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Angústia e esperança: os vídeos de Ivo Lopes Araújo

Por Guilherme Whitaker em 05/11/2004 10:44


 

Angústia e esperança: os vídeos de Ivo Lopes Araújo
Autor: Marcelo Ikeda


Em geral, as sessões de vídeos de realizadores independentes promovidas no Rio de Janeiro acabam em resultados desapontadores. São raros os vídeos que desistem de tentar esconder suas inevitáveis precariedades de produção para perseguir um caminho de busca por um cinema próprio. Ainda mais por sabemos que o espaço para os vídeos nos festivais brasileiros é cada vez menor e mais restritivo, o que é mais importante nesses primeiros vídeos de jovens realizadores é deixar claro o prazer pela descoberta e pelo processo do cinema. Nessas sessões de vídeos, em que se apresenta uma obra de cada realizador, existe um forte risco de se subestimar um certo vídeo, ignorando a trajetória particular de cada realizador.

Esse é um caso típico dos vídeos de Ivo Lopes Araújo. O maior interesse desses vídeos está menos na qualidade individual de cada um deles, mas especialmente como eles configuram um processo de busca gradual e coerente. Exibidos separadamente, o projeto íntimo que costura cada vídeo tende a desaparecer. Daí sua recepção geralmente morna e a recusa nos cada vez mais tradicionais festivais brasileiros.

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Ivo possui uma trajetória pessoal que está firmemente calcada em seus vídeos. Esse cearense veio para o Rio para estudar cinema na Estácio de Sá, deixando sua esposa grávida. Os três primeiros vídeos de Ivo marcam essa passagem. Por um lado, o encantamento com o cinema e a Esperança de novos tempos. Por outro, um sentimento de distanciamento de seu íntimo e um desconforto. Os três vídeos - Amanhã Talvez, Reflexos de uma Reflexão e Fértil Distração - mostram uma tentativa de libertação que acaba sufocada. O final pessimista insere sempre uma idéia de ciclo. São as mãos que voltam a sufocar os sentidos em Reflexos, ou o rapaz que percebe que não saiu do interior do ônibus em Amanhã Talvez e, em Fértil Distração, o quarto e a cama que retornam ao final como inevitáveis.

Esse distanciamento é marcado por um estranhamento em relação ao espaço físico. Se em Reflexos, o espaço físico é abstraído com o uso do fundo infinito, em Amanhã Talvez o cenário é a própria cidade urbana, com cenas em externas. Já Fértil Distração se passa todo no interior de um quarto, retomando a primeira parte de Amanhã Talvez. Nesse ponto, Amanhã Talvez é o mais sintomático. A tentativa de integração à natureza como possibilidade de libertação (lembrando, por exemplo, os recursos de um D. W. Lawrence), em contraposição à caótica cidade urbana, acaba frustrada com o retorno às obrigações do cotidiano. É através, portanto, de um estranhamento em relação ao espaço físico que a impossibilidade de libertação dos vídeos de Ivo começa. Por outro lado, esse estranhamento é reforçado com um sempre criativo e cuidadoso trabalho de edição de som. É a função da música em Amanhã Talvez, os ruídos vertiginosos contrapostos com o silêncio em Fértil Distração, ou os sussurros de Reflexos.

Nesse sentido, seu vídeo mais bem sucedido é Fértil Distração. Com uma estrutura dramática vigorosa, com um senso de urgência da câmera subjetiva, com o uso da dilatação do tempo sugerindo a inércia de seu protagonista, Ivo mostra a história de um jovem extremamente desconfortável em seu próprio quarto. Quando tenta sair, e finalmente consegue abrir a porta, o vídeo cada vez mais assume uma postura de enfrentamento pessoal e vigor psicológico. Vendo o seu próprio drama numa televisão, observado por olhares condenadores de um grupo de amigos, o protagonista tem a reação que corrobora o clímax do filme. Seu desespero é completo, e a honestidade com que Ivo aborda o transbordamento do protagonista é de fato comovente. Ao contrário do final de Não Amarás, de Kieslowski, em que a mulher imagina que o jovem a estaria socorrendo, em Fértil Distração, é o próprio protagonista quem parte, em vão, para tentar socorrer a si mesmo. A personalidade, embora dividida, permanece única, e o sentimento de irreversibilidade que acompanha todos os vídeos de Ivo assume um ponto-limite.

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Após esses três vídeos, Ivo retornou para um mês de férias no Ceará. O retorno para sua terra natal e especialmente o reencontro com sua filhinha recém-nascida marcou profundamente seus vídeos posteriores. Eu agora só vejo as luzes do mundo é um terno vídeo que marca um descompromisso inédito em seus vídeos anteriores. Permeado pelo prazer da descoberta e entremeado com cenas de sua filhinha e sua esposa, a montagem não linear, o clima absolutamente pessoal e lúdico, formam um vídeo mais poético e menos fatalista que seus vídeos anteriores. Lembrando alguns recursos dos últimos vídeos de Arthur Omar, como a gravação de efeitos da tela da televisão (Noite Feliz e abstrações) e os créditos escritos desordenadamente num quadro (Ursinho de Pelúcia) e o percurso pelo imaginário e pelo tempo (Notas do céu e do inferno), Luzes é um passeio pelo imaginário desse feliz reencontro, que consegue uma intimidade e um sentimento de nostalgia profundamente cinematográficos.

Mas o grande vídeo de Ivo ainda estava por vir. Trata-se de uma obra que, dado o cenário atual do vídeo brasileiro, deve, por suas qualidades inegáveis, conquistar uma vistosa carreira nos festivais brasileiros. Dialogando diretamente com o atual cinema nordestino e especialmente com Passadouro, de Torquato Joel, é um vídeo no limite entre a ficção e o documentário. Filmado com uma digital 8 no interior do Ceará, Ivo consegue, mesmo com um equipamento restritivo, um resultado fotográfico primoroso.

Esparança consegue um tênue e íntimo diálogo com os humildes habitantes daquele longínquo local. Nesse ponto, aproxima-se de Sonhos e Histórias de Fantasmas, de A. Omar. No início, a imagem em preto e branco, as repetições, e o céu soturno parecem anunciar um futuro nebuloso para os moradores da região. Um pobre menino é visto carregando uma enxada; pessoas trabalham ardentemente na terra. As imagens do céu ameaçador são contrastadas com raios de sol que percorrem a enxada e a terra seca. Nesse ponto, ocorre uma grande descontinuidade, com fragmentos de imagens que mal podem ser vistas, flashes na cerca e flashforwards.

Quando tudo parece culminar para um desfecho fatalista como os típicos vídeos de Ivo, surge uma transformação absolutamente humana, que confirma toda a trajetória inicial do vídeo ao mesmo tempo que a transforma. Daí Ivo consegue de forma simples e absolutamente cinematográfica um diálogo praticamente improvável com o remoto imaginário específico daquela localidade. Ao mesmo tempo, esse mesmo diálogo reforça um sentido universal e de permanência de valores. Enquanto Esperança por um lado retoma a idéia de ciclo e retorno típicas dos primeiros vídeos de Ivo, agora o ciclo é revitalizado como parte da própria natureza (e daí pela primeira vez a integração ao espaço físico) e integrante do devir. Dessa forma, o interior do Ceará é para Ivo quase a terra de um Dovzhenko. Seu fatalismo se revigora, com a presença extremamente sutil mas bastante presente do espiritual. Apesar de todas as dificuldades daquela gente simples, é dali que surge a essência dos tempos, novidade e eternidade, realimentação e continuidade.

Se por um lado o retorno à terra natal forma para Ivo a parte do ciclo como um processo de revigoração de forças, ainda que saiba que a separação desse seu mundo lhe é inevitável, o reencontro com sua filhinha parece uma experiência definitiva. A transcendência de Esperança, na parte em que o filme se torna colorido, é quando o velho senhor finalmente observa um bebê sendo banhado num rio, como uma espécie de batismo implícito. A criança chora; a suposta mãe exibe feliz a criança para os olhos da câmera (e do espectador); num contracampo o velho observa a criança. O ciclo, a ausência de palavras, o banho como batismo e purificação, a integração com o espaço físico, são desenhados com maestria pelo realizador. O nascer (pôr) do sol, filmado num longo plano-seqüência como em A Idade da Terra, reafirma o delicado trabalho do diretor com o tempo e com a transcendência da natureza.

Assumindo de forma corajosa - e radicalmente diferente de seus vídeos anteriores - essa possibilidade de transcendência, Esperança possui um final que pode até mesmo ser considerado ingênuo, mas que reafirma de forma essencial a possibilidade de captar a poesia dentro de uma realidade sofrida, ou seja, o impossível dentro do possível. Voto de fé para o nosso cinema e para o nosso país.

Assista aos filmes aqui no Curta o Curta: Esperança e Reflexos de uma Reflexão


Marcelo Ikeda é editor do site Claquete ( http://claquete.cjb.net ).


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