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CINE PE - Filmes femininos, roteiros de diálogo e um futebol

Por Guilherme Whitaker em 01/05/2009 15:35


Esta foi a melhor sessão até agora, em termos de coesão, mesmo preferindo um curta ou outro passado anteriormente. Neste sentido, talvez o mais destoante dessa seleção foi justamente o primeiro, o recifense “O artilheiro no meu coração”, de Diego Trajano, Lucas Fitipaldi e Mellyna Reis. Trata-se de um trabalho de faculdade que procura reavivar a história do jogador pernambucano Ademir Marques de Menezes, um dos heróis dos primórdios do futebol brasileiro, mas que foi eclipsado pela traumática derrota da Copa de 50. Apesar do convencionalismo formal deste documentário, é curioso notar a carga dramática da vida de Ademir que, apesar de conquistar diversas vitórias nos times em que atuou (Sport, Vasco e Fluminense) e na própria seleção brasileira, “sempre serei lembrado como vice”, como reclamava ainda em vida. “Se ele ganhasse a partida final contra o Uruguai, seria o primeiro herói do futebol brasileiro e uma referência antes de Pelé”, como disse Diego no bate-papo. 

A sessão segue abordando relações interpessoais ora mais simples, ora mais complexas. “Quintas Intenções”, do carioca Maurício Rizzo, fala de um encontro trivial entre um homem e uma mulher que não se vêem há muito tempo, sendo que ambos estão solteiros em tal momento. Nisso, assistimos a um engraçado diálogo em que, com um recurso narrativo onírico, sabemos quais os desejos ocultos de cada personagem. Já no campo das relações mais complexas, “Cocais – A Cidade Reinventada”, documentário de Inês Cardoso, trata da local título, antigo manicômio do Estado de São Paulo. Com este projeto, a diretora conseguiu criar uma série de atividades unindo os moradores locais, cujos registros editados geraram tal filme exibido. Inês optou por criar um clima poético e não muito documental em seu curta, porém sua apresentação inicial em frente ao público do Cine-PE localizou melhor o público de suas intenções. E quando ela não está presente? Esta compreensão poderia ser mais complicada? Na discussão entre os realizadores no dia seguinte, ela fez uma autocrítica sobre a dificuldade que teve em encontrar uma linha de roteiro diante de tanto material filmado. “Então optei em mostrar um pouco de todo que passou durante o processo”, avaliou. Mesmo assim, “Cocais” é um curta interessante com imagens bastante únicas e que suscita discussões por onde quer que passe.

Em seguida foram exibidos dois curtas extremamente femininos. “A Mulher Biônica”, do cearense Armando Praça, que nada tem a ver com a antiga série da robótica gostosona que enfrentava vilões dos anos 70. Quer dizer, até enfrenta, mas os vilões são outros, como seus próprios fantasmas, o pai moribundo, a empregada que engravida, a vizinha bêbada, uma menor de rua enchedora de saco e por aí vai. A solução foi relaxar e gozar, literalmente. Apesar de alguns momentos de excesso, Armando Praça trabalha muito bem suas atrizes, coisa que já havia demonstrando muito bem em um curta anterior, “O Amor do Palhaço”. Porém quem chamou mais a atenção na sessão, principalmente quanto a direção de atores, foi o paulistano “Teresa”, feito pelas estreantes Renata Terra e Paula Szutan. Tratando do relacionamento da moça título, que espera em vão (ou não) seu noivo buscá-la na rodoviária, com uma mulher de meia idade dona de uma loja de salgados, o filme é uma tocante fábula de ajuda mútua contra a solidão nas grandes cidades e é uma certa apologia à esperança. Ok, com este comentário, muitos podem pensar que se trata de uma babaquice de auto-ajuda, mas a mão das jovens diretoras segura a trama com segurança, sutileza e sensibilidade, não caindo hora alguma para a pieguice – sustentado também pela grande atuação das duas atrizes.

(Christian Caselli viaja a convite do festival)


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