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CINE PE - Sexto e último dia - introspecções e mais ritos de passagem

Por Guilherme Whitaker em 04/05/2009 10:41


E chega a sessão derradeira do Cine-PE. Neste meio tempo, é difícil traçar um paralelo sobre qual seria a linha da curadoria a respeito de suas escolhas quanto aos curtas, mas parece ter havido uma tentativa de agradar gregos e troianos. Filmes mais autorais se misturaram com de linguagem mais acessível, criando uma programação, no mínimo, variada. Talvez só tenha que se dar maior atenção aos digitais, pois a maioria dos escolhidos ainda flerta para uma narrativa de 35mm – e vale lembrar que os melhores vídeo feitos ultimamente têm contribuído bastante para uma nova e mais peculiar linguagem audiovisual.

 

Talvez não por acaso, de todas as sessões, esta, logo a última, pareceu ter os filmes mais herméticos. Começando por “Pelo Ouvido”, de Joaquim Haickel, que lida com os sentidos através da sensual e trágica história de um casal. Logo de início, entendemos que há um acidente de carro e o homem pára de ouvir, ver e falar. No entanto, o diretor defende a tese de que a audição é o principal sentido feminino (ou seria a fala?!?! – eita brincadeira machista) e sua bela esposa sente a necessidade de ouvir aquelas palavras cabeludas ditas durante o sexo. Joaquim construiu seu filme com bastante requinte e a sofisticação do mesmo foi bem aceita em vários festivais.

 

O filme menos autoral da sessão foi o documentário “Abril Pró-Rock – Fora do Eixo”, de Everson Teixeira, Ricardo Amoedo e Julio Neto. Trata-se de trabalho de conclusão de curso de jornalismo dos realizadores citados, que trata do importante festival que rola por aqui no mês do título. Infelizmente, como os próprios autores admitiram, sua falta de experiência e sua urgência em concluir o trabalho não os livrou de construir um resultado extremamente convencional. Deixa pra próxima. Mas logo depois veio a primeira película: “Dez Elefantes”, de Eva Randolph, desta vez um trabalho de conclusão do curso de cinema da UFF (situada em Niterói, RJ). Mais uma vez, como foi recorrente em outras sessões, a crueldade na infância foi tema. Quer dizer, não maus-tratos às crianças, mas aquelas marcas que começam lá longe e que, quando percebemos, é tarde: viraram traumas. Assim vemos uma agitada menina e seu canivete de estimação (?) morando em uma casa rural, convivendo com mortes de galinhas e seu irmão criador de taturanas. Não há uma história muito fixa aqui, uma das virtudes do filme, e sim lembranças de um período de vida. A platéia pareceu não entender muito das propostas exibidas e aplaudiu com um certo sarcasmo. Mas a incompreensão foi elevada a décima potência com a belíssima animação 3D “Silêncio e Sombras”, do paranaense Murilo Hauser. Diferente dos bichinhos fofinhos costumeiramente vindos neste formato, Murilo partiu de um poema de Goethe para ilustrar um simbólico e amargo rito de passagem de um menino estilizado. Ele é retirado bruscamente de sua brincadeira com sombras para seguir em frente com seu pai, um cavaleiro de vidro que segue sem parar e correndo por um cavalo pela floresta a fora. No final, o que era de vidro se quebrou e o menino segue sozinho no gelo. Melhor parar por aqui para não induzir às minhas interpretações – mas sugiro o leitor veja o filme assim que puder.

 

O seguinte foi o documentário “Phedra”, nome do veterano travesti retratado aqui e que, por sinal, foi uma das “atrizes” de “Os Sapatos de Aristeu” – aliás, não teria sido interessante os dois filmes terem passado na mesma sessão? Bom, deixa pra lá. Neste filme, a autora Claudia Priscilla preferiu informar sobre seu personagem, que nasceu em Cuba e tem todo o jeitão de mulher latina, através de uma conversa bem livre. O resultado é despojado e agradável. A sessão se encerrou com o gaúcho “Hóspede”, de Cristiane Oliveira, uma sutil crônica em que um anão socorre uma moça bonita em sua casa. Apesar da sensibilidade e simplicidade da história, a trama tem toda uma tensão, pois, pelo olhar amedrontado da mulher, parece que algo de estranho pode acontecer a qualquer momento. Mas ainda bem, pra felicidade da moça e dos espectadores, isto não é cinema americano, mas um exemplar do audiovisual alternativo do cinema brasileiro, que possui valores bem diferentes.

(Christian Caselli viaja a convite do festival)


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