Crítica dos curtas

Crítica dos curtas "Fui à guerra e não te chamei", "Vuvuzelas de Madureira"

Por Guilherme Whitaker em 28/12/2010 06:02


PREMIAÇÃO NOIA 2010

CARTA DO JÚRI

Para escolhermos os curtas-metragens vencedores das categorias do Festival NOIA 2010, consideramos o momento fértil de renovação pelo qual tem passado o cinema brasileiro, cristalizado na premiação de O Céu Sobre os Ombros, de Sérgio Borges, no Festival de Brasília, neste mês. Acreditamos que especialmente o cinema universitário deve carregar consigo as sementes de um cinema jovem, que respira um sentimento de renovação, que acredita na imagem e no som como instrumentos de potência, e que investem numa aposta pelo risco. Acreditamos que a premiação das principais categorias sinaliza um gesto ousado e reflexivo, que foge dos lugares-comuns das premiações em geral. O espírito da juventude universitária é ao mesmo tempo uma brisa de uma delicadeza afetuosa e um grito de inconformismo e resistência. Que assim o seja!

Fortaleza, 17 de dezembro de 2010.
Hugo Pierot, Marcelo Ikeda e Ricardo Alves Jr.


E em homenagem ao NOIA 2010, segue abaixo um comentário sobre os três curtas que ganharam os principais prêmios do festival, por Marcelo Ikeda:


Melhor Curta
Fui à guerra e não te chamei, de Leonardo Mouramateus, Roseane Morais e Luana Lacerda.

Prêmio Especial do Júri
Vuvuzelas de Madureira, de Vítor Medeiros

Melhor Direção
Princesa, de Rafaela Diógenes

 


Fui à Guerra e Não Te Chamei, de Leonardo Moura Mateus, Roseane Morais e Luana Lacerda

Fui à Guerra e Não Te Chamei é fruto dos primeiros núcleos de produção do Curso de Cinema e Audiovisual da UFC, que teve seu início ainda neste ano de 2010. A cada período letivo, os alunos optam por um dos núcleos existentes – “Documentário”, “Ficção” e “Poéticas Contemporâneas” – realizando uma obra audiovisual orientados por professores do curso. Com isto, o curso da UFC já denota sua preocupação em alargar o horizonte da realização audiovisual, para além da dicotomia entre documentário e ficção. A terceira via, que geralmente é rotulada como o caminho do “experimental”, passa a ser chamada de “poéticas contemporâneas”. Leonardo Moura Mateus, Roseane Morais e Luana Lacerda foram os únicos alunos que se aventuraram pelo misterioso núcleo das “Poéticas Contemporâneas”, tendo sido orientados pelas Professoras Walmeri Ribeiro e Cristiana Parente.

Este vídeo conta com a imprescindível participação criativa dos atores-performers Andréia Pires e Daniel Pizamiglio. Recém-formados pelo Curso Técnico em Dança, o duo já havia encantado a todos na apresentação de seu trabalho de conclusão de curso – “Cavalos”, que contou com a participação de Leonardo MouraMateus. Ingressando no Curso de Cinema, Leonardo orquestrou uma proposta de vídeo extremamente integrada com o trabalho dos bailarinos. É exatamente essa comunhão entre o trabalho de direção e o de interpretação que confere ao vídeo sua brilhante organicidade.

Em Fui à Guerra e Não Te Chamei, Pires e Pizamiglio dão continuidade ao seu trabalho de criação, que se baseia em modulações entre o afeto e a violência, entre a poesia lúdica e o sarcasmo masoquista, entre o prazer e a dor. No entanto, essa tensão não é criada a partir de momentos estanques que meramente se sucedem, mas integrados no interior de cada movimento e na forma específica como um bailarino responde ao movimento do parceiro. Para tanto, baseiam-se num intenso trabalho de expressão corporal, em que a extenuação física ocupa o papel dos desafios dos limites da relação entre esse casal.

Este trabalho específico coloca todas essas questões em primeiro plano, simplificando seu mote inicial: uma briga de casal. Após separarem suas roupas (veremos mais tarde que na verdade tratam-se das armas de um duelo), o casal se enfrenta (isto é, frente a frente) atirando suas próprias roupas no parceiro. Se por um lado existe uma energia raivosa, por outro há uma certa ingenuidade, uma poesia que emana desses corpos como se estivessem fazendo amor. Trata-se de um ritual, um duelo ético, não muito distantes daqueles da época da cavalaria, em que um atira no outro partes de si, parte do que carregaram consigo dentro de suas malas, até que elas fiquem vazias, e sua fúria tenha se acalmado. Um ritual metafórico, metafísico, projeção do desejo, mas ao mesmo tempo um ritual realista, mediado pelos movimentos do corpo e pelos objetos físicos, que desferem golpes, punhaladas de amor inofensivas (às vezes nem tão inofensivas assim...).

Mas se de um lado há todo o trabalho corporal e de expressão pessoal dos bailarinos, por outro, há um desafio adicional: o de pensar essa “performance” para uma câmera, o de retratar esse universo através dos recursos da mise-en-scêne cinematográfica. E é aqui que as opções do vídeo se destacam pela sua inventividade. Após um início em que o processo de arrumar as malas é filmado em jump cuts necessariamente fragmentados, com momentos em que os atores falam e olham para a câmera, quebrando o ilusionismo clássico, o filme então vai para sua derradeira cena, em que o casal finalmente se enfrenta. Esse casal é filmado como se estivesse num palco do teatro, num grande plano geral que cobre o corpo inteiro dos dois atores, posicionados lateralmente à câmera. E mais: num único plano-sequência, sem movimento da câmera. Dessa forma, a princípio poderíamos ter a impressão de que se trata de um mero registro de uma performance. Mas existe uma diferença crucial: a cena se passa na área verde do Parque do Cocó. Essa simples escolha adiciona uma série de questões que se integram à proposta dos bailarinos: uma briga íntima que se passa num espaço público, o sol que ilumina e castiga o corpo dos atores, o espaço lúdico do verde do parque que insere camadas entre a ingenuidade, a poesia e a ironia (seria uma brincadeira de crianças?), e que, em última instância, provoca esse cruzamento de olhares entre a dança, a performance, o teatro e o cinema. Cruzamento maravilhoso, ambíguo, misterioso. Cruzamento simples. Vivo, porque vem da vida (quem não teve uma briga de casal? quem nunca se atirou na grama de um parque?). Como se não bastasse, nesse simples recurso, o vídeo dialoga com um certo cinema contemporâneo: o tom de humor naive e a floresta como espaço de libertação e de entrega aos sentidos do corpo caros ao cinema de Apichatpong, ou mesmo o diálogo ambíguo com o teatral na composição do cinematográfico, próprio de Manoel de Oliveira. Com isso, Fui à Guerra e Não Te Chamei consegue um equilíbrio muito raro, muito singular: sem deixar de ser extremamente respeitoso e integrado ao trabalho prévio dos bailarinos, transpõe esse conceito para o campo do cinematográfico.

 


Vuvuzelas de Madureira, de Vítor Medeiros


É difícil e dasafiador ver um curta como esse Vuvuzelas de Madureira. Para reconhecer seu valor, é preciso acima de tudo ser um bom espectador, tarefa cada vez mais difícil no mundo de hoje poluído pelas imagens audiovisuais, banais e estéreis. Ou ainda, para ver Vuvuzelas, é preciso deixar um monte de coisas para trás. Digo isso porque a princípio as pessoas podem gostar de Vuvuzelas pelos motivos errados (pelo tom simpático dos personagens, ou ainda, seu tom exótico, pitoresco, ou engraçadinho) ou ainda detestar o filme pelos mesmos motivos (outros, mas no fundo os mesmos). Em Vuvuzelas de Madureira, Vítor Medeiros acompanha os preparativos de uma família (a sua própria) para os jogos do Brasil na Copa do Mundo (a compra de bandeiras e fitas no Mercadão de Madureira, os preparativos do banquete, a reunião conjunta para ver o jogo, a comemoração dos gols, etc.). Vítor “apenas” observa, mas o trunfo de seu filme, extremamente simples, mas extremamente belo, é exatamente este: o de saber observar. Ele simplesmente sabe registrar a beleza simples que é esta família estar junta. Seu olhar afetuoso e generoso vai na contramão de um julgamento do comportamento das pessoas quando vêem os jogos do Brasil. Se elas parecem alienadas ou patéticas, é porque o espectador não sabe ver. Vuvuzelas é o Pacific de Madureira: ele descontrói o olhar que estamos acostumados, que a televisão, que o clipe, que o cinema convencional nos oferece sobre tanto a periferia quanto a possibilidade de ver o outro na tela. Vuvuzelas é precário: no entanto essa precariedade é sinal de uma potência, um autêntico filme caseiro. “Estar junto”: filme de vocação genuinamente popular, filho legítimo do cinema da periferia, diferente das “cufas” e dos “cinco vezes” da vida. No entanto, o olhar de Vítor não é meramente deslumbrado: há uma espécie de epílogo, em que Vítor sabe observar que, após o jogo, vem a novela; ou ainda, que, após o banquete, sobram os restos na mesa, e a casa, vagarosamente, vai ficando vazia, e o dia cai. Seu filme acaba num ponto após a curva, depois do silêncio das vuvuzelas. Como cigarras, seu canto dura pouco: apesar de estridente e precário, é possível dizer que “é bonito o canto”. A simplicidade, a generosidade e a afetividade do olhar de Vítor torna Vuvuzelas um dos mais singelos documentários de 2010, um retrato digno, sem espalhafato e sem espetáculo, sobre não só a vida das periferias mas essencialmente sobre o prazer de uma família estar junta.

 



Princes, de Rafaela Diógenes

Para realizar Princesa, fruto do primeiro ateliê da segunda turma da Escola do Audiovisual, Rafaela Diógenes encontrou no diálogo com os trabalhos da turma anterior sua principal fonte de referência. Essa “sucessão de gerações” se revela não apenas pelo próprio fato de que Rafaela é prima de Pedro Diógenes, um dos mais destacados realizadores formados pela primeira turma, mas pela frontalidade que seu trabalho se propõe a revisitar um curta da primeira turma, que teve origem no mesmo ateliê “Imagem e Narrativa”: Espuma e Osso, de Guto Parente e Ticiano Monteiro. Para além dos méritos do filme, a própria proposta de diálogo com um curta da primeira turma, mais do que uma simples reverência, implica a afirmação de um projeto político de continuidade da beleza do projeto acadêmico da Escola, que, em sua estrutura modular, convidando palestrantes de destaque em suas respectivas áreas de todo o país, oferece uma proposta inventiva e libertária de formação em audiovisual, cujos frutos já se cristalizam nas diversas produções dos ex-alunos que ganham destaque em festivais nacionais e internacionais.

Princesa desenvolve uma narrativa de contenção, afeita aos princípios do cinema contemporâneo, acompanhando uma personagem que, ao mesmo tempo em que ocupa a tela com sua presença, permanece opaca, misteriosa, oblíqua, aos olhos do espectador. O curta acompanha o silencioso percurso da protagonista, do trabalho a casa, percorrendo os entremeios desse deslocamento, quando ela pega um ônibus e percorre a cidade noturna e vazia, ou ainda quando se senta num banco de uma praça, admirando à distância alguns gatos, seus únicos companheiros. Essa trajetória física se confunde com uma trajetória emocional, que desvela a solidão da protagonista, e que inscreve o filme com um tom peculiar de melancolia, valorizado por planos alongados, pelo clima de sugestão, pela singela fotografia que opta pela penumbra e pelos meios tons.

De Espuma e Osso, Rafaela extrai a posição singular de sua protagonista: vestida de Branca de Neve, contratada como animadora de uma festa infantil, sua tristeza contrasta com a inocência das crianças, como uma espécie de paraíso perdido. Outros elementos podem ser elencados: a busca por um cinema de sensações, uma opção pela decupagem e pela luz peculiar, o final com as imagens de arquivo vindas de uma televisão. Mas para além de uma mera repetição desses elementos, Rafaela Diógenes os utiliza inserindo suas marcas pessoais: a primeira prova disso é o expressivo rosto de Ana Luiza Rios, que enche a tela, como influência da formação prévia da diretora como atriz. Princesa é um trabalho feminino, cuja delicadeza expõe a fragilidade das relações humanas na contemporaneidade. E enquanto Espuma e Osso extraía sua força da diluição dos movimentos do corpo, em Princesa o corpo responde, como na que talvez seja a mais bela cena do curta, em que a protagonista tenta fechar em vão a porta de uma velha geladeira, através de movimentos incessantemente repetitivos, numa inércia da alma e do corpo tediosamente fatigados, numa cena que rememora o filme Prazeres Desconhecidos, de Jia Zhang-Ke. Parece ser o único momento possível em que a protagonista possa afinal desabafar sua angústia contida.


Vem espalhafato e sem espetáculo, sobre não só a vida das periferias mas essencialmente sobre o prazer de uma família estar junta.

 

Mais em www.marceloikeda.com


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