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Curta o Longa - O Aviador

Por Guilherme Whitaker em 17/04/2005 10:00


O AVIADOR, de Martin Scorsese
Crítica de Marcelo Ikeda


Orson Welles, quando chegou nos estúdios da RKO para rodar seu primeiro longa, supostamente teria dito: “Esse é o melhor parque de diversões que uma criança poderia ter!”. Essa frase poderia ser perfeitamente encaixada em O Aviador, de Martin Scorsese. O cinema é visto como uma aventura em seu aspecto mais lúdico e mais mesquinho. O próprio título faz referência ao cinema como “a arte do sonho”, e apenas reflete o desejo de seu protagonista de “estar nas nuvens”, de superar os limites, de “estar acima da estratosfera, para que se fuja das turbulências”. Mas a referência a Orson Welles vai mais além: no fundo O Aviador faz uma re(f)verência carinhosa a Cidadão Kane, ou seja, a um pilar de um cinema americano. O final, quando Hughes se lembra dos conselhos de sua mãe ao olhar para um espelho, é puro Rosebud, puro Cidadão Kane. E outras referências podem ser feitas, como o final de Safe, do Todd Haynes, e Prenda-me Se For Capaz, a bela obra de Spielberg com o mesmo di Caprio fazendo o papel de um menino que não conseguiu crescer.



Assim como o filme de Welles, O Aviador também fala sobre a ilusão de poder. Mas ao contrário da crítica ferina ao “american way of life”, Scorsese faz um retrato mais carinhoso e simpático de seu protagonista, reduzindo o impacto crítico de seu filme. Ele é sempre visto como um ingênuo excêntrico, grande empreendedor, sonhador, visionário. Mas íntegro e leal, sempre. Às vezes inclusive cai na caricatura, e seu filme acaba virando um arremedo de cinema, limitando-se a descrever cenas e episódios da vida do controverso empresário. Mas na média se equilibra, pela força da direção, ainda que sua visão de cinema muitas vezes soe tímida ou acomodada. Ou seja, apesar da grande opulência da produção, O Aviador é um filme menor na carreira de Scorsese mas que não deixa de ter seus pequenos atrativos.

 

 O curioso, continuando com Cidadão Kane na cabeça, é que o mundo engendrado por seu personagem é o mundo do cinema. Ou seja, di Caprio em alguma medida é uma espécie de alter-ego do próprio Scorsese numa dimensão menor. Daí o tom metalingüístico do filme. Ora, enquanto Hughes precisa de 40 aviões e dezenas de figurantes para fazer a sua cena, também Scorsese está mostrando os 40 aviões e mostrando as dezenas de figurantes. Desse paradoxo, entre a iminência da loucura e o prazer de filmar é que se equilibra o filme de Scorsese. Entre uma visão crítica das excentricidades de Hughes e um abraço carinhoso e compreensivo em suas necessidades, Scorsese tende mais para o último. Por isso, ao final, O Aviador soa como um elogio ao cinema americano e à capacidade da nação americana de se reconstruir e de se reavaliar, de “dar chances a quem persevera”. Mas por outro lado ficam as cicatrizes de todo o processo: as queimaduras da pele, as neuroses, os amores frustrados. É curioso como tbem Hughes têm tantos “abismos de dois metros”, pequenas coisas que para ele são intransponíveis. Girar uma maçaneta para ele parece mais difícil que pilotar um avião a 500 km/h. Essa certa humanidade, essa certa tolerância pelas limitações naturais de cada um, acabam por dar um toque mais humano a O Aviador, quando o filme, claro, consegue escapar de algumas das armadilhas da caricatura e do pitoresco, em que às vezes acaba esbarrando.



O filme começa e termina num banheiro, numa espécie de circularidade. Os conselhos da mãe atormentam o filho ao longo de todo o filme. “Você não está a salvo”. A tentativa de Hughes de se “livrar da sujeira” é explorada das mais diversas formas por Scorsese. O último plano, um plano fechado em di Caprio repetindo “a visão do futuro” inúmeras vezes, acaba sendo uma conclusão muito austera e pessoal para o filme. Solução que resgata o impacto do final de Safe (do Todd Haynes) ou até mesmo me lembrando de algumas das motivações do final do meu modesto Auto-Retrato. Ao final da empreitada, de conseguir vencer “o governo americano, que vencera Alemanha e Japão” (na frase do Senador), Hughes é apenas um garoto, sequelado, solitário, necrofílico. Ao mesmo tempo, muita coisa ainda por fazer, desafios ainda maiores. “É disso que são feitos os sonhos”, como no final de Relíquia Macabra. Que sonhos são esses, quem é esse menino? – são alguns dos temas que a muito humana conclusão de Scorsese nos desperta. 

Por Marcelo Ikeda


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