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Artigo sobre o curta Deus dá fome - A paródia e a seriedade

Por Guilherme Whitaker em 09/09/2006 14:28



Deus dá Fome - A paródia e a seriedade

 


Crítica de Bruno Carmelo sobre o curta " Deus dá fome", de Pedro Bronz

 

O curta-metragem Deus dá Fome, de Pedro Bronz, começa provocando seu espectador: em tela preta ouve-se um convite a uma pausa para uma oração diferente.

 

A voz é a do conhecidíssimo popstar Padre Marcelo Rossi, e de tão famoso o timbre, nem se precisou explorar sua imagem. Sua voz aparece em tela preta, fazendo com que prestemos atenção unicamente nela. As primeiras imagens são de natureza bela, unida a uma bandeira nacional ao vento.

 

O bucólico atinge seu ápice de intensidade ao vermos um homem refletindo próximo à praia. O autor parece ter claro conhecimento da intensidade dessa cena, entre o belo e o claramente kitsch. Disso o filme se apresenta: estamos num dos shows do Padre Marcelo Rossi, com direito a fiéis com câmeras fotográficas e outros apetrechos eletrônicos.

 

Engraçado pensar que a imagem do show, tão gasta e comum, é subentendida. Pedro Bronz prefere os símbolos: a voz, as câmeras fotográficas. Mesmo o Padre, no palco, está fora de foco, o que lhe tira a personalidade e lhe confere representabilidade: ele não é mais um padre específico, mas um pregador como qualquer outro, movimentando-se freneticamente no palco. Ele representa todos os padres, e aquelas pessoas felizes assistindo ao show representam todos os fiéis.

 

Essa redução metonímica é um dos aspectos mais fortes do curta, que mostra claramente sua posição sobre esse espetáculo sem precisar de falas depreciativas ou de humor chulo.

 

Humor há, mas muito inteligente e simbólico: entre as cenas dos shows, vemos lingüiças e outras carnes sendo vendidas nas ruas. Conforme a intensidade do discurso religioso, mais precioso vira o tratamento daquele item de consumo. O aspecto asqueroso da carne semi-crua vendida na rua, entre passantes, é comparada à religião enquanto algo forçadamente popularesco, enquanto substituto de um alimento real. As pessoas têm anseios, e as palavras fáceis seriam tão paliativas quanto o mau alimento.

 

A ironia atinge seu ápice com um pedaço de carne filmado belamente ao sol, um espetáculo grotesco do clímax religioso. Em seu curta-metragem, Pedro Bronz consegue ser extremamente político, sem atacar diretamente ou militar sobre seus pensamentos. É uma forma de ser paródico sem correr ao escracho minimizador, e de ser político sem ser unilateral. Trata-se da ironia como figura de linguagem capaz de estimular pensamento, ao invés de afirmá-lo.

 

Por Bruno Carmelo - brunocarmelo@gmail.com


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