Cineastas e projecionistas, uni-vos! ::  | Curta o Curta

Cineastas e projecionistas, uni-vos!

Por Guilherme Whitaker em 05/11/2004 10:46


 

Cineastas e projecionistas, uni-vos!
Autor: Francisco Serra


(ensaio para um manifesto)

É inútil dizer que o eterno problema do cinema brasileiro está na articulação entre produção e exibição. Trata-se , então, de uma questão política, pois na distribuição de filmes no Brasil, como na maioria dos países pobres, as cópias de filmes estrangeiros (especialmente NORTAMERICANOS) chegam a dominar cerca de 90% do mercado nacional, e enquanto isso estima-se que mais da metade do que ganha em Hollywood venha dos mercados estrangeiros...

De muito pouco adiantam leis protecionistas e de obrigatoriedade, se os exibidores e empresários em geral negam-se a cumpri-las, sob pena de pagarem menos pela devida multa do que se deixarem de exibir tantos filmes gringos por obrigatoriedade de contrato com as distribuidoras internacionais. Na maioria das vezes, o exibidor brasileiro que quer exibir o lucrativo Titanic, por exemplo, é também obrigado a passar em seu cinema tantos outros filmes estrangeiros de baixíssima qualidade da mesma distribuidora do filme milionário. Pacotão da (sub)cultura dominante.

Os festivais de cinema, já consagrados no calendário cultural, e as demais mostras independentes que correm o Brasil talvez sejam insuficientes para difundirem a intensa produção de filmes universitários e independentes. Sem desmerecer as devidas importâncias, as mostras e os festivais são eventos que normalmente surgem e desaparecem em poucos dias, beneficiando uma quantidade de filmes relativamente pequena (em relação ao que se produz) e que não representam necessariamente um espaço de exibição independente , no sentido político e artístico. Os grandes festivais, com escassas exceções, além de realizarem a seleção dos filmes a partir do acabamento técnico, e não do conteúdo, funcionam como manobras de marketing para lançarem mega-produções em busca de lucro perdido, enquanto algumas raras mostras (estas sim, necessárias) funcionam realmente como eventos de articulação entre produtores culturais, cineastas independentes e estudantes.

No Brasil, salvo a elite econômica, cineastas, estudantes, técnicos, escritores, atores e atrizes correm o risco de passarem fome ao tentarem qualquer caminho profissional / audiovisual que não passe pela TV GLOBO ou grandes empresas e produtoras similares, que apenas reproduzem o discurso do cinema hollywoodiano ou uma versão hollywoodiana da nossa realidade. No cinema e vídeo de curta-metragem são incontáveis os cineastas frustrados que realizam filmes curtos como única via possível de se produzir (dados os meios, grana, equipe não-profissional, etc.) Mas o problema está no seguinte processo: produz-se / finaliza-se um filme , a duras penas, e depois ? Sua exibição se restringe as mostras e festivais que o selecionarem e ponto final.

Se fizermos uma pesquisa nos meios alternativos de produção (produtoras independentes, faculdades de comunicação, escolas técnicas, etc.) facilmente iremos encontrar uma das causas da distância entre intenção e gesto, entre produção e exibição: são raros os interessados na projeção cinematográfica. Muitos produzem, poucos exibem... Há muitos anos já testemunhamos o funeral dos cineclubes em 16mm dos quais sobrevivem hoje um ou outro espaço, perdido na complexidade cultural / comercial do Rio de Janeiro. Os projecionistas das grandes salas, se aposentando, sem herdeiros, assistem ao avanço de novas tecnologias multiplex / megaplex, onde o jovem "projecionista" contratado tem uma função de "apertador de botões". E a cada dia surgem novas tecnologias imperialistas, como o cinema de transmissão digital, com exibições via satélite, substituindo o filme e o operador...Mas será que os filmes produzidos no terceiro mundo serão exibidos nestes cinemas via satélite ? Terão os países latinos, africanos, asiáticos, países ditos subdesenvolvidos, condições tecnológicas e políticas de terem seus filmes exibidos nestas salas globalizadas ?!

Portando, exibidores e projecionistas, cineastas e produtores independentes, nós que produzimos e exibimos filmes de forma alternativa no Brasil, devemos ter em mente a necessidade de formarmos quadros técnicos e criarmos novos espaços a fim de que nossos filmes circulem, interna e externamente, independente do tal "grande circuito" ... Não importa a bitola: vídeo, super8, 16, 35mm (quantas salas de cinema fechadas possuem projetores intactos...), o que importa é criarmos os meios , humanos e técnicos, para que estes filmes sejam exibidos, (re)pensados, discutidos, de uma forma contínua.

E quem sabe, num futuro não muito distante, os realizadores independentes se tornem os distribuidores e exibidores de suas obras...Assim o cinema independente teria maior difusão e formaria um público mais antenado, diferente daquele encontrado nas grandes salas de cinema, em busca de um cinema industrial, de consumo e entretenimento.

Na LUTA por um cinema político, e por uma política de cinema que se oponha ao cinema comercial dominante e aos veículos oficiais de comunicação (anti)social, projecionistas, cineastas e produtores independentes, uni-vos !


Francisco Serra é estudante de cinema, projecionista, roteirista e diretor dos curtas "Superoyto", "Severino da Silva" e "Psico Brasilis" (em produção). E-mail: chicoserra@zipmail.com.br.


Comente aqui...


Você precisa digitar algo na caixa de texto.
Não foi possível enviar seu comentário.
Informe um e-mail válido.
Você precisa informar um nome.
Você precisa digitar algo na caixa de texto.

Jornal do Curta


[confira outras notícias]