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Curta o Longa - Artigo sobre A Concepção

Por Guilherme Whitaker em 10/07/2006 10:06


           

A CONCEPÇÃO,   de José Eduardo Belmonte


A formalização do niilismo


A Concepção (José Eduardo Belmonte, 2006) inicia falando de Brasília, pela voz de um narrador desbocado: cidade chata, quadrada, sem quaisquer formas de diversão. A voz over que nos acompanha é claramente de um jovem aborrecido, e as imagens velozes e entrecortadas sugerem o ponto de vista de jovens.
                                                                                                                                        Talvez por isso mesmo, muitos críticos apostaram no filme como um retrato da juventude baderneira de Brasília, algo que vai ser negado ao longo dos noventa minutos seguintes de filme. A Concepção parte desse núcleo local, mas tem clara ânsia universalizante. Os jovens brasilienses poderiam ser jovens quaisquer, pois o que se põe em cheque não são particularidades regionais, mas uma abstração, a tal concepção do título.

            Esta concepção seria, digamos, um “projeto de vida”. Três adolescentes ricos e desocupados encontram num prostíbulo um pseudo-filósofo andrógino (Matheus Nachtergaele), que cria regras do “manifesto concepcionista”, no qual se prega a negação do ego e a força obtida através dos “caminhos do excesso”.

            Trocando em miúdos, a concepção nada mais é do que uma tentativa de formalização do niilismo. Através das regras abertas (a última delas diz para se esquecer as anteriores), pode-se aproveitar de sexo e drogas como liberdade. O que se segue é um festival de imagens que chocaram o Festival de Brasília: muita nudez frontal de todo o elenco, drogas de todos os tipos, psicodelia e uma paixão particular pelo escatológico e pelo “feio”.

            A estética escolhida para se mostrar essas imagens segue a visão jovem, num grande portfólio de absolutamente toda possibilidade de fazer um cinema “sujo”: câmera tremida, desfocada, granulada, sons oscilantes, cores alteradas, efeitos especiais, cartoons, planos curtos, cortes rápidos, narrativa fragmentada e não-cronológica etc.

            Teoricamente, buscou-se a estética adequada para se mostrar a curtição que aquela vida representava para a maioria dos jovens. A curta duração do filme parece se estender, em uma viagem cansativa até para o espectador. A sensação transmitida é a de se ter passado um tempo sob o efeito daquela proposta, numa tentativa clara de inserir o espectador no universo mostrado.

            O grande problema de tudo isso é que o filme não se desenvolve. Existe uma só ação (a mostra do concepcionismo), que sequer pode ser chamada ação dramática, pela ausência de conflito. Pela trajetória hedonista (e pelo roteiro que arma seus personagens de um invejável poder financeiro), não há impedimentos à realização do manifesto. Os jovens se amam, se drogam e festejam ciclicamente, e só no fim algo vem alterar essa ordem, em um clímax estranho porque não vindo depois de qualquer tipo de desenvolvimento. A Concepção parece inteiro uma longa apresentação de personagens.

            Novamente, muitos críticos distinguiram o retrato do filme dos retratos baderneiros quaisquer, pela simples existência de um conjunto que regras que os torna oficial. Ora, as regras como a ausência do ego são representadas simultaneamente pela sua negação e sua multiplicidade, em cenas onde os protagonistas queimam suas carteiras de identidade, mas em seguida fabricam várias para aplicarem pequenos golpes com identidades novas.

            Demais leis concepcionistas são todas genéricas, e, porque niilistas, incoerentes. Afinal, o próprio guru do grupo, X (o pseudo-filósofo citado anteoriomente), passa o tempo todo a subvertê-las, enquanto o narrador (numa tentativa de dar unidade a toda a exposição maciça de imagens) cita constantemente que X era o único a levar o concepcionismo realmente a sério. Talvez seja essa a forma de ser um bom niilista: criando as próprias regras para subvertê-las.

O filme depois mostra na figura de outra personagem, Liz (Rosanne Holland), uma outra possibilidade de niilismo, apoiada num profundo individualismo. Liz ganha a confiança de várias pessoas, mas as trai após conquistados os objetivos. Ela não ama ninguém exceto o próprio projeto concepcionista, e vive de acordo com os preceitos dessa teoria.

Não é difícil estabelecer pontos de contato entre A Concepção e filmes como Os Idiotas (1998), de Lars Von Trier. Na obra dinamarquesa, um grupo de adultos acreditava na idiotia como um contato com o natural e primitivo, que os separava do mundo burocrático que levavam. Eles recorriam, então, a horas de ações infantilóides, gritando e chorando, babando e urinando. E também tinham prazer no sexo grupal, algo que Lars Von Trier filma com imenso impacto.

Uma diferença substancial entre os dois “projetos” é que a idiotia de Von Trier surgia após feitas as leis, e com um objetivo muito claro. A atmosfera de culto que cercava as reuniões dos idiotas contribui para o choque que este filme também teve à época.

Os concepcionistas, por outro lado, buscam legitimar uma vida que já levavam. As leis são feitas para se moldarem ao cotidiano, e não o contrário. Essas próprias leis, paradoxalmente, impedem que sejam cumpridas, e deixam claras que não atingem objetivo nenhum além do próprio prazer.

Uma diferença ainda maior se dá na escolha de se mostrar esses dois projetos. O que chocava tanto no filme dinamarquês era a idiotia mostrada como algo sério. A câmera crua, sem qualquer preciosismo, optava por oferecer um distanciamento que permitia ao espectador estranhar e avaliar o comportamento do grupo.

A aproximação com o espectador em A Concepção é claramente antropofágica. Devora-se e não se permite que se avalie a experiência. O resultado de tudo isso é que Os Idiotas parecia claramente político e capaz de auto-reflexão, enquanto A Concepção apóia o niilismo que apresenta e não é capaz de se distanciar minimamente daquilo que expõe. O primeiro é crítico e reflexivo, o segundo meramente expositivo.

É nesse ponto que reside um dos pontos mais fracos do filme de José Eduardo Belmonte: a opção por tomar partido (no caso, favoravelmente) em relação ao concepcionismo, ou ao niilismo. O final sugere isso, ao mostrar um bilhetinho que sugere que “o espírito do concepcionismo” vai continuar. É uma visão romantizada e utópica do projeto.

Atrás da aparente coerência em filmar o niilismo de modo niilista, A Concepção deixa de dar ao espectador algo a pensar. Afinal, mostra-se um pensamento já elaborado: como as coisas são, como as pessoas agem, qual lado apoiar. É esse o problema de filmes que se comportam como a defesa de uma tese, ao invés de uma proposta fecunda de discussão.

Por Bruno Carmelo, brunocarmelo@gmail.com



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