CURTA O LONGA - ESPECIAL FESTIVAL DO RIO ::  | Curta o Curta

CURTA O LONGA - ESPECIAL FESTIVAL DO RIO

Por Guilherme Whitaker em 30/09/2005 22:30


CURTA O LONGA
ESPECIAL FESTIVAL DO RIO 2005 
Críticas de Christian Caselli e Marcelo Ikeda

Festival do Rio é aquela coisa linda. 

A cidade inteira vira cinéfila. Pessoas alucinadas se matam 
atrás de filmes. Algumas não sabem nada sobre o que vão 
assistir e nem por que assistir. Mas compram ingressos assim mesmo.
Compram por dúzia. Às vezes por quilo. Enfrentam fila. Acordam cedo. 

Todo ano é a mesma coisa. O O Globo divide cinéfilos como gado e os
jornalistas se acham muito maneiros fazendo testizinhos supimpas. "Afinal, o
que eu sou", pergunta-se o leitor, pois, obviamente, é necessário sempre ser
alguma coisa. Mas nem precisava do teste. Durante estes dias todo mundo sai
à caráter dentro de sua tribo. Os indies ficam ainda mais indies. As mulheres, 
mais imperequetadas. Os óculos-de-aro-preto ficam mais óculos-de-aro-preto. 
E assim vai. Estilo é o que importa. Enfim, o Festival do Rio é o must. 

Ah, sim, e tem os filmes. Centenas deles. Vários bons. Muitos ruins. É uma
loteria. Grande parte nem precisava dessa pressa toda, já que vão estrear
logo após a mostra. Mas, afinal, qual é o prazer de se ir ao cinema numa
vulgar sessão comercial? A repescagem já é sem graça! 

Mas, apesar de toda crítica a ser feita, felizmente moramos numa cidade que
comporta um evento com o Festival do Rio. Pelo menos isto.
Bom festival a todos! Esperamos que vocês concordem rigorosamente com as
críticas do Curta o Longa. E que, ao mesmo tempo, não nos leve a sério. 

Beijo nas criança. 

Christian Caselli 


Leia as críticas abaixo:

GARGANTA PROFUNDA, de Gerard Damiano
A MÁQUINA, de João Falcão 
EL TOPO, de Alejandro Jodorowski 
O ENCOURAÇADO POTEMKIM, de Sergei Eisenstein
MANDERLAY, de Lars Von Trier
QUERIDA WENDY, de Thomas Vinterberg
BATALHA NO CÉU, de Carlos Reygadas
 
SEX AND PHILOSOPHY, de Mohsen Makhmalbaf
O PERFUME DO INCENSO, de Keisuke Kinoshita
A ÙLTIMA TRANSA DO PRESIDENTE, de Im Sang-Soo
ELECTION, de Johnnie To
  
THE LAST DAYS, de Gus Van Sant

Saiba a programação completa do Festival do Rio em www.festivaldorio.com.br


E Curta o Curta na Rede, é legal!
www.curtaocurta.com.br

 

Curta o Longa
Especial Festival do Rio 2005 

Crítica ao filme "Garganta Profunda", de 

Ouça também os sininhos!

Por Christian Caselli

Os EUA, o país mais esquisito do mundo, viveram uma espécie de puberdade nos
anos 70. Com o afrouxamento da censura - que qualifica lá até hoje os filmes
como "R", "X" e outras bizarrices - o cinema independente americano se viu
bem mais despudorado. Em 1972 então, houve o clímax disto, quando foram
feitos clássicos do gênero como "The Last House at Left", primeiro filme do
Wes Craven, o sensacional "Pink Flamingos", do John Waters, e o nosso
querido "Garganta Profunda", que o Festival do Rio corajosamente exibe em
sua programação.

"Garganta Profunda" é um grande barato, tanto como curtição quanto
financeiramente, que parece - ou foi, de fato - fruto da piração de um monte
de amigos que resolveram fazer um filme e transar. O resultado, caseiro e
despojado, acertou em cheio do gosto popular, que provavelmente se
identificou com a coisa como quem olha para uma daquelas fotos amadoras e
eróticas. O filme acabou se tornando o maior sucesso do cinema pornô de
todos os tempos, pelos menos em bilheteria proporcional, já que deve ter
custado dois tostões e uma mariola. E permanecerá por este posto até o final
dos dias, já que não se vê mais sessões pornográficas nos cine-poeiras da
vida - quer dizer, não da mesma forma.

Um dos segredo para este êxito foi o uso do humor no filme. A começar pela
sinopse: "mulher não tem orgasmo vaginal por ter clitóris na garganta".
Parece até manchete do Notícias Populares. E, no médico, ao descobrir esta
estranha anomalia, acontece na telas um dos diálogos mais hilários da sétima
arte. A mulher, vivida pela atriz Linda Lovelance (que virou evangélica,
dizem), começa a chorar: 

MÉDICO - Mas por que você está chorando?
LINDA - Ora, dr., imagine se você tivesse os testículos nos ouvidos!
MÉDICO - Bom, pelo menos eu me ouviria gozar!

Ou seja, "Garganta Profunda" é o máximo em termos de cinema popular, pois
mostra exatamente o que o povo gosta, sem a sutileza ou os rodeios do
softcore ou da pornochanchada. E de uma forma leve e divertida, mas do jeito
que o diabo gosta (e por falar no "coisa ruim", que no ano que vem o
Festival exiba o segundo filme de Damiano, "O Diabo na Carne de Miss Jones",
que, acreditem ou não, é um filmaço em todos os sentidos). Ou seja, cinema
gostoso e escrachado com sexo idem, sem aquele não-fode-nem-sai-de-cima dos
"Amor à Flor da Pele" da vida.

Ops, acabei de entender porque os moderninhos gostam tanto do Wong Kar Wai.

 

Curta o Longa
Especial Festival do Rio 2005 

Crítica ao filme  A Máquina, de João Falcão 
Por Marcelo Ikeda

Uma bela surpresa. A Máquina vem comprovando os novos rumos da Diler Produções. Consciente de que o poço do sucesso fácil, dos filmes da Xuxa, Trapalhões e Padre Marcelo Rossi está quase secando, Diler está tentando diversificar a cartela da sua produtora, aproveitando uma safra de vacas magras e sua habilidade como produtor para levantar recursos pelas leis de incentivo. A Máquina, filme de estréia de João Falcão, é o projeto ideal dessa nova fase da Diler, e na verdade espelha toda uma tentativa de um cinema brasileiro: uma ponte hábil entre o cinema popular (ou ainda, o cinema de produção, o apoio da Globo Filmes, etc.) com um cinema mais autoral (ou ainda, o cinema de linguagem, o cinema anti-televisivo). Pois A Máquina consegue, e mesmo ancorado numa proposta de cinema popular, nunca abandona um desejo intenso pela linguagem e uma vontade doida de filmar na corda-bamba, de utilizar os recursos do cinema. Daí que sua referência primeira vem dos filmes de Guel Arraes, e se torna quase improvável ver A Máquina sem nos remeter a Lisbela e o Prisioneiro: o discurso verbal e a atenção para a fala, para a oralidade como recurso expressivo; as mudanças de tom que dialogam com os diversos gêneros dentro do mesmo filme (o romance, a comédia, o dramalhão, o musical), ou ainda a tentativa de se fazer um filme tanto para o público masculino quando feminino; o cinema de montagem frenético e a intertextualidade (o videoclipe dentro do filme, a reportagem de televisão dentro do filme). A Máquina consegue, de forma simples, fazer uma ponte entre o cinema regional e o universal, como o cinema brasileiro muito tenta mas pouco consegue: o humilde morador de Nordestina (Gustavo Falcão) quer ir para a cidade grande com o único objetivo de trazer o mundo para sua amada (Mariana Ximenes). É através desse desejo louco de conquistar o mundo apenas para ter o seu amor que o filme se equilibra entre o delírio e a paixão, entre o cinema e o mercado. Impressiona também a habilidade do estreante João Falcão de promover mudanças de ritmo e tom ao filme, e ainda de filmar com um vigor de linguagem que nos passa a impressão de que o filme está sempre na corda-bamba, como se o diretor quisesse testar o tempo todo sua própria capacidade de inventar um fabulário que se confundisse com a própria essência do cinema. A história assume-se como um faz-de-contas, já que é narrada por um contador de histórias, que se revela ao final seu próprio protagonista: ficção e realidade, absurdo e realismo, ou seja, cinema e vida. Emocionante (a cena do primeiro beijo entre o casal principal é uma das mais acertadas cenas de amor dos últimos anos do cinema brasileiro) e ousado (como lhe é possível), A Máquina, além de despertar um cineasta promissor, prenuncia que o cinema de produção brasileiro (a Diler) também pode gerar bons frutos se apoiado numa proposta de um cinema moderno e de talento. Que sirva de inspiração para outros cineastas e produtores.


 

Curta o Longa
Especial Festival do Rio 2005 

EL TOPO, de Alejandro Jodorowski
Por Christian Caselli

O Melhor filme do festival já passou. E não volta 

Desde já, "El Topo", do chileno naturalizado mexicano Alejandro Jodorowski,
é um dos melhores filmes do Festival do Rio. Se não é O melhor, com certeza
um dos mais estranhos e experimentais de todos os tempos. O longa é uma
espécie de bang-bang mitológico, onde seres estranhos se encontram num
ambiente semelhante ao faroeste, porém subvertendo todas as regras de tempo
e espaço. Assim, cenas inacreditáveis de alto impacto desfilam na tela, como
a matança dos flagelados, mulheres cinqüentonas pedindo a um negro para
serem estupradas etc.

Bastante desconhecido no Brasil, Jodorowski é um dos autores mais sui
generis surgidos na segunda metade do século XX. Além de seu incomum
trânsito pelo mundo - parecido um pouco com outro grande experimentador, o
cineasta Raul Ruiz - Jodorowski também é escritor (autor de "Quando Teresa
Brigou Com Deus"), roteirista de HQs para Moebius e membro atuante do Grupo
Pânico, juntamente com o espanhol Fernando Arrabal. Sua filmografia não é
muito vasta, mas significativa, com longas como "Fando y Lis" (baseada na
peça de Arrabal), "Santa Sangre", "The Holy Montain", entre outros.
Praticamente um revisor/herdeiro do surrealismo, Jodorowski re-inseriu uma
boa dose de experimentação e inquietação ao cinema. Seus personagens
pertubados/perturbadores sempre ficam no limite entre a crueldade e a
inocência pueril. E seus filmes nunca deixam o espectador impune,
compartilhando com a platéia uma saudável relação sado-masoquista para quem
relaxa e entra na onda. Cinema interativo é isso aí!

Mas infelizmente o filme passou logo no primeiro dia da mostra e eu não pude
revê-lo. Nem na programação do Boca a Boca tinha a sinopse! Tive que puxar
no fundo das minhas lembranças para falar dele, o que foi complicado, já que
se trata de um filme tão rico. Fica aqui a sugestão: que o Festival o
repasse na repescagem.

 

Curta o Longa
Especial Festival do Rio 2005 

O Encouraçado Potemkim, de Sergei  Eisenstein
Por Christian Caselli 

Potemkim é uma porcaria

Certamente você, caro e antenado cinéfilo, não concorda com o título desta
crítica. O que é perfeitamente compreensível, já que nem o autor da mesma
acha isto. Mas se você veio ler isto, até pra saber "quem é esse cara que
acha que Potemkim é uma porcaria", ou "o que ele vai dizer pra provar que ’o
grande clássico de Eisenstein’ é ruim", é bom saber que eu não estou nem um
pouco a fim de achincalhar "este marco inegável da sétima arte". Só quero
defender o direito, de qualquer pessoa que seja, de dizer que Potemkim é uma
porcaria.

É engraçado observar o processo de cristalização de um filme, ou de um
livro, pintura, seja lá o que for, como "obra-prima" e/ou "clássico". Ou
seja, em algo totalmente consagrado, ou melhor, aproveitando o trocadilho,
algo sagrado, inatingível, intocável, dogmático, ou seja, "incriticável". O
mais curioso é que quem eleva uma obra a esta condição são os críticos - ou
seja, não-artistas - de formação burguesa, quase nunca representando o
pensamento ou as intenções do realizador. E geralmente os "marcos" são
revolucionários; mas o próprio fato de ser posto em um pedestal,
embalsamado, mumificado, ou seja, cristalizado, isola totalmente a sua
força. É como disse Buñuel em seu "Último Suspiro": "os surrealistas estavam
mais interessados em incendiar museus do que fazer parte deles".

Com "O Encouraçado Potemkim" posto num patamar de títere, "rivalizando com
’Cidadão Kane’ o lugar de melhor filme de todos os tempos", como escreveu o
O Globo, tudo então se contradiz. Não só pela formação burguesa que e o
consagrou, mais ainda pelo caráter revolucionário (panfletário até) para
alardear a ideologia socialista. Voltando no tempo, é curioso ver como os
modernistas de todo o mundo se preocupavam em dessacralizar a arte
estabelecida. Duchamp pôs bigodes na Monalisa e foi um escândalo. Hoje, o
escândalo é pôr bigodes em Duchamp. E não podemos achar João Gilberto chato
porque o Caetano não deixa. Nem questionar a qualidade de Glauber Rocha
porque os alunos de cinema nos batem. Etc.

Mas, de volta ao Potemkim: cá entre nós: este é um dos melhores filmes que
você viu na sua vida??? E "Cidadão Kane", também é? Pra você, é o melhor
filme do Eisentein é o em questão? Eu prefiro "Outubro". E do Welles, é o
"Kane"? Gosto mais de "Othello" e "O Processo". E o "Sgt. Peppers" é o
melhor disco dos Beatles? O meu é o "Revolver". E assim vai. E convenhamos:
"O Encouraçado Potemkim" envelheceu à beça. Nem tanto por ser mudo e em P/B
(o que na verdade é ponto pra ele), mas por ser maniqueísta - os opressores
e capitalistas de Eisenstein são sempre caricatos - e por pregar por uma
causa que não deu em nada. O filme, na verdade, ficou caquético desde a
posse de Stalin. Com a queda do Muro de Berlim então, nem se fala. Com o
Governo Lula então, putz, morreu. Fim das utopias? Graças a Deus. Chega de
romantismo e do maniqueísmo fácil das dualidades: bem & mal, comunismo &
captalismo, etc & etc.

É claro que "Potemkim" é magnificamente bem construído, que a cena do
carrinho do bebê (embora melodramática) é bem bolada... Mas bem construído
por bem construído, por que não falar mais de "O Homem com uma Câmera", de
Dziga Vertov, o melhor e mais revolucionário filme soviético deste período?
(leia mais na crítica deste filme). Ah, sim e há a importância histórica de
"Potemkim"... Que importância? Por mais que sejam interessantes as idéias de
Eisenstein quanto à montagem dialética, o que imperou posteriormente foi a
narrativa clássica americana. "Infelizmente", pode dizer alguém. Por que
"infelizmente"? O problema não está na narrativa clássica, e sim na
hegemonia desta. Se a montagem eisensteiniana fosse a hegemônica, seria tão
condenável quanto. E, por último, a grande intenção do cineasta não era a
vaidade de criar uma nova linhagem cinematográfica, e sim alardear a
revolução socialista, coisa que, como vimos, não deu certo.

Por fim gostaria de reafirmar que "O Encouraçado Potemkim" é uma porcaria,
mesmo não concordando com isto. É a minha vez de pôr bigodes em Eisenstein,
Glauber Rocha, Duchamp, Orson Welles e em todos que se tornaram, ou melhor,
se transformaram em monstros sagrados. E, por último mesmo, NÃO PERCAM A
SESSÃO DO FILME NO FESTIVAL, com direito a orquestra sinfônica e tudo. Quer
dizer, vá pela orquestra sinfônica. Assim, qualquer filme, até mesmo o
"Potemkim", fica bom.

 

Curta o Longa
Especial Festival do Rio 2005 

MANDERLAY, de  Lars Von Trier
Por Christian Caselli

Melhor do que Dogville

O cara prometeu e cumpriu. Lars Von Trier lançou a segunda parte de sua trilogia americana, "Maderlay", realizado nos mesmos moldes do exemplar anterior, "Dogville". Mais uma vez assistimos a um "teatro filmado" sem que isto seja pejorativo, com cenário propositalmente fake, câmera digital tremida e narração em tom de fábula. Mas agora, Grace (desta vez vivida por Bryce Dallas Howard ao invés de Nicole Kidman), após massacrar Dogville, se indigna com a condição de outra localidade, Manderlay, que ainda mantém a escravatura de negros.

Como em Lars Von Trier nada é gratuito, desde a violência até as boas intenções, começa então uma série de relações complexas e repletas de reviravoltas entre os personagens. Embora a temática do filme seja claramente o racismo - ou, melhor dizendo, a inserção do negro na "América" - nada é direto ou panfletário em suas críticas. Felizmente o diretor não tem escrúpulo para esmiuçar toda a complexidade da situação proposta, indo a fundo em todas as possibilidades. Tá certo que a premissa de seus filmes sempre é a pessimista, mas se o questionamento sempre recorre à problematização de todos os lados, então nada é mais saudável. Desta forma, ninguém é poupado: desde o idealismo de Grace aos capangas, passando pelos brancos e negros da fazenda. Aqui não há espaço para a enganosa figura do herói.

Porém, mas do que o racismo, a questão fundamental em "Manderlay" (ou seja, os EUA) é a imposição de valores a qualquer pessoa, o que fica mais gritante quando muitas destas pessoas vieram para a América raptadas da África. Por mais que a escravatura tenha sido abolida e que haja, verdadeiramente até, uma boa vontade para consertar os males causados, vários problemas ainda persistem, uma vez que não se questiona a própria estruturação da sociedade americana. Ora, quando quer dar liberdade aos ex-escravos, Grace se vê obrigada a recorrer à economia de mercado, que se configura em todas as suas contradições dentro daquele microcosmo. No filme há diversas cenas paradigmáticas quanto a isto, como a questão da sobrevivência das pessoas, a tempestade de poeira, o tesão de Grace e muitas outras seqüências. E se o filme põe em questão a tirania, ele esculacha até a sacrossanta democracia, vendo que o "sólido argumento" do voto do povo não funciona tão bem do jeito que pregam.

Mas é claro que "Manderlay" vai gerar ainda mais controvérsia. Mas a ambigüidade dos personagens, tanto brancos como negros, só deixa o filme ainda mais rico. E o filme segue desta forma corajosa, problematizando tudo na medida certa, sem tem medo de ser chamado de racista - ou mesmo de anti-racista. Dentro desta complexidade, este segundo episódio é ainda melhor do que "Dogville", já que este recorria a um artifício dramático mais fácil: o da escalada crescente da violência. Embora "Manderlay" tenha um epílogo menos impactante do que o anterior, o filme fecha com chave de ouro e ficamos torcendo pra saber que diabos vai acontecer com Grace em sua
próxima furada.

 

Curta o Longa
Especial Festival do Rio 2005 

QUERIDA WENDY, de Thomas Vinterberg 
Por Christian Caselli

À sombra do dogma

Cada Glauber Rocha tem o seu Barretão. Explicando: todo movimento artístico tem o seu mentor intelectual e um ou outro cara que se beneficia pegando a rebarba. Adaptando este pensamento para o Dogma 95, enquanto Lars Von Trier é a figura de proa, o Thomas Vinterberg parece ser o cara que se deu bem. Se sua estréia no movimento foi um sucesso com "Festa de Família", hoje o filme parece um golpe de sorte, já os seus posteriores, "Dogma do Amor" e "Querida Wendy", não foram lá estas coisas. E este último pode ser visto agora no Brasil no Festival do Rio. Eis então uma ótima ocasião para saber quem foi quem no Dogma, já que o roteiro do filme é de... isto mesmo, Lars Von Trier.

Mais uma vez, Lars faz outra fabulinha para descascar contra os EUA. Desta vez o alvo é a idolatria do povo estadunidense em relação às armas de fogo. Para tematizar isto o filme conta a história de Dick (Jamie Bell, o mesmo ator do hiper-estimado "Billy Elliot") que resolve fundar um clube baseado na posse de armas e no pacifismo. Esta idéia surge quando ele se deslumbra com uma pistola antiga, a tal "Wendy" do título.

Tudo nos conformes então para se fazer um grande filme, mas... a coisa fica só na intenção e não funciona. Percebemos então a diferença do talento entre os dois e que Lars não se apóia tanto na narrativa clássica como se pensa. Observando bem, todos os seus filmes têm um conceito bem definido, seja a encenação escancarada de "Dogville" e "Manderlay" (leia a crítica), a desconstrução do musical em "Dançando no Escuro" ou mesmo a utilização do P/B e a cor de "Europa". Roteiro clássico + Conceito acabam sendo a fórmula da força - inegável - de seus filmes.

Do outro lado, porém, Thomas usou apenas a narrativa clássica para "Querida Wendy", transformando um roteiro de grande potencialidade em um feijão-com-arroz aguado. E a mão de Lars para cenas mais barras-pesadas fez falta, visto que pontos de virada mais extremos - como a da coroa que dá um teco de escopeta no policial - não tiveram um décimo do impacto que poderiam
ter. E o pior: deixou as intenções anti-bélicas do argumento escancaradas demais e sem muito aprofundamento. Uma pena. Mas vamos ver se na próxima o Thomas acerta, porque talento já demonstrou ter em outras ocasiões.

 

Curta o Longa
Especial Festival do Rio 2005 


Batalha no Céu, de Carlos Reygadas
Por Marcelo Ikeda 

Em busca de um sentido do belo

Após a repercussão de sua obra-prima de estréia, Japón, o segundo longa metragem do mexicano Carlos Reygadas é um trabalho em continuação com os principais temas de seu primeiro filme. A principal diferença é que enquanto Japón trabalha no universo de um pequeno vilarejo do interior, Batalha no Céu se passa na metrópole urbana. Mas o cinema de Reygadas usa o espaço como possibilidade de aprisionamento e ao mesmo tempo de imersão para seus personagens. O grande tema do cinema de Reygadas parece ser o questionamento de uma noção de beleza. O belo e o grotesco cruzam o cinema de Reygadas, mas ainda assim o diretor, de forma ambígua, busca apreender um certo sentido espiritual que escapa a seus personagens. Com isso, o diretor acaba povoando a tela de símbolos que nos remetem às origens étnicas do povo mexicano, com fortes ressonâncias míticas, poéticas e religiosas. Seu cinema, no entanto, escapa aos padrões de um “cinema de poesia”: é um cinema cru, duro, austero, muitas vezes provocativo, de difícil digestão, mas antes de tudo, trata-se de uma experiência, que o espectador leva consigo ao final da projeção. Sua missão é promover uma espécie de ascese, mas sempre pontuando os obstáculos, os sacrifícios e a asfixiante tarefa de viver. A contrapartida moral dos personagens de Reygadas, em busca da morte ou torturados por um grande complexo de culpa, é pontuada por um lado por um cinema suntuoso, em termos dos elementos de linguagem, com uma valorização do tempo e um trabalho de câmera que valoriza as gruas e os carrinhos; por outro, por um cinema cru, sujo, instintivo. Nesse equilíbrio precário, entre o belo e o grotesco, Reygadas faz um filme desesperado, uma jornada trágica e profundamente espiritual. Se Reygadas em Batalha no Céu mostra um caminho de continuidade em relação a Japón, por outro lado também mostra alguns sinais de desgaste dessa estilística. As principais virtudes e os principais defeitos de Japón também se encontram nesse trabalho, de modo que, ao seu final, Batalha no Céu confirma o talento de Reygadas mas por outro lado avança pouco em relação ao que já foi apresentado em seu filme anterior. Como segundo filme convence, especialmente por ter uma atmosfera e um clima extremamente particulares, pelo aspecto sombrio e perturbador da obra, mas deixa o espectador esperando pelo terceiro filme para confirmar se Reygadas ainda tem o que dizer ou se sua obra caminha para uma diluição típica da “síndrome do primeiro filme”.

 

Curta o Longa
Especial Festival do Rio 2005 

Sex and philosophy, de Mohsen Makhmalbaf 
Por Marcelo Ikeda

Cinema de Poesia

O fato lamentável foi ter que assistir a esse filme na sala lotada do São Luiz. O público do São Luiz não merece ver cinema, até parece que eles entraram na sala errada, já que na sala ao lado do filme iraniano do Makhmalbaf estava passando O Virgem de 40 anos. As pessoas riram durante o filme em cenas de dança e caçoaram das tradições típicas iranianas, que eles acharam “muito esquisitas e engraçadas”. Fora os cochichos, as gracinhas, enfim...

Mas vamos ao filme. Sex and philosophy é um filme atípico de Makhmalbaf porque foge tanto dos estereótipos da vertente “neo-realista” do cinema iraniano quanto da vertente “auto-reflexiva” cujo próprio diretor é um dos expoentes (Um Instante de Inocência, Salve o Cinema). Um filme muito simples, é uma tentativa de realizar um cinema de poesia (o protagonista, que narra a história, é um poeta), ingênuo, romântico, e que traz para a linguagem a tentativa de construção de um cinema que traduza um frescor, um desejo para a vida. Os primeiros quinze minutos são antológicos: um motorista de táxi convida quatro mulheres para chegarem no mesmo horário na escola de dança. Esse chamamento assume um tom exótico e místico que nos associa aos trabalhos de Paradjanov: a questão do olhar, a chave dentro da árvore, a voz off, as cores da cenografia, tudo compõe um cinema de linguagem altamente inventivo. Ao longo do filme, no entanto, quando seu entrecho se estabelece, Sex and Philosophy cai em algumas soluções óbvias, ou com efeitos que acabam não se realizando, o que faz o filme perder sua força, tornando-se na verdade um trabalho bastante irregular, mas que seduz em sua tentativa de promover um cinema dos sentidos e de escapar do cinema de sempre iraniano. Alguns belos planos e seqüências acabam ficando em nossa mente; outros momentos se tornam quase risíveis. Mas Makhmalbaff não tem medo de errar, e em sua sinceridade, em sua honestidade, e no seu desejo romântico de que a vida seja um tórrido e (por definição) incompleto caso de amor, Sex and Philosophy comprova uma espécie de entremeio na filmografia do diretor, bastante salutar. Por fim, a se destacar, a ousadia do tema do sexo e do corpo e do papel feminino na rígida sociedade iraniana.

 

Curta o Longa
Especial Festival do Rio 2005 

O Perfume do Incenso, de Keisuke Kinoshita 
Por Marcelo Ikeda

Kinoshita, artesão

A mostra da produtora japonesa Shochiku dá uma rara oportunidade ao cinéfilo carioca conferir o trabalho de um diretor japonês pouco conhecido: Keisuke Kinoshita. Kinoshita trabalhou dentro dos limites do cinema clássico japonês. Isto é, seu trabalho foi duramente combatido pela nouvelle vague japonesa, especialmente por Nagisa Oshima, pelo suposto academicismo de seus filmes. No entanto, hoje os dramas femininos de Kinoshita têm um amplo reconhecimento internacional, apenas um degrau abaixo de Ozu, Mizoguchi e Kurosawa.

O cinema de Kinoshita é repleto dos signos do cinema clássico: o domínio da mise-en-scene, a transparência da narrativa e dos sentimentos morais dos personagens, as convenções de um cinema de gênero. O obediente Kinoshita, que conseguiu realizar seu grande sonho de realizar um filme (escapando de seu ofício de assistente de fotografia), está dedicado a seguir a grande tradição das artes japonesas, dedicando-se fielmente a aperfeiçoar as ferramentas expressivas de seu ofício: é um simples artesão devoto às tradições do cinema japonês. No entanto, esse típico oriental desfolha, um a uma, os elementos de cinema com grande maturidade e sabedoria: sem pressa, delicadamente, como lhe parece ser possível.

Em O Perfume do Incenso, durante suas mais de três horas de projeção, o espectador é projetado para uma atmosfera de um romance quase épico, em que várias gerações, épocas de um Japão histórico e famílias se cruzam para contar a história de um mulher solitária condenada por seu destino. Sua luta pela dignidade é a luta de um Japão, e parece representar o cinema devoto de Kinoshita. Fiel a seus princípios, o cinema de Kinoshita abençoa os passos dessa mulher com uma intimidade e um frio distanciamento tipicamente oriental. Mas o que mais nos emociona em O Perfume do Incenso é a descrição da vida que um mulher proibida de amar pelo destino. Ou melhor, mostra a luta de uma mulher pela possibilidade de preservar sua dignidade moral, ainda que a vida a impeça de amar. De um lado, sua egoísta mãe; de outro, seu amante distante, pelas obrigações da sociedade e da profissão. O destino é a solidão. Filmado com grande elegância formal, com planos com grande profundidade de foco e notável domínio do enquadramento em cinemascope, ainda que entremeado de alguns movimentos de zoom que hoje parecem datados, O Perfume do Incenso é um melodrama feminino delicado e ligeiramente frio, conservador, resignado ante as convenções da sociedade e do destino, cujo grande projeto é a manutenção da tradição da família japonesa. Ainda assim, seu clima de melancolia, sua elegância formal, a harmonia e o equilíbrio da mise-en-scene de Kinoshita resgata a força interior e o interesse por esse ainda pouco visto realizador japonês.


 

Curta o Longa
Especial Festival do Rio 2005 

A última transa do presidente, de Im Sang-Soo 
Por Marcelo Ikeda

Um pastelão político

Exibido na Quinzena dos Realizadores em Cannes 2005, este filme se baseia no assassinato do presidente da Coréia do Sul para fazer quase que um pastelão, uma falsa crônica de costumes que denuncia a futilidade das elites e das autoridades sul-coreanas. Por isso, espanta a ousadia do tratamento, e o tom dado pelo diretor Sang-Soo: o da comédia de equívocos. Com um pitada forte de humor negro, A Última Transa do Presidente nitidamente falseia o documental: o filme torna-se mais uma paródia dos acontecimentos do que propriamente um olhar sobre o ocorrido. No entanto, o filme perde a sua força por adotar a estrutura de um thriller americano, tornando seu argumento muito mais instigante do que a realização em si, repleta de clichês e sem muita inspiração. Com isso, acaba se tornando óbvio e redundante no seu terço final. Os personagens acabam virando estereótipos sem um perfil individual próprio, reduzindo o interesse em torno dessas personalidades e das pessoas em seu “entorno”. Por isso, se não soubéssemos de que se trata de uma paródia de um caso real, A última transa do presidente seria uma espécie de telefilme de ação, um pouco melhor realizado. O que comprova por si só que o desejo de cinema passam por longe do cinema de Sang-Soo, que nesse caso se ancorou apenas no escândalo e se esqeuceu do cinema.


Curta o Curta na Rede, é legal!

 

Curta o Longa
Especial Festival do Rio 2005 

Election, de Johnnie To 
Por Marcelo Ikeda

Um filme de samurai contemporâneo

Elecion, de Johnnie To, é um filme comercial de Hong Kong que mostra a máfia dos traficantes de droga e seus códigos de conduta. Falando assim, o leitor pode pensar de que se trata de um telefilme daqueles que passam na Band no domingo à noite. Não deixa de ser, mas por outro lado é extremamente cinematográfico e muito bem realizado. Além de todo o talento de Johnnie To na parte da artesania do filme, com soluções econômicas mas bastante precisas (o filme tem carrinho e gruas quando precisa ter, tem câmera parada quando precisa ter, etc, etc), Election vai bem além disso, apesar das intenções do filme serem modestas. Isso porque é como se, no fundo, o objetivo do artesão To fosse traduzir as tradições dos antigos “filmes de samurai” para o tempo contemporâneo. Os gangsters de Election vivem uma guerra de samurais: tudo o que vale para eles é a manutenção dos seus códigos de conduta e de sua dignidade pessoal. Os dois membros da máfia que lutam para obter o bastão que representa a liderança do grupo (a luta feroz pelo tão simples bastão lembra a referência da “ilusão do poder” de Relíquia Macabra) têm estilos extremamente opostos: um representa a racionalidade, a harmonia e o equilíbrio (yin), o outro, o instinto, a explosão de energia, a violência dominadora (o yang). Johnnie To retrata esse conflito com uma postura fria, mas extremamente sábia e observadora, valorizando em muito o trabalho dos atores e a individualidade (os conflitos psicológicos) de cada um. Com isso, o que é raro, cria um filme de ação em que os personagens ganham vida. Mas o estilo de To é descritivo, sóbrio, é o da invisibilidade da autoria típica do cinema clássico de gênero. Razão ou instinto, tradição ou modernidade, dignidade moral do grupo ou desejo de ascensão pessoal, conflito de temas típicos do cinema oriental, são trabalhados por To com momentos de verdadeira ambigüidade e complexidade. Tudo isso por trás de um cinema de profunda transparência. Ao mesmo tempo, uma ingenuidade, uma devoção e um profundo carinho com que To abençoa as deficiências, as teimosias de seus personagens e especialmente como a direção respeita as suas limitações. Ainda mais: ao final, o que poderia ser um conto moral sobre a necessidade de união e a possibilidade da harmonia e do equilíbrio de forças acaba tendo uma conclusão austera, que problematiza de forma dolorosa toda a sua construção, evitando a “moral da história”. Um final doloroso, amargo mas necessário que revela que o artesão To, por trás de seu cinema simples e cheio de convenções, faz pulsar um profundo desejo, sombrio e urgente, pela natureza do ser humano. Um trabalho para ser visto e apreciado com mais atenção.

 

Curta o Longa
Especial Festival do Rio 2005 

"The Last Days", de Gus Van Sant
Por Christian Caselli

Elefante Piorado

Desde que ganhou a Palma de Ouro em Cannes com “Elefante”, Gus van Sant deu um salto qualitativo em sua carreira. Após o flerte com o estabilishment com obras menores como “Gênio Indomável” e “Psicose”, a autoria dos primórdios da carreira foi resgatada, graças à apropriação que fez à triste história do massacre em Columbine. Então “Last Days” tinha tudo para dar certo. Desta vez se apoiando nos últimos dias de Kurt Cobain, o filme tenta repetir a fórmula do filme anterior: jovens desajustados, narrativa fragmentada, apropriação de um fato verídico, etc. Mas ficou longe da mesma qualidade. Se em “Elefante” a narrativa fragmentada funcionava para passar o ponto de vista de quem testemunhou o massacre, em “Last Days” ela parece muito mais gratuita e mal embasada.

Como o nome diz, tudo acontece nos “Últimos Dias” de um certo roqueiro, Blake, que é idêntico a Kurt Cobain (o vocalista suicida do Nirvana) em uma mansão totalmente desarrumada e caindo aos pedaços. Ele passa o filme inteiro nitidamente drogado e às vezes vestido de mulher (como fazia Kurt). Neste local também passeiam, de vez em quando, algumas outras figuras perdidas, jovens que provavelmente são os outros membros da banda.

Mas o grande problema é a má apropriação da morte de Kurt Cobain como ponto de partida. Não está se cobrando aqui a reprodução fidedigna sobre o que ocorreu de fato, mas tanto o protagonista, quanto seus amiguinhos, acabam não tendo muito a dizer. A semelhança com Kurt acaba na aparência de Blake, pois as circunstâncias de sua morte foram tão diferentes que acabam deixando os outros personagens incoerentes. Se não houve nem ao menos uma tentativa de “entender” o que se passou com Cobain, então pra que simular aquele ambiente?

Explicando melhor: o espectador fica na quase eterna confusão se perguntando: “Foi assim que aconteceu com o cara???”. Depois de um tempo ele percebe que o cara não é “O” cara. Daí a coisa piora: se fosse Kurt Cobain, muitos teriam o background de conhecer informações prévias sobre ele, ajudando a construir o personagem. Como não é isso que acontece e como o personagem é totalmente vazio de informação, só nos resta ver um doidão qualquer caminhando para a morte. E que seus amigos “não estão nem aí”.

Esta má apropriação se torna tão problemática, que houve até a necessidade do diretor em escrever ao fim: “Este filme foi levemente inspirado nos últimos dias de Kurt Cobain, mas todos os personagens são fictícios”. Ora, ponto para “Elefante”, que não precisou se explicar. Mas o pior mesmo vai para a cena em que dois dos amigos de Blake


Comente aqui...


Você precisa digitar algo na caixa de texto.
Não foi possível enviar seu comentário.
Informe um e-mail válido.
Você precisa informar um nome.
Você precisa digitar algo na caixa de texto.

Jornal do Curta


[confira outras notícias]