artistas famosos em um único espaço físico. A não ser por ocasião do Congresso de Escritores e Intelectuais, realizado em 1959, quando aqui estiveram Pablo Neruda, Maria Della Costa, Lupicínio Rodrigues e Lima Barreto, que na época colhia os louros da premiação de O Cangaceiro, no Festival de Cannes. Contudo, a Bienal ficou restrita àquele ano. 

Quanto ao I Festcine Goiânia, seu caráter permanente e a sua obrigatoriedade como parte integrante do calendário cultural da cidade são determinados por lei aprovada pela Câmara Municipal há 13 anos. O projeto de lei, de autoria do então vereador Doracino Naves, foi aprovado em setembro de 1992 e desde então esteve na dependência de regulamentação para ser colocado em prática. Para justificar a importância do seu projeto, o vereador apresentou a seguinte argumentação, que ainda hoje é válida: 

"A cidade de Goiânia, com pouco mais de meio século de existência, vem consolidando uma característica: surpreender, desde os seus idealizadores, até chegar-se àqueles que se põem a fazer-lhe projeções apaixonadas que, aparentemente, superdimensionam o seu futuro e o seu destino. A cidade, contudo, sempre nos vai ensinando que, para esta terra não existe superdimensionamento ou superprojeção e todas as expectativas são superadas bem antes do previsto. Dentro de tal perspectiva, julgamos que um Festival de Cinema de Goiânia traria com sua implantação, a real possibilidade de edificar para nossa capital, uma imagem de arte e cultura. O momento pede este esforço, pois além de projetarmos nossa terra, estaríamos contribuindo de forma grandiosa para reverter o lastimável quadro da cultura brasileira. Temos a dizer que este festival, conforme o presente projeto demonstra, viria emprestar uma grande colaboração ao estágio, digamos triste, por que passa a área nos dias atuais. As possibilidades de um reaquecimento se tornaram nulas no atual governo, com a extinção da Embrafilme e o descaso generalizado com os valores culturais. Em suma, o cinema está em estado de coma, porém contribuir para uma tentativa de salvamento é nosso dever. Quanto ao aspecto custo de tal festival, é necessário esclarecer que a idéia não é de se onerar os cofres da Prefeitura Municipal. Nem poderíamos ser levados por este pensamento, quando somos os primeiros a reconhecer outras prioridades sociais para a administração da cidade. Tudo deve ser feito com criatividade, e os esforços deverão se dirigir em direção a convênios, parcerias, patrocínios, via Lei Rouanet etc. Basicamente será necessário apenas conscientizar os possíveis colaboradores de que o retorno, via turismo, será uma certeza.
Acreditamos, enfim, no Festival de Cinema de Goiânia, em todos os seus aspectos: o turismo ganhará, a imagem da cidade ganhará, a cultura, as artes, os artistas e o pensamento nacional ganharão." (1992)

Por Beto leao
betoleao@ibest.com.br


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