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Curta o Longa - A Fantástica Fábrica de Chocolate

Por Guilherme Whitaker em 31/08/2005 11:52


A Fantástica Fábrica de Chocolate (2005)

SONHO DOCE 
DOCE

Por Kleber Mendonça Filho

Ao final da sessão dublada de A Fantástica Fábrica de Chocolate (Charlie and the Chocolate Factory, EUA/Ing, 2005), de Tim Burton, terça à noite no Box Guararapes, o comentário geral era "MICHAEL JACKSON!!", referência pop mais próxima de Willy Wonka. Esse personagem é mostrado com alguma fidelidade por Burton (e seu alter ego Johnny Depp) à obra de Roald Dahl. No entanto, o sucesso de Jackson com crianças não faria sentido se ele fosse tão malvado e sinistro quanto Wonka, que ganha uma segunda interpretação em cinema. A primeira mora nos corações de nós pimpolhos de 30 e poucos anos que o conhecemos, se não na imaginação do lindo livro de Dahl, no filme de mesmo nome feito em 1971, clássico da Sessão da Tarde com o grande Gene Wilder. A nova versão interpretada por Burton tende a ficar um enjôo bobo e doce rumo ao final, mas revela-se também um dos espetáculos mais coloridamente insanos já filmados numa produção de grande porte. 


Divulgação

Na verdade, durante o filme pensamos no quanto seria maravilhoso poder vê-lo com os olhos e as idéias de uma criança de sete ou 10 anos de idade. Mesmo para nós adultos, há algo de perfeitamente infantil num lugar todo feito de chocolate, onde a cachoeira é achocolatada e a grama doce e comestível. Sem falar, claro, nas loucas invenções, administradas por dezenas de Umpa-Lumpas que cantam e dançam no palco de um sonho que ameaça virar pesadelo, a cada cena (fogo no teatro de bonecos, ataque de esquilos...).

Burton, que virou pai recentemente, conseguiu fazer um presente áudio-visual para crianças grandes e pequenas, e aí nós nos incluímos. Imagino o quanto esse DVD não vai vender no próximo natal... A simples idéia de ele assumir o projeto deixou admiradores salivando já há um bom tempo, e o filme acabado pode ser visto como um deleite de chocolate coberto com creme e açúcar. Só mesmo a dublagem que cai como uma mosca morta em cima, lhe deixando a catá-la com grande desprazer.

Os escritos de Dahl caem como uma luva nas sensibilidades de Burton, que tinha adaptado (como produtor e mentor) anteriormente o delicioso James e o Pêssego Gigante, também dos escritos de Dahl. Engraçado que, vendo esse novo filme, lembrei da adaptação competente e recente de Desventuras em Série, uma obra que cai bastante numa segunda visita (revi recentemente em DVD). Talvez caia pelo fato de os livros base (de Lemony Snicket) serem, de fato, clones do estilo Roald Dahl (morto em 1990), e o filme de Brad Silberling uma outra clonagem em termos de cinema do toque Burton. Em A Fantástica Fábrica de Chocolate, temos os dois juntos, e ainda Danny Elfman fazendo seus ruídos ’assinatura’ que me agradam ali por trás.

Primeira coisa que chama a atenção: o Wonka de Depp revela-se estranho ao ponto de causar terror, e tem-se a impressão de que ele está atuando com os dentes. Por causa da dublagem, não é possível saber exatamente o que Depp queria, mas o resultado soa e sugere afetação e loucura. Esse Wonka é uma fonte de prazer ao o vermos se livrando cruelmente de crianças insuportáveis (uma delas é jogada no lixo, bem feito...), mas revela-se fraco nas tentativas de o filme psico-analisar o personagem com flashbacks rumo ao passado (que não existem no livro).

Nada contra flashbacks, mas Burton repete sem o mesmo efeito a sua receita de Edward Mãos de Tesoura, inclusive prestando uma outra grande homenagem a nome mítico do cinema britânico de terror e ficção científica. Se em Edward, Vincent Price fazia o inventor do garoto com mãos de tesoura, em ’Chocolate’ o homenageado é Christopher Lee, num papel tão raso que acusa-lo de ter a espessura de uma folha de papel seria elogio. É o pai Wonka, resposnável por um trauma de doce no menino que sempre ouviu ser "pirulito cárie em palito".

Com o Wonka de Depp parecendo um costureiro afetado do grand monde fashion, o Wonka de Wilder continua são e salvo nos nossos corações, especialmente rumo ao final da versão de Burton, que fica realmente idiota com um enxerto artificialmente açucarado sobre a importância da família. No entanto, as artes visuais que compõem o filme como um todo são farto material para uma overdose fantástica de doces e imaginação. 


Divulgação

Não muito tempo atrás, o "B" Casa de Cera me impressionou com umas imagens fascinantes de um mundo falso em ruínas que derretiam diante dos nossos olhos. Burton e Alex McDowell, diretor de arte, foram léguas além, e os cenários da Fábrica em si atualizam um aspecto que me chamou (tristemente) a atenção quando eu revi o filme de 1971, ano passado, em DVD. Como tudo era pequeno e barato, o cenário da fábrica tão limitado, mas que, mesmo assim, me alimentou de imaginação e vontade de comer doces durante tantos anos.

Na versão de Burton, posso apenas imaginar que efeito halucinógeno esse grande visualizador poderá ter em almas infantis acostumadas demais com a visão de plástico, mas talvez ainda sensíveis às imagens ricas de um mundo de desejos palpáveis onde tudo dá vontade, e onde nada realmente existe.

PS: Ainda no lado positivo, o filme é muito engraçado.
Filme visto dublado no Box Guararapes, Recife, Julho 2005 

Por Kleber Mendonça Filho - www.cinemascopio.com.br

 

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