As Corujas e a possibilidade do encontro, por Marcelo Ikeda ::  | Curta o Curta

As Corujas e a possibilidade do encontro, por Marcelo Ikeda

Por Guilherme Whitaker em 07/10/2009 09:42


As Corujas, curta-metragem de ficção dirigido pelo cearense Fred Benevides, comprovam o amadurecimento estilístico do grupo do Alumbramento, por meio de um projeto mais ambicioso que seus trabalhos costumeiros, cuja realização se tornou possível mediante os recursos de um edital da Secult para produção de um teleconto. Acima de tudo, As Corujas são um radical exercício de adaptação de um texto literário, pois suplantam o universo das palavras mediante um seguro trabalho de direção que orquestra de forma orgânica os diversos aspectos da linguagem cinematográfica – tempos, câmera, luz, som, decupagem – para transformá-los num cinema repleto de climas e atmosferas sombrias.

O curta acompanha o cotidiano de um vigia de um necrotério, que tenta afugentar as corujas que sobrevoam o salão e mordiscam os corpos que esperam seu juízo final. Não sei porquê mas este entrecho me lembra um inesquecível trecho de Rastros de Ódio, quando John Wayne atira nos olhos dos índios, ainda que estes já estivessem mortos. Questionado porque gastava duas balas de revólver a mais com os corpos inertes, o pistoleiro replicava que era porque sabia que na religião “deles” quem morre sem os olhos, perde também a alma.

Mas as corujas do curta de Fred não só querem tirar a alma dos mortos mas também os olhos dos vivos. Obcecado por sua tarefa rotineira que se revela cada vez mais infrutífera, como se lutasse contra o inevitável apodrecimento dos corpos, ou ainda contra a materialidade latente da morte, o vigia do necrotério perscruta as corujas, cujos rastros se vêem por névoas de sombras ou pelo farfalhar de suas asas. Com isso, cria um clima ambíguo entre o delírio, o sonho, a alucinação ou mesmo a assombração, dando ao curta um tom de cinema fantástico. Diante de sua rotina macambúzia, o vigia se arrasta como um semi-zumbi de um filme de Romero, ou como se fosse Max Schreck, por sua semelhança física, ou ainda como o Emil Jannings de A Última Gargalhada, valorizado pelo som dos passos que funcionam quase como um leitmotif sonoro para todo o filme. Essa associação nos remete ao expressionismo alemão, seja pelo tom fantástico, pelo cinema de sombras ou ainda pelo diálogo com a morte.

Por outro lado, as corujas não só avançam contra os olhos do vigia mas em última instância também contra os olhos do espectador. Entramos num ambiente cuja visibilidade é precária, e cujo ingresso também se dá por meio do indizível, do improvável. O espectador participa de um pacto implícito, já que, ao optar por assistir ao filme, acaba por participar do jogo cênico típico da representação, e assim como o vigia, se esforça para vislumbrar o invisível, o que está para além da imagem. Esse jogo de espelhos entre o vigia e o espectador tem seu ápice num plano de orquestração complexa, um longo plano-sequência em que a câmera elabora duas panorâmicas de 360 graus, em sentidos opostos, numa movimentação autônoma ao movimento do próprio personagem, mas de modo que em uma passagem, o olhar da câmera (ou ainda, o olhar do espectador) se confunde com o olhar do vigia, procurando, através de uma lanterna, que projeta um duro feixe de luz nas paredes do salão, algum vestígio concreto das corujas que lhe assombram o sono.

Mas ao final, percebemos – agora não só o vigia mas também o espectador – que as corujas de fato existem, mas sem a aparência lépida ou mesmo demoníaca como num filme de terror e sim com tamanha serenidade que nos faz concluir que o filme é também sobre a nossa própria possibilidade de encontro com essa coruja. É daí que irrompe o maravilhoso plano seguinte, que encerra o filme, e que abre novas possibilidades de leitura, comprovando a preocupação do diretor em compor um cinema de climas e atmosferas. Rompendo com o tom claustrofóbico e fatalista de todo o percurso anterior, para arremessar o espectador em contato com uma natureza física – a chuva, o verde, o vento que agita as folhagens – esse plano final nos faz perceber que As Corujas afinal se apresentam de fato como um encontro possível. Encontro que sintetiza o próprio projeto do Alumbramento, um encontro de amigos que vivem da improbabilidade de se sonhar em fazer cinema em Fortaleza. Ou ainda, por outro lado, encontro da própria possibilidade de se fazer um filme de equipe, mostrando que o Alumbramento não só realiza formidáveis filmes solitários, mas que também pode realizar vôos mais ambiciosos se contar com uma estrutura de produção mais robusta. Encontro de gerações dentro de uma mesma geração, encontro (não sem conflitos) entre os assistentes e os chefes de departamento. Encontro do cinema de Bela Tarr com o de Apichatpong; encontro do Ceará com o cinema contemporâneo; ou ainda, encontro do cinema com o mundo.

Marcelo Ikeda //  www.cinecasulofilia.blogspot.com
 


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