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Cinema de Autor

Por Guilherme Whitaker em 05/11/2004 11:01


 

Cinema de Autor
Autor: Eduardo Nunes


Enquanto na literatura, pintura, música, e até mesmo no teatro o autor é um elemento natural e necessário; no cinema, por muitas vezes, ele é ignorado ou esquecido. Por que a diferença ? De onde surgiu ?

Podemos notar que o conceito de autor está intimamente ligado ao conceito de arte. Só existe autor onde existe arte. O cinema surgiu em feiras de variedades do final do século passado; e foi, naturalmente, tratado como entretenimento, diversão. Muitos anos e cineastas depois, foi notado que em seu formato cabia uma obra de arte. Mas - diferente da pintura, da literatura e da escultura - um filme envolve muitas pessoas e eventos em sua realização. Poderíamos, então, dizer que neste ponto o cinema aproxima-se do teatro, da ópera ou da música orquestral; mas não, sua natureza ainda é diversa.

No teatro, na ópera ou na música orquestral o controle do autor sobre os elementos que compõe a obra são infinitamente maiores que no cinema. Nestes casos, existe um espaço neutro, vazio: o palco do teatro, onde tudo que ocupa este espaço possui o consentimento do autor. A cenografia, os figurinos, os movimentos, os atores, a luz... são criados especialmente para aquele evento. Diferente do cinema que trabalha, inevitavelmente, com o que já existe. Fazer cinema é um eterno abrir concessões.

O roteirista, como o escritor, acompanhado apenas por suas idéias, realiza uma obra: o roteiro. Obra incompleta e que marca o início de um filme; mas também o único momento de todo o processo que assemelha-se a tradicional criação artística e por con-seqüência ao que conhecemos como trabalho de autor.

A partir daí, com maior ou menor esforço, tentamos realizar o roteiro conforme suas ambições artísticas originais. Procura-se locações, atores, técnicos, construi-se cenários e figurinos... mas tudo apenas colabora para esvaziar a idéia original do roteiro. Por maior que seja o esforço, nunca o mundo real sequer aproxima-se do mundo criado no inconsciente do autor-roteirista; mesmo que o roteirista e o diretor sejam a mesma pessoa. Pois encontramos a locação perfeita não fosse por tal pequeno detalhe, o ator ideal mas que infelizmente sempre diz tal frase daquele jeito, ou ainda o fotógrafo que insiste em usar uma grande angular, pois com uma teleobjetiva não teremos a profundidade de campo desejada... Inicia-se aqui o doloroso processo de abrir concessões.

Acredito que para um cineasta manter-se autor e realizar uma obra de arte, ele deve antes de tudo saber trabalhar com as concessões. Poderíamos dizer que o filme ideal só existirá no dia em que for inventada uma máquina que, ligada a mente do roteirista-cineasta-autor, traduzirá em imagens a obra que surge do inconsciente; sem a necessidade de escrever o roteiro, escolher atores e locações e dividir o projeto com toda uma equipe.

Será este o filme ideal ?

Não saberia dizer... Quando analisamos a origem do cinema e notamos que a sua grande qualidade artística é justamente o registro do real, não tem sentido em falar de tal 'máquina' que reproduz o inconsciente. Devemos sim, tirar proveito deste real que regis-tramos. O autor de cinema saberá extrair, através de suas con-cessões, a arte contida na vida de todos aqueles elementos inadequados que formam um filme. Uma nova leitura daquele roteiro original, enriquecida pelas imperfeições da vida.


Eduardo Nunes é cineasta, formado pela UFF. Como diretor realizou cinco filmes de curta-metragem e alguns documentários para a TV. Publica artigos na revista Cinemais e atualmente prepara seu primeiro longa-metragem "Sudoeste".
Contato pelo e-mail: edununes@vnet.com.br.


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