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CURTA O LONGA - Dois filhos de Francisco

Por Guilherme Whitaker em 16/09/2005 19:56


Dois Filhos de Francisco, de Breno Silveira 

O ELOGIO AO ATRASO
Por  Ozualdo Mizigroucho

Dois Filhos de Francisco acaba de ser lançado em mais de 300 salas de cinema em todo o país. Recebeu elogios quase unânimes da crítica, o que chega a ser surpreendente, dados todos os preconceitos que envolvem o Brasil rural e a dupla de sertanejos "caipiras e bregas" chamada Zezé di Camargo e Luciano. O que poderia ser um mero filme de encomenda, uma espécie de Maria, mãe do filho de Deus (o filme do Padre Marcelo Rossi) acabou tomando proporções dificilmente antes imaginadas: virou símbolo de uma "brasilidade", da busca de um Brasil autêntico, interiorano, das "raízes do Brasil"; virou até válvula de escape para o fantasma da crise que assola as recentes produções da Globo Filmes em 2005. Tornou-se um filme "genuinamente popular", e ganhou a grife de um cinema mais refinado, com o esmero de produção da Conspiração Filmes e a organização da trilha sonora por Caetano Veloso. Resultado ainda por se medir em sua totalidade, Dois Filhos de Francisco, pelo menos em sua primeira semana em cartaz, conquistou mais rapidamente a classe a que o filme (a princípio) não se dirigia: as classes A e B. O filme teve um melhor desempenho de bilheteria na Zona Sul do Rio de Janeiro do que no interior de São Paulo.


Divulgação

Este surpreendente resultado apenas comprova os diversos paradoxos do cinema brasileiro, que por sua vez refletem muitos elementos da sociedade brasileira de hoje. Por isso, ver o filme torna-se fundamental, mas não, na expressão de Luiz Carlos Merten, por "amor ao cinema e por amor ao Brasil", mas sim para que o espectador mais crítico possa se distanciar do mergulho emocional típico da narrativa clássica e possa analisar o que o filme nos revela em termos das contradições do país em que vivemos e do cinema que vem sendo feito neste país.

* * *
Em última instância, Dois Filhos de Francisco é a história de um Brasil que pode dar certo. É a história de uma família simples, cujo pai acreditava em um sonho de progresso: ele acreditava no talento de seus filhos. O pai vende então suas ferramentas de trabalho para apostar no sonho, apesar de a realidade e os amigos mais próximos tacharem-no como um louco. Compra com o dinheiro da venda um acordeão e um violão. Rapidamente, a pá e a enxada são substituídas pela música: os novos objetos transformam-se nos instrumentos de trabalho dessa família. A cidade grande, ou seja, a civilização, passa a ser a esperança de conquista para essa família. Mas lá a vida é árdua. Enquanto a mãe chora por não ter sequer comida para alimentar os filhos menores, surge a idéia que irá transformar os rumos da família (e conseqüentemente o ponto de virada do filme): os meninos vão, com seus instrumentos de trabalho, para a rodoviária, e ganham, com seu talento de cantar, mais dinheiro que o pai na construção civil. A cena da rodoviária é carregada de emoção. Dali em diante um empresário descobre os meninos, e sua "ascensão social" começa. 


Divulgação

O filme, então, investe no sonho de uma vida mais digna pelas classes menos favorecidas, na esperança do surgimento de uma expressão autêntica e popular vinda do interior do Brasil. Mas como o filme descreve a trajetória dessa conquista? A dupla é abençoada por um dom divino: o dom de cantar, o talento de suas vozes. São intuitivos: não precisam de ensaios, não precisam educar sua voz. Os meninos não estudam, e sequer freqüentam a escola, e apenas comprovam a presença do trabalho infantil nas classes mais baixas da sociedade brasileira. Sua escola é "a escola da vida". Ou seja, o sonho de ascensão social continua sendo o mesmo: a história pode ser de Ronaldo Fenômeno ou de Zezé di Camargo. A vida de sucesso não possui revezes: os revezes no meio do caminho são sacrifícios necessários para o atingimento do sucesso, e quando ele chega, o filme cumpre sua missão, e acaba.

O sucesso dessa família humilde não mexe com nenhuma das estruturas de poder possíveis, em nenhum momento surge como transformadora, mas, ao contrário, conformista. O sucesso surge de um enraizamento no atraso, de uma dependência intrínseca do subdesenvolvimento: é a partir do atraso de um Brasil que essa família galga seus passos. Dois Filhos de Francisco estimula a paralisia, porque revela que a revolução possível é a luta pela inserção, é a cooptação pelo sistema dominante: as armas são a música, o dom divino de cantar, a compaixão que se estimula no Outro. Em suas canções a dupla tira de pessoas de sua própria classe social sua possibilidade de sustento e sucesso: a canção é mero subterfúgio primário das mazelas do dia-a-dia que continuam a persistir, intocadas.

Por isso, não por acaso, Dois Filhos de Francisco, por trás de seu cinema "honesto", "humano", "bem-intencionado", "generoso", "brasileiro", "interiorano", reflete um sem-número de paradoxos, tornando-se uma espécie de síntese do Governo Lula, da sociedade brasileira, e do próprio cinema brasileiro de hoje. Qual é o Brasil que se busca viver? Qual é o cinema brasileiro que se busca? Por trás da utopia do sonho possível, da ascensão social dos miseráveis, dos interioranos, há um discurso implícito de perpetuação do atraso, uma "poesia do atraso". Cheio de boas intenções, de imagens sublimes, de sentimentos suavemente dolorosos, Dois Filhos de Francisco mostra o Brasil que pode dar certo. Ao final, fica-nos a pergunta: se é tão simples, então ele não deu certo por quê? 

Por Ozualdo Mizogroucho
siteclaquete@yahoo.com.br

 

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