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Cidade Baixa - Experiência indivizível num filme universal

Por Guilherme Whitaker em 28/12/2005 07:12


Cidade Baixa, de Sérgio Machado

Experiência indivizível num filme universal
Por Beto Leão 

Hoje eu acordei ainda sob o impacto das cenas fortes de “Cidade Baixa”, com seus ambientes sujos, escuros, em que há uma perfeita harmonia dos corpos suados, a respiração ofegante e o sexo à flor da pele dos personagens reais-fictícios que os coabitam. Tanto no trajeto até o cinema como durante os 105 minutos de projeção não pude deixar de pensar na Tatiana Potrich. Numa mensagem me enviada há três dias, ela fazia uma analogia entre os personagens principais deste filme com a dupla de protagonistas de “Brava Gente Brasileira”, que eu havia comentado durante o ciclo de debate promovido pelo Cineclube Cenarte no início deste mês em Goiânia, apontando todos como conseqüência do estupro amoroso de que é vítima o povo brasileiro, como a diretora Lúcia Murat deixa subentendido no seu filme. 

Sob esse aspecto apontado por você, Tatiana, eu também vi certas semelhanças nestes dois filmes. Nesse sentido, é emblemática a primorosa cena final de “Cidade Baixa”. Depois da violenta briga de Naldinho e Deco, Karinna, a menina com jeito de mulher, limpa o sangue dos dois com o mesmo pano (o que mostra a força da união deles), o sangue deles se misturam na bacia e, quando ela olha para a bacia, lembra do filho que acabou de abortar, e que ela não se sabia qual dos dois era o pai. Em “Brava Gente Brasileira” também há o aborto da indiazinha Ànote interpretada por Luciana Rigueira. Em ambos os casos, trata-se de extirpar-se o fruto proibido da miscigenação surgida do estupro amoroso do povo brasileiro.

Mas o filme do estreante Sérgio Machado guarda semelhanças mais próximas com “O Invasor”, de Beto Brant. Especialmente em seu aspecto semidocumental, realçado pela câmera na mão e pela iluminação baixa (sem holofotes e tripés), que dão liberdade cênica aos atores e os ajuda a se movimentar, improvisar, extravasar seus sentimentos e contracenar com coadjuvantes e figurantes que parece ter sido encontrados na hora da filmagem. Há uma interação bastante equilibrada deles com os protagonistas e a câmera, que corre para acompanhá-los. A direção de fotografia firme de Toca Seabra imprime à película uma espessura granulada, de cores vivas e tons que vão sem qualquer cerimônia do preto completo ao branco cegante, numa perfeita simbiose com a luz estroboscópica do prostíbulo onde os corpos se encontram, suados, ofegantes, em que quase são sentidos os seus cheiros através das imagens. 


Em síntese, trata-se de um filme em que tudo funciona em perfeita harmonia. O roteiro, escrito por Karim Ainouz (diretor de “Madame Satã”) e Sérgio Machado (roteirista e diretor assistente de “Abril Despedaçado”), é seco e direto. Os personagens são apresentados em suas idiossincrasias logo de cara: Karinna (Alice Braga numa magnífica interpretação) é uma prostitutazinha pobre, corpo de mulher e cara de menina, meiga, mas determinada; Deco (Lázaro Ramos) é o negrão magro e forte, cara amarrada, mas cheio de sentimentos, que esconde medos por trás da carranca, e Naldinho (Wagner Moura), o branco bonzinho que banca o impulsivo. Por fim, o quarto personagem é a zona portuária, a região do cais, do baixo meretrício, com sua imundície, seus personagens toscos e realistas. Isso tudo sem falar nos personagens secundários, como a cafetina que entra em cena muda e sai calada, só observando tudo à sua volta e recolhendo o fruto do seu agenciamento; o agenciador de pequenos latrocínios, e o treinador que "arranja" as lutas. Todos estão envolvidos numa lógica rasteira, a da sobrevivência. Nesse universo sem regras e sem moral, é bastante tênue a linha que separa a vida e a morte, como percebemos na seqüência em que o gringo amargurado se suicida. Apesar desses elementos, é um filme universal que fala de medo, decepção, desespero, paixão, raiva – presentes em qualquer outro lugar do mundo.

Nada é aleatório em “Cidade Baixa”. Da cena inicial em que Karinna nos é apresentada deixando o quarto familiar que tem foto de Rodrigo Santoro na parede, passando à cena do bar, onde ela pergunta por carona de estrada e quem responde são os barqueiros Deco e Naldinho, até a cena final em que o espectador é levado a tirar suas próprias conclusões sobre os destinos do triângulo amoroso sui generis. Começa aí, no primeiro minuto de filme, uma relação que vai gerar ciúme e rancor em Salvador. A briga de galos na rinha já é um prenúncio do embate final dos dois brothers galudinhos. Os impressionantes close-ups do final do filme, com os rostos sangrando sendo mostrados de forma nauseante, já mereceriam o ingresso que se paga para ter essa indivizível experiência que precisa ser sentida por cada espectador.

Por Beto Leão
Jornalista e Documentarista
http://pec.utopia.com.br/tiki-view_blog.php?blogId=31

 

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