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Centenas de filmes para milhares de pessoas

Por Guilherme Whitaker em 18/12/2001 14:41


Centenas de filmes para milhares de pessoas
6 mil assistiram, durante 10 dias, dúzias de filmes nacionais e estrangeiros
Curtas ´Dadá` e ´ Os donos da morte` são premiados


Mostra Curta Cinema 2001

Em sua décima primeira edição, a Mostra Curta Cinema afirma-se como um painel abrangente da atual produção brasileira de curta-metragens. Exibindo 45 filmes de 13 estados da federação, a Mostra foge da concentração do eixo Rio-São Paulo para mostrar filmes de estados como o Pará, Espírito Santo, Rio Grande do Sul e Recife. Outro acerto, apesar de todas as dificuldades técnicas, é a exibição de filmes em 16mm sem segregá-los dos 35mm, como é o costume geral.

Mas além disso, a Mostra ainda é uma oportunidade única para o públicoe os curta-metragistas cariocas ficarem antenados com a produção de curta-metragens de todo o mundo, exibindo filmes desde Portugal até os países do Oriente. Os curta-metragistas têm a oportunidade de escapar às discussões em torno do seu próprio umbigo, como é a regra dos Festivais brasileiros, para poderem dialogar com o que acontece lá fora. Isso, é claro, se tiverem interesse.

Como não poderia deixar de ser, existe também um programa exclusivo para a produção carioca. É uma tendência natural, dado que a Mostra se realiza no Rio de Janeiro. De fato, acredito inclusive que não deveria haver seleção para os curtas cariocas. Além do Programa Carioca, que exibiu seis títulos, poderia haver um outro programa paralelo, com os demais curtas cariocas. Creio que não existe falta de espaço para deixar de exibi-los. Sabemos que existe uma enorme carência na exibição de curta-metragens. Sendo o Festival organizado e produzido no Rio, nada mais justo que toda a produção carioca seja exibida no evento. A iniciativa serviria também como estímulo para a produção de novos curtas no estado. Até porque o programa paralelo teria certamente uma boa presença do público.

Neste espaço, tecerei algumas considerações sobre o que vi nesta Mostra. As atenções ficarão restritas ao Panorama Brasil, feitas as considerações acima sobre a importância da exibição dos filmes estrangeiros. Ainda assim, este será infelizmente um panorama incompleto, dado que não pude assistir ao Programa Brasil 3 e à parte do Programa Carioca e do Outro Olhar. Entre os 45 filmes, 13 não foram vistos pelo autor destas sinuosas linhas (?!). 


A atual safra de curtas e o destino do cinema brasileiro

Talvez nem seja preciso observar que dadas as eternas dificuldades em se realizar um longa-metragem no país, o formato do curta-metragem tem sido, desde sempre, mas especialmente a partir da década de 80, um modelo de resistência, uma oportunidade para os cineastas brasileiros exporem sua visão de mundo e de cinema.

Em outro texto (Pra que serve um curta?), expus minha visão do curta-metragem não como um fim em si mesmo, mas como parte de um processo de busca e de aprendizado, que não conduza diretamente para a linguagem do longa-metragem, mas como um caminho que suscita inevitáveis erros e novos questionamentos.

Desse ponto de vista, a primeira impressão desse painel de curtas é naturalmente desapontadora. No entanto, é mister observar que a rigor a Mostra de 2001 não foi nem melhor nem pior que a dos anos anteriores. Se a mesmice que envolve os projetos de curta-metragens no Brasil aborrece o analista, ela não é diferente de todos os aspectos que tangem à estrutura cinematográfica brasileira. A necessidade de auto-projeção do cineasta a partir de um curta, o modelo restrito dos festivais de curta-metragem no Brasil, o modelo dos concursos de roteiro, a importância dos prêmios e do reconhecimento imediato concorrem para que, cada vez mais, a produção nacional de curta-metragens seja mais e mais conservadora.

O viés que envolve tais curtas é o mesmo que envolve a atual produção de longas brasileiros. 1) É preciso dialogar com o público. No entanto, o público é subestimado, porque se pensa que dialogar com o público significa que o filme seja o mais previsível possível. 2) É preciso nos convencermos que o cinema brasileiro atingiu um “nível internacional”, isto é, que possui o aparato técnico e o domínio da narrativa. Sim, mas essa preocupação excessiva torna os filmes mais um exercício de virtuosismo técnico do que essencialmente uma visão de cinema. O resultado são curtas que quase nunca são criativos ou surpreendentes, mas que seguem os padrões de sempre, os caminhos mais fáceis e as soluções mais retroativas.

No entanto, meu objetivo aqui está muito longe de exorcizar os curtas apresentados, ou declará-los como inviáveis. Ao contrário, vai na direção de que o curta sempre foi um espaço de resistência, um espaço pioneiro, de vanguarda, de pensar além, de buscar novos caminhos, de alçar novos valores. Por isso, não se deve deixar de assinalar de que a visão dos curtas deste ano deve ser naturalmente condescendente, para que algumas linhas sobre a produção nacional sejam possíveis.


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