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CINE PE - Segundo dia dos curtas: filmes infâncias partidas e etc.

Por Guilherme Whitaker em 01/05/2009 15:33


A segunda sessão de curtas do Cine PE teve um lado mais autoral em relação à primeira, porém sendo um pouco menos coesa. Ela começou com uma bonita e hours concours homenagem ao novo curta de Fernando Spencer, um veterano do audiovisual pernambucano com os seus 81 anos completos. “Nossos Ursos Camaradas” não fugiu a regra de seu trabalho anterior, sempre preocupado em fazer um registro das tradições carnavalescas de seu Estado. 

Logo após, abriu-se a mostra competitiva digital, sendo o primeiro curta o simpático documentário “Nello’s”, de André Ristum. Trata-se da estréia da série que a Ioiô filmes de SP quer fazer como base as histórias de imigrantes no Brasil. No caso, o personagem título é o italiano Nello de Rossi, dono de um restaurante na capital paulista, mas com todo um passado comprometido com o audiovisual, tendo trabalhado com Roberto Rossellini na juventude. Pra quem tem mais de 35 anos, Nello pode ser lembrado como garoto propaganda da US Top (era o coroa que falava “bonita camisa, Fernandinho”) e por dirigir o filme “Jeitosa”, com o avião Lúcia Veríssimo. O projeto é bem feito e vale pela iniciativa de resgate de algumas das subjetividades perdidas no mundo, mas não acrescenta muito enquanto linguagem – e creio até que esse nem é o objetivo da série. 

Em seguida veio “Teteco”, do carioca Glauco Kuhnert, todo filmado por câmeras celulares, mas que não cumpre a meta de simular uma confusão vivida dentro de um ônibus. Depois, “Eiffel”, do pernambucano Luiz Joaquim, pretende ir contra a construção de uma espécie de World Trade Center em pleno Recife, onde duas torres gêmeas interferem na paisagem da capital pernambucana. Mas a crítica soa discreta demais para olhos não-recifenses. No bate-papo com os realizadores, Luiz esmiuçou o quanto foi polêmica a construção do trambolho, mas preferiu investir na sutileza ao concentrar seu pequeno filme (3min) na intervenção paisagística. “Fiz isso até pra não ser processado”, brincou. Falando em filmes curtos e em paisagem, o cearense “6.5 Megapixels” (de um minuto, porém feito por três realizadoras: Michelline Helena, Glaucia Soares e Janaina de Paula), se vale de um acontecimento desagradável para construir um verdadeiro e triste cartão postal de várias cidades brasileiras... (melhor não falar mais; o filme deve estar no youtube e, caso achem, dêem uma olhada...)

Também do Ceará, “Selos”, de Gracielly Dias, investe mais uma vez em sutilezas, desta vez abordando um menino pobre e solitário cuja única distração é colecionar selos dados por um carteiro. Mas aí vem todo um drama familiar que frustra o hobbie do garoto. Trata-se de uma ficção observacional parecida com o novo cinema cearense que está se instaurando nos últimos anos. Lembra, por exemplo, o ótimo longa “O Grão”, de Petrus Cariri, também sobre um menino pobre e solitário. É claro que essa produção tem várias virtudes, principalmente no seu caráter autoral, mas tomara que isto não vire uma marca única, tanto em estética quanto na temática em tristezas subjetivas. Logo depois, mais um filme de solidão infantil (é interessante observar o pensamento seqüencial dado pela curadoria), desta vez com o carioca “Distração de Ivan”, de Cavi Borges e Gustavo Melo. Cavi, agitador cultural do Rio que chamou atenção pelos planos-sequências de seus últimos curtas (“7 Minutos” e “Engano”), resolveu mudar de estilo com este projeto, o primeiro devidamente patrocinado por um edital. Sendo assim, ele se aproximou do estilo mais decupado de seu diretor parceiro, Gustavo, que quase sempre enfoca a vida da periferia. No bate-papo do dia seguinte, o filme foi comparado à música “Gente Humilde”, por retratar um subúrbio romântico que não existe mais. De fato; a história ambientada em Brás de Pina certamente não teria mais o tipo de discussão verbal como na cena do futebol de rua – hoje certamente alguém poderia pegar uma arma fácil fácil... Cientes disso, os realizadores admitiram que enfocavam o subúrbio da década de 80, com fatos vividos de verdade por Gustavo, usando inclusive locações de sua infância. 

A sessão se encerrou com o aguardadíssimo curta pernambucano “Muro”, assinado pelo jovem que assina apenas como Tião. A expectativa era completamente justificada, pois o filme participou da Quinzena de Realizadores do festival de Cannes 2008. E, de fato, esta estranha produção também aborda uma infância difícil e cheia de culpas, porém de uma forma alegórica e fragmentada, às vezes até recorrendo a cenas de non sense desconcertantes. Reduzindo “porcamente” tal obra em palavras, deduz-se que a trama base gira em torno de um grupo de meninos de 8 a 10 anos que propõe uma corrida até um determinado local a duas garotinhas. “Mas não pode respirar”, fala um pestinha loiro. Assim, durante a corrida, imagens inusitadas de homens de terno tombam ao chão, ou mesmo encostam a cabeça em uma parede tal qual um moro de lamentações, entre outras cenas. Particularmente, a mais bonita e perturbadora é uma logo do início, em que pedras de gelo penduradas por fios gotejam em copos que se movimentam sozinhos, enquanto uma velha meio bruxa assiste duas pernas de menina surgidas no chão.

(Christian Caselli viaja a convite do festival)

 


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