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Boca de Lixo: A Cine-Poética da Imagem

Por Guilherme Whitaker em 05/11/2004 10:47


 

Boca de Lixo: A Cine-Poética da Imagem
Autor: Felipe Scovino


 

Boca de Lixo, vídeo dirigido por Eduardo Coutinho em 1992

O cenário, à primeira vista, pode chocar: um ponto de escoamento de lixo em São Gonçalo, município do Rio de Janeiro. Seringas usadas, comida em estado de decomposição, um estado de miséria absoluta. Pessoas selecionam objetos e comida que possam ser reaproveitados; o que foi rejeitado por uma pessoa serve como fator de sobrevivência para esta. O cenário desalentador não exprime o estado de espírito dos catadores. Há um conjunto de integridade e valores que superam todo aquele estado, e a câmera de Coutinho é a responsável por essa aproximação. Alguns negam que comem coisas do lixo (mesmo que a câmera os desminta), outros afirmam com orgulho; uns estão ali por falta de oportunidade, outros por opção: “(…) é melhor do que ter patrão (…)”. O filme se desvincula da pretensão de registrar um contexto adverso aos padrões de uma sociedade respeitadora dos direitos dos seus cidadãos e arranca dela contradições e ambigüidades, que por sua vez, são capazes de redimensioná-la e reinventá-la.

Nos primeiros instantes do filme há um processo de liberação da palavra, já que os catadores repudiam inicialmente a sua veiculação: conhecem a imagem negativa que possuem junto a sociedade e não querem posar mais uma vez de coitados/culpados por determinada situação. Coutinho quer desfazer esse paradigma. As primeiras palavras são de desagrado por parte dos catadores: “(…) não tem ninguém roubando não (…)”, “(…) tá todo mundo trabalhando(…)”. O cineasta então apresenta fotografias dos próprios, promovendo um instante de espanto e alegria, estreitando os laços e os aproximando. É o primeiro passo para uma novo olhar sobre o problema, uma oportunidade clara de humanização (depois de tantos processos de marginalização) do trabalho dos catadores. A promoção desta aliança (ou criação de um respeito mútuo) se dá por esse processo de produção ou troca imagética. Esta primeira imagem que lhes é devolvida anuncia a seqüência final quando o filme quase pronto é assistido no lixão por quem ali trabalha.

O que se observa neste filme, assim como em toda a filmografia de Coutinho, é a sua não-formulação de idéias pré-concebidas para com o entrevistado. Ele evita os textos em off, as perguntas decoradas, objetivas e fechadas, e adota uma postura atuante, permite ao entrevistado que possa argumentar sem um limite metodológico, vai de encontro aos enquadramentos de câmera estável e centrada. Não o desloca de seu habitat, não há um componente de encenação nem ridicularização do entrevistado; ele é o que diz, não o que se espera.

Coutinho favorece essa experiência aberta: ele os escuta, permite que falem, faz poucas perguntas mas obtém respostas que surpreendem entrevistador, entrevistado e espectador. Como nestas passagens: enquanto uma catadora de lixo prefere muito estar ali do que trabalhando em casa de família – “(…) Não gosto de ser mandada (…)” -, outra acha que muita gente trabalha ali “(…) porque é relaxado, não tem coragem de pegar um ônibus e procurar emprego, porque prefere comer fácil porque aqui tem batata, tem tudo para se comer (…)”. Uma terceira afirma que “(…) ninguém come nada dali não, vocês botam no jornal e quem vê pensa que é para a gente comer, né? (…)”.

Algumas pessoas podem argumentar que uma característica formal que o filme apresenta é a ausência de conclusão, o que o põe sobre uma expectativa. O filme apresenta problemas que ultrapassam os personagens e atingem toda a sociedade. Os personagens não resolvem e não podem resolver tais problemas; logo, o filme coloca em conclusão: Que vai ser dessa gente? Os problemas serão resolvidos ou não?

Por outro lado, este não parece ser o ponto central de Coutinho, mas sim a análise como fundamentalmente o lugar da escuta. Em muitos momentos há um espaço que se constrói entre a palavra e a escuta que não pertence nem ao entrevistado, nem ao entrevistador. Este espaço é preenchido por personagens que criam, inventam, depõem, se expõem, onde nós aprendemos sobre eles, e eles aprendem sobre si.

A forma como Coutinho desvincula a realidade dos personagens (geralmente miseráveis) é magistral. O ritmo da câmera e a metodologia de abordagem do entrevistador permitem que esta dificuldade social se resguarde em segundo plano. O interesse do entrevistador passa a ser o cotidiano destas famílias: seus sonhos, suas ambições, seus amigos, seus amores, seus filhos, seus pequenos dramas. Coutinho consegue apequenar um obstáculo que há pouco seria intransponível: o destino estaria marcado: cenas de pobreza, crianças em choro, olhares famintos, desilusão. Mas não é o que se vê. Pelo contrário. Coutinho mapeia e acha alegria e esperança num território, até então, massacrado pelo preconceito do olhar estrangeiro, de quem realmente não o conhece. Mas esse olhar, de forma alguma, é piedoso, mas curioso, honesto em fornecer informações sobre pessoas normais, cidadãs, que por um motivo injusto não tiveram as mesmas condições, ou direitos, sócio-econômicas de uma classe abastada.

A vida dos que foram esquecidos e recusados pela história oficial é o mote de Coutinho. Esta estória, por sua vez, é montada/editada de forma que a estória pessoal dos personagens se transformam no acontecimento principal do filme. A miséria, o descuido com o lixo hospitalar, a procura por alimentos podres, se transportam para o segundo plano. A revolta do espectador com a miséria e a indiferença do governo para com o problema dos catadores se instala mas nos deparamos porém com pessoas que não apenas sobrevivem do lixo mas que, indiferentes à incompetência do poder público, vivem com dignidade e uma certa felicidade.

Contrariamente a um veiculação de imagens de pobreza, miséria, tragédias infindáveis, oferecidas em forma de espetáculo, que provocam pouco mais que a indiferença no espectador, a prática intervencionista de Coutinho propicia um tempo com mais reflexão sobre o que estamos assistindo. Talvez seja justamente esta a atitude diferenciadora em Coutinho: assistir, ou melhor, o não-assistir. Ao contrário dos padrões fechados dos documentários de TV onde a lineariedade é marcada por espaços que permitem um campo reflexivo pouco dinâmico (visto a velocidade da sua edição e a seleção de imagens), Coutinho nos oferece uma oportunidade ou saída para o nosso olhar contaminado. Permite esta abertura de reflexão, que não se impõe como realidade mas como uma potência de invenção por meio da experiência cotidiana.


Felipe Scovino é Mestrando em História e Crítica de Arte EBA/UFRJ - fscovino@zipmail.com.br


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