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Curta Carioca - A safra 99/2000

Por Guilherme Whitaker em 02/05/2004 14:07


Curta Carioca - A safra 99/2000
Autor: Eduardo Valente


Desde 1997, a tradicionalíssima Mostra Curta Cinema (que completa este ano dez edições), organizada pela A.R. Produções no CCBB, sentiu a necessidade de criar um "Programa Carioca", além dos Programas Brasil. Isso era prova de que o curta carioca encontrava-se num momento de extrema produtividade. Momento este que se estende até agora. Ficou claro então que, em termos de quantidade, esta produção é inquestionável. No entanto, a maior marca destas últimas safras tem sido a diversidade estético-temática. Até bem pouco tempo o curta-metragem no geral sempre esteve ligado a algumas imagens-chavão: o documentário mais careta, o filme-piada, a animação, a experiência formal. No caso do filme carioca falou-se ainda muito no "filme de praia". Pois bem, todos estes são gêneros existentes e até importantes marcas da realização em curta. No entanto, os últimos anos ajudam a fazer destes apenas mais alguns chavões que não servem para explicar o todo.

Se olhamos para a produção carioca de 1999/2000, fica difícil não se admirar com a qualidade e a diversidade que se aliam a quantidade de filmes. Com os concursos da Riofilme, o concurso do MinC, as produções universitárias, a produção carioca atinge uma regularidade hoje impressionante.

O documentário continua muito bem representado, como mostra "A Pessoa é para o Que Nasce" de Roberto Berliner, vencedor do Festival do Rio entre tantos prêmios. Além dele, pudemos ver "Adão ou Somos Todos Filhos da Terra" de Walter Salles, João Moreira Salles, Daniela Thomas e Katia Lund. Aguardamos ansiosos ainda o novo trabalho de Eduardo Vaisman, que promete uma mistura de documento e ficção, no mínimo fascinante.

Na parte ficcional, a variedade de gêneros é fenomenal. Enquanto "Rota de Colisão" (Roberval Duarte) foi representar o Brasil em Cannes com sua narrativa policial que permite um jogo lúdico de montagem e som, sendo que Quiá Rodrigues completou a dobradinha carioca na Riviera, com a animação "De Janela pro Cinema", verdadeira aula de amor e dedicação ao fazer cinema. "Retrato do Artista com um 38 na Mão" (Paulo Halm) expôs os dilemas e inquietações do artista com profundas doses de dramaticidade e algum experimentalismo, enquanto "Dama da Noite" (Mário Diamante) ultrapassa facilmente as barreiras do clichê do "filme gay", se relacionando com todas as platéias, como provou seu assombroso sucesso em Recife, tocando na solidão da vida numa cidade grande moderna. Em "O Vendedor de Pára-Raios", Eduardo Goldenstein consegue fugir da armadilha de adaptar uma grande obra da literatura mundial, especialmente com a ajuda de uma fotografia estupenda. Eduardo Nunes acaba de estrear seu "Tropel", filme que junta uma atenção estética extrema com um tratamento corajoso da situação dramática.

Nos campus universitários, o curta carioca viu um ano de especial prolixidade. A Universidade Federal Fluminense (UFF), mais antiga escola de cinema do estado, lançou 13 filmes, maior número produzido em muitos anos. Entre estes, "Cão Guia" de Gustavo Acioli foi especialmente bem sucedido ao receber prêmios em Brasília, Festival do Rio, Curitiba, Uruguai, e muitas outras participações. Mas, além deste, destaque-se o viés experimental de "Sociobiologia" (Antônio Carrilho), a dupla "Pai Nosso" (Márcio Azevedo) e "Ave Maria" (Igor Cabral e Sonia Hernandez), o documentário "Folia de Reis" (Maurício Mulim), além da poesia de "Carrapicho" (Toshie Nishio) e a temática gay de "O Vestido Dourado" (direção coletiva). Na Estácio de Sá, a nova safra impressionou pelo amadurecimento e o surgimento deste novo pólo já consolidado de talentos e filmes. Destaque-se "Coleira de Abutre" de Walter Fernandes; "A Mulher do Malandro Fugiu com o Otário", de Erik de Oliveira e André Gaglianone; e "A Praça" de Paulo Camacho, todos experiências muito bem sucedidas. Promete ainda para breve seus primeiros curtas o recente curso da Gama Filho.

O mais impressionante é pensar que até o fim do ano toda uma safra ainda vai chegar aos cinemas, com novos filmes de Eduardo Nunes, Rosane Svartman, Duda Vaisman, além de estréias premiadas pelos roteiros na Riofilme e MinC, muitos já filmados e em finalização. Na UFF, mais de 15 filmes aguardam para breve finalização. Roberval Duarte e Gustavo Acioli são exemplos de cineastas com projetos já montados para rodar em breve.

Em suma, o curta carioca vai muito bem obrigado. É claro que pensar que apenas um formato, duração ou estado da federação, sozinho, não vai nunca ser significativo se o cinema no Brasil todo não for bem das pernas. No entanto, é reconfortante pensar que, quando nos preparamos para os próximos rounds na luta por este cinema brasileiro, que começa no Congresso mas continua longamente, temos a segurança de que uma nova geração está pronta para dar seus próximos passos, já tendo deixado claro que, no que depender dela, não vão faltar temas e compreensões estéticas para dar injeções constantes de vitalidade na produção e na recepção destes filmes.


Eduardo Valente é formado em cinema pela UFF, coordena o Festival Brasileiro de Cinema Universitário, além de trabalhar em produção de filmes e festivais. Crítico e editor da revista de cinema Contracampo (www.contracampo.he.com.br), finaliza seu curta de estréia como diretor, "Um Sol Alaranjado".
Contato pelo e-mail: dudavalente@uol.com.br


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