Curta o Longa -

Curta o Longa - "Ninguém pode saber"

Por Guilherme Whitaker em 11/05/2005 16:53


Ninguém pode saber, de Hirokazu Kore-Eda
Por Marcelo Ikeda 


Um Cinema da Afetividade Possível

O japonês Hirokazu Kore-Eda ainda é pouco conhecido no Brasil, apesar de seus dois últimos filmes terem sido lançados comercialmente: Maborosi e Depois da Vida. Em Ninguém Pode Saber, bem recebido no último Festival de Cannes, Kore-Eda retorna com um tema sobre a perda, contando a história de quatro irmãos, especialmente o mais velho, com apenas 12 anos, que vivem semi-trancafiados num apartamento, esperando o retorno de uma mãe quase sempre ausente. Kore-Eda realiza um trabalho de grande simplicidade, que poderia apenas ser realizado por um oriental: todo seu projeto é uma observação aguda e minuciosa da rotina dos irmãos, com uma grande intimidade e habilidade em lidar com a expressão espontânea das crianças.

* * *

Entre os rastros de um Japão contemporâneo, como num filme de Ozu, as pessoas se multiplicam pelas vielas estreitas. À noite, as fachadas reluzem de neon. Despercebidas, lá dentro de um simples apartamento na periferia de Tóquio, uma família, um conjunto de crianças que sobrevivem diante de uma invisibilidade. Não podem ser descobertas, dados os signos implícitos da sociedade moderna: precisam, para sobreviver, manter-se a parte, marginais, silenciosas. Só podem existir para si mesmas se desaparecerem para os outros. Ao longo desse desaparecimento, as crianças crescem, as estações do ano passam, e pacientemente, como a típica tradição oriental, desabrocha um cinema da afetividade. Presas a seus apartamentos, as crianças de Ninguém Pode Saber vivem a experiência do conforto, do conhecimento, da solidão, da subsistência. Aguardam a mãe ausente, que vez ou outra reaparece, mas que se mantém como um signo da ausência, da impossibilidade da presença de Deus. A proximidade da mãe restabelece o equilíbrio íntimo da família, para que no dia seguinte sua próxima viagem faça tudo se romper. A mãe busca, numa cidade outra, um futuro melhor para si mesma, quiçá para suas crianças. Elas precisam, nesse intervalo que cada vez mais se prolonga, “fazer a sua parte”, precisam existir.

Esse exercício de existência torna Ninguém Pode Saber uma experiência angustiante, porque dialoga com a miséria da condição humana. Maltrapilhas, em farrapos, as crianças resolvem sair, e percebem que sua invisibilidade tornou-se um dado quase irreversível. A sociedade fez questão de ignorá-las, pois cada um tem os seus próprios problemas, e assim vai o rumo das coisas. Sozinhas, essas crianças têm a si próprias, o que confere ao filme uma força muito rara. Sobrevivem como seres estóicos, com uma resignação e persistência que a transformam em pequenos guerreiros de sua própria subsistência.

Dentro de seu casulo interior, Ninguém Pode Saber desenvolve um cinema da afetividade. As pequenas ações do cotidiano, os mínimos olhares, os meios-gestos, os tempos de espera, a rotina do despertar e do dormir, as refeições improvisadas, os objetos comuns que subitamente ganham um significado (um esmalte, um piano de plástico, uma caixa de chocolates), tudo é retratado como uma resignificação da possibilidade de afeto ante a circunstâncias tão desfavoráveis. Diante da miserabilidade da condição humana, da ausência de Deus, da solidão como intrínseca ao mundo contemporâneo, as crianças de Ninguém Pode Saber sobrevivem com dificuldade, mas entre os rastros de sua casa abandonada, entre as penumbras de sua invisibilidade, permanecem sonhando com a possibilidade de terem a si mesmas, único fato que ninguém ou nenhuma circunstância pode tirar delas. 

Marcelo Ikeda

 

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