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Brown Bunny - O pior do filme é a platéia

Por Guilherme Whitaker em 09/06/2005 16:15


Brown Bunny - O pior do filme é a platéia

Por Christian Caselli

Quando chegaram ao Brasil as primeiras críticas da má repercussão de “Brown Bunny”, do ator e diretor Vicent Gallo, em Cannes, dava pra notar de cara que elas ou eram equivocadas ou levianas. Era algo do tipo “um filme em que não acontece nada”. Fora a polêmica com a cena de sexo oral, em que Chloe Sevigny faz um felatio em Gallo. Impressionante como ainda se escandalizam com isto. Como se as pessoas não chupassem, ou como se não fossem chupadas, na vida real. E se isso não acontece, azar de quem não faz/recebe. 

Ora, além do saudável hábito moderno de pôr sem frescura cenas explícitas em filmes não-pornográficos, algo que cada vez mais demonstra a liberdade sexual dos novos tempos, pelas críticas se percebe que Gallo conseguiu realizar uma façanha. Afinal, não é nada fácil falar sobre o “nada”, assunto que nenhum filósofo até hoje conseguiu chegar a uma conclusão. Assistindo ao filme, entende-se o comentário maldoso: o filme trata de um solitário corredor de motociclismo (o próprio ator/diretor) que está indo competir em uma outra cidade. Boa parte da projeção, então, é composta por belas imagens na estrada, ao som de baladas, dando a entender o trajeto feito pelo personagem. Qual o problema disto? Afinal, qualquer pessoa já fez uma viagem semelhante e até curtiu ficar olhando a paisagem. Isto, em si, não pode ser apontado como um defeito, muito menos dizer que nada acontece. O problema é que muitas pessoas, cada vez mais bitoladas com o cinema americano, estão sempre procurando por “conflitos”, “pontos de virada” e outros chavões do roteiro convencional.

Mas o pior é que “Brown Bunny” tem os seus conflitos. Só que o filme tem um tempo muito particular, já que aos poucos vai se notando a perturbação interna do personagem. O que ocorre é que a narrativa não tem pressa alguma em revelar o estarrecedor acontecimento que aflige o motoqueiro, e sim demonstrar uma sucessão de sintomas daquilo que o deixou tão angustiado. Tudo no tempo certo e, se for avaliar bem, algo raro nesta época onde a informação é tão bombardeada. O cara prova que o chamado “tempo morto”, não é tão morto assim. E no final, o clímax da cena de sexo, por sinal nada gratuita e, diria até, inevitável.

A platéia estava tão mal intencionada que, dizem, assim que surgiram os créditos do filme, todos riram. Motivo: Gallo executou boa parte das tarefas técnicas de “Brown Bunny”, incluindo a própria direção de fotografia. Mas existe algo mais saudável que isto, a possibilidade de no cinema atual você fazer de tudo e mais um pouco? Pois é, o cara fez quase tudo e ainda fez sexo. Palmas pra ele. E o chato foi ver que, quando o filme passou no Festival do Rio, o público teve o mesmo tipo de reação, rindo à toa, talvez influenciado pelos comentários estrangeiros. Eis o comportamento da inteligezzia colonizada.

Bem ou mal, mesmo aos trancos e barrancos, mais um filme diferente acabou sendo feito, gerado polêmica e debate. E Vincent Gallo foi corajoso em dar a cara a tapa. A mesma virtude teve Chloe Sevigny, uma ótima atriz que não se importou com qualquer tipo de moralismo ou “queimação” de sua carreira. Veja sem rir.


 

Christian Caselli


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