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Alegorias do medo: Korda, de Marcos Andrade

Por Guilherme Whitaker em 27/02/2005 23:01


Alegorias do medo: Korda, de Marcos Andrade
Por Bernardo Carvalho 



Muitos na história do cinema se dedicaram a desenvolver e explorar os sentimentos de medo, alienação, incomunicabilidade e culpa enquanto ponto de partida para suas estórias. Alguns, como Pasolini, o fizeram como crítica ao capitalismo, à burocracia, ao trabalho e a todas as limitações que essas instituições implicam às liberdades individuais; outros, como Bergman, buscaram, tanto na religião quanto na carga de valorações morais, a fonte de toda a angústia humana. Sobre os mesmos assuntos se basearam também a literatura de Kafka e Sartre, o teatro de Beckett e a música de Lou Reed, para citar alguns exemplos precípuos. O tema, portanto, não é novidade; o que varia nos exemplos acima é, sobretudo, a forma como cada autor pensa e representa os sentimentos em questão, em que contexto ele os coloca e que conseqüências extrai. Neste sentido, Korda, primeiro longa-metragem de Marcos Andrade, não parece criticar isto ou aquilo especificamente, mas simplesmente narrar as desventuras de uma mente delirante, preenchida pelo sentimento de desconfiança diante do mundo.

O filme é uma representação cinematográfica de inspiração beckettiana, que trata alegoricamente de toda essa gama de sentimentos. A estrutura narrativa parte de um personagem central que, imerso em constante delírio autopersecutório, mantém relações conflituosas com o mundo que o cerca. Tudo lhe parece estranho, até mesmo a casa em que mora, seus vizinhos, seu desejo, seu trabalho. Korda é um filme sobre o medo em diversos sentidos: medo do desconhecido, de perder o referencial familiar, de abandonar o hábito, de relacionar-se, de morrer…

Para representar este tema, Marcos Andrade lança mão de uma mise en scène ora marcadamente teatral — acentuando o sentido caricatural da representação — ora extremamente cinematográfica — explorando a relação entre o personagem e os enquadramentos fechados e sombrios. O roteiro, sem palavras, abre espaço para a expressão corporal: ao invés das palavras, o jeito chapliniano no caminhar, as expressões faciais exageradas, características do cinema mudo. Quanto aos espaços, toda a ação se desenrola em um contexto urbano altamente estilizado: recortes sufocantes de locações internas e ruas do centro do Rio, recobertas pela fotografia em preto e branco, traduzem o ambiente rarefeito em que vive o personagem central.

A encenação carregada traz, inevitavelmente, a toda e qualquer mise en scène, um sentido teatral inescapável, o que para um filme nem sempre é positivo; mas é inegável que, no caso de Korda, a contrapartida deste movimento realçou a perspectiva subjetiva do personagem. A opção pela ausência de diálogos, por mais que pudesse conduzir a um “teatralismo”, ao contrário, reforçou o sentido alegórico do filme. E mais: a atmosfera é tomada pela incerteza e pelo medo, posto que o diretor se beneficia da ausência de informações em relação à vida e desejos do personagem para acentuar o clima de suspense. Se há, de um lado, a colaboração do teatro em atuações, por assim dizer, “icônicas”, é através da relação entre os enquadramentos sombrios e a expressão muda e desesperada do personagem que Marcos Andrade pretende controlar o suspense, a tensão e a reflexão.

Logo nos primeiros minutos, percebemos que o personagem central executa a estranha tarefa de carregar caixas de papelão, sem nenhuma indicação de conteúdo ou destino, de um local determinado até sua casa. Lá, ele observa misteriosamente as caixas, como que tentando adivinhar seu conteúdo. O personagem não demonstra nenhuma afinidade, nenhum interesse específico neste leva-e-trás de caixas, muito menos no que se encontra nelas. O espectador, pronto a decifrar os enigmas do filme, não tardará a compreender que na estranha atividade do personagem central se pode entrever a relação que muitos ainda mantém com seu próprio trabalho, uma relação de estranhamento, distância, alienação. As caixas são a representação do fardo, um peso a ser carregado, sem que ao menos se saiba para quê. Neste caso, o que Andrade busca reportar são as contradições e o sentimento de impotência do personagem central diante de seu trabalho. Da mesma forma, através de alegorias específicas, ele comenta a dificuldade de comunicação, o desejo sexual reprimido, o medo da morte e a culpa.

Quanto aos aspectos filosóficos e humanos do filme: imagino que se pudéssemos aprofundar nossas idéias, esta discussão certamente extrapolaria o espaço do catálogo. Mas gostaria de ressaltar, a 0título de conclusão, que a mensagem pessimista do filme incomoda menos pelo fato de ser direcionada à humanidade como um todo — o que por si só já é questionável —, do que pelo sotaque demasiado europeu com que é representado. Por ora deixemos isso de lado e saudemos: uma tal aventura de estilo é sempre tão necessária quanto saudável.


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