CINE PE - Quinto dia: Ritos de passagem e transformações ::  | Curta o Curta

CINE PE - Quinto dia: Ritos de passagem e transformações

Por Guilherme Whitaker em 04/05/2009 10:17


Finalmente pode se dizer que esta sessão, se não foi a melhor, foi a que provocou o maior número de comentários e reflexões. E o curioso é que o tema mais recorrente aqui foi a adolescência e as suas conseqüências, mas mesmo assim, no debate do dia seguinte, algumas pessoas confessaram ter saído da exibição bastante consternadas com o que viram.

 

Tudo começou com o desenho animado 2D “O Anão que virou gigante”, do carioca Marão. Embora o traço do realizador, um dos autores que mais se destacam no gênero atualmente no Brasil, seja bastante leve e até remeta a algo infantil, a viagem aqui é baseada na pessoa (real) que entrou para o Guinness por ter tido a maior variação de altura: passou de uma estatura de anão para chegar a 2m10. “O que eu queria aqui é saber o que teria se passado na cabeça de quem vive este tipo de transformação”, admitiu o autor, que parece ter acertado em cheio em suas intenções. Ou seja, não se trata aqui de um desenho engraçadinho, mas sim algo reflexivo e bem humorado, sem ser sisudo ou tristonho. Depois veio “Quem será Katlyn?”, de Caue Nunes, que tem como base o depoimento da travesti do título. É curioso ver como esse viés tem rendido assunto: só no Cine-PE foram selecionados três filmes com transformistas.

 

O seguinte curta seguinte, o primeiro em 35mm da noite, é mais um da boa safra pernambucana e que sempre gera as reações mais diversas por onde passa. Com o discreto nome “No. 27”, Marcelo Lordello, o diretor, toca com uma sensibilidade única um assunto escatológico e constrangedor: a história de um adolescente que tem uma dor de barriga e acaba se sujando no banheiro do colégio. Ele não sabe o que fazer e toma as decisões erradas, o que o leva a ser o alvo da chacota do colégio inteiro. Ou seja, com este mote, que poderia ser uma mera piada de mau gosto, Marcelo consegue tocar no que de pior poderia acontecer quanto a auto-estima de um jovem. Não há quem não se toque com o filme, que possui planos bastante longos e contemplativos fixados no expressivo rosto do ator, e não houve ninguém quem não tivesse lembrado de algo ocorrido em sua vida.

 

Mas aqui vale um parágrafo à parte, dedicado exclusivamente ao público do Cine-PE. Como havia informado anteriormente, é uma platéia bastante receptiva, o que nem sempre quer dizer algo necessariamente “bom”. Apesar da seriedade de “No. 27”, em diversos momentos a platéia se escangalhou de rir. O mesmo ocorreu com o documentário anterior, quanto apareciam alguns travestis mais decadentes. Estariam rindo de nervoso? Ou teriam a mesma mentalidade dos que sacanearam o menino de “No. 27”? Perguntado sobre o que achou sobre a reação do público, Marcelo não se importou moralmente com o assunto e pensa que isto é o espelho de um determinado local. “Em Tiradentes (MG), por exemplo, ninguém riu; mas das duas vezes que passou em Pernambuco, as pessoas tiveram a mesma reação”, contou.

 

As mudanças da adolescência tiveram outro tom no curta seguinte, “Eu e Crocodilos”, de Marcela Arantes, que contribui com um olhar feminino. No caso, é sobre uma (pelo menos por enquanto) magricela pré-adolescente que, entre outros artifícios, se obriga a vestir duas calças e pôr enchimentos no sutiã para chamar minimamente a atenção dos homens. Este culto ao corpo – na verdade, um grande sintoma de sua baixa estima – vem direto de suas miguxas que contabilizam entre 20 a 40 beijos na boca dados (ela só deu 4) e, de uma forma mais violenta, vinda das humilhações de seu cruel irmão mais velho (depois ela se vinga ameaçado espalhar que ele tem o pau pequeno). Tudo isto vem entremeado por uma discreta sequência onírica, em que ela se vê num pântano em que jura ter crocodilos. Não precisa ser Freud para entender que tal lugar é uma representação de seus medos, principalmente em sua atitude de andar pé-ante-pé por ali, porém mergulhando de cabeça quando o “gatinho do ônibus” lhe dá um “mole”. Muito interessante a abordagem de Marcela, poética e cronista ao mesmo tempo, e que vem do prêmio da Cultura Inglesa de SP, que gerou outros dois bons curtas sobre o tema: “Uma coisa assim”e “Saliva”.

 

O destoante total da sessão foi o mais novo desenho animado infantil (sim, realmente infantil) da bem sucedida série “Juro que vi”, da Multirio. Foi a vez de “O Saci” ser enfocado como personagem do folclore brasileiro. No entanto, apesar da consagração do público presente (que deve ser minimamente questionado, como foi dito anteriormente), a animação foi alvo de uma grande discussão no dia seguinte: tudo porque o traço de seu autor, Humberto Avelar, remete imediatamente o espectador ao padrão Disney. Mesmo até por quem defendeu o filme, já que este possui uma inegável qualidade técnica. A que ponto isto é válido para cativar platéias mirins em torno da cultura brasileira? E em que sentido essa apropriação do traço americano não contradiz a vontade de narrar algo genuinamente nosso? Quem representava o filme era a produtora Patrícia Alves Dias, que jura que não via (hehe) nenhum traço Disney no filme, mas que fazia uma mea-culpa afirmando que ainda todos estão em um processo de encontrar uma linguagem melhor para traduzir nosso folclore nas telas. Ou seja, debates, debates, debates.


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