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Curta o Longa - Sin City - Por Christian Caselli

Por Guilherme Whitaker em 02/08/2005 09:49


O noir atualizado de "Sin City" , de Robert Rodriguez e Frank Miller 

É lugar comum dizer que os filmes pioraram nos últimos tempos. Aliás, sempre se
diz, como nos desenhos animados, "não se faz mais ’tal tal coisa’ como
antigamente...". Outro chavão dos mais chavões. Esta impressão se deve,
provavelmente, à nostalgia de se estar construindo uma linguagem
cinematográfica e o heroísmo que isto embutia; algo como achar uma gracinha num
bebê dizendo "simulaclo" ao invés de "simulacro". Hoje, com mais de 100 anos,
ninguém mais mima o velho cinema de guerra. 


Divulgação

Porém, ao ver "Sin City", uma hiper-atualização do film noir, uma centelha surge
na cabeça: por que este filme é menos clássico - portanto, "pior" - do que os
outros? Qual o critério para se eleger uma "obra-prima" na história do cinema?
Eu já havia pensado nisto ao ver o primeiro "Matrix", filme absurdamente bom,
mas que por ter um invólucro mais "pop" ou por não ser iraquiano, talvez, não
foi devidamente agraciado nas rodas intelectuais e não serviu como guindaste
para levantar narizes empinados (pensando bem, que bom; mais um ponto pro
"Matrix"). E lembrei também que o "2001" do Kubrick foi um fracasso de crítica
no seu lançamento, mas que foi um sucesso de público, num raro episódio de
inversão de valores.

Na verdade, esta reflexão não foi pra eleger "Sin City" como obra-prima,
conceito falho como tantos outros e que só interessa aos rotuladores de
plantão. Mas "Sin City" é a prova cabal de que, hoje, qualquer coisa é
realizável no cinema. Diferente dos já eficientes efeitos especiais do primeiro
(ou quarto?) "Star Wars" de 1977, a concepção visual de "Sin City" vai por outro
caminho. Aqui não importa mostrar com realismo algo que não se vê, como uma nave
espacial. O que se tem é todo um conceito visual pensado em prol de um estilo -
e, de quebra, realizado com uma eficácia nunca antes vista. Tá certo que antes
teve o "Waking Life" e o "Capitão Sky", mas "Sin City" conseguiu melhor unir o
visual trabalhado em prol do roteiro, e vice-e-versa.

E qual a informação visual de "Sin City"? Obviamente a primeira referência foi o
quadrinho homônomo de Frank Miller, ao qual o filme foi adaptado e que o próprio
desenhista foi o co-diretor. Miller, iconoclasta dos quadrinhos americanos que
revolucionou o gênero na década de 80 com o "Cavaleiro das Trevas", fez de "Sin
City" uma graphic novel ambientada numa fictícia cidade cheia de contrastes,
seja no preto e no branco do visual (com uma cor ou outra, é verdade) como no
clima de submundo em que pairam seus personagens. E o filme conseguiu transpor
este visual de uma forma inacreditavelmente fiel à HQ original, conseguindo no
boca-a-boca o posto de "melhor adaptação de quadrinhos de todos os tempos".
Merecido. 


Divulgação

Embora tudo seja seco, as histórias são típicas alegorias americanas, exageradas
com seus "tiras" e tiros, assassinos, decapitações e mulheres peitudas. Na
verdade, é aqui que entra o outro elemento visual forte de "Sin City": o film
noir, gênero que captou ao máximo a mitologia da podridão na "América". Porém
há uma hiper-atualização de seus padrões, já que a violência noir dos anos 40
não faria nem uma cosquinha na consciência de uma moçoila virgem do interior de
Piracicaba. E a modificação não fica só na modificada estética P/B, como nos
tormentos e contradições de seus personagens, elevados a sua última potência.
Mesmo as fatídicas vozes em off estão alteradas para ficarem mais soturnas.

E, sim, "Sin City" tem muita violência, o que pode trazer questionamentos
variados. Mas vale lembrar aos puristas que o cinema americano foi sempre, de
uma forma ou de outra, marcado pela violência. A linguagem narrativa clássica
nasceu defendendo a Ku Klux Klan, vide "O Nascimento de uma Nação", de 1915.
Sem falar nos faorestes homicidas estrelados por John Wayne. E se o noir era
violento em sua época, um noir atual tem de ser ainda mais brutal, já que
vivemos em tempos menos róseos. Não que o argumento de sempre ter havido
violência no cinema americano justifique que um filme possa ser desta forma,
mas criticar "Sin City" tendo como parâmetro filmes hollywoodianos anteriores é
ridículo. Ele é apenas uma "evolução" (na verdade uma conseqüência) coerente do
que foi considerado como o melhor da produção americana. Se não gostou, agora
agüenta.

O grande problema da violência em qualquer arte é quando há uma apologia ao ato
violento. Afinal, ninguém pode esconder o que acontece no mundo, mesmo as
piores coisas. Porém, felizmente, a violência de "Sin City" é tão estilizada,
que às vezes se torna risível. É como o personagem vivido por Mickey Rourke,
aliás, o melhor ator do filme, que não morre quase nunca. Inclusive, o assumido
não-realismo do filme é um de seus pontos fortes, tendo pouca condescendência
com o público médio, que sempre pede coerências em diversos pontos (mas que
deixa passar tantas outras coisas). E há também uma violência gráfica e
estilizada, com pessoas jorrando sangue branco, um homicida amarelo (não, ele
não é asiático; é amarelo mesmo) que jorra sangue da mesma cor, cabeças
decepadas falantes etc. Claro, há um misto de beleza e estranheza nestas cenas,
mas não apologia. E, por último, seus "heróis", embora carismáticos, são tão
desencontrados e trágicos que não conseguem estimular o espectador a imitá-los.
O que se pode dizer é que o filme não tem um pensamento crítico em relação a
suas chacinas, e que, de certa forma, banaliza a violência, tornando-a "pop".
Pode ser. Ou não, pois ela é mais agressiva (na verdade, caricata) do que o
normal. É o que cada cabeça irá decidir.

E o que mais dizer sobre "Sin City"? O tempo dirá se ele vai entrar no Sagrado
Hall das Obras-Primas ou não. Mas que é um marco estético, é. A partir de
agora, tudo é permitido. Se você tiver os devidos recursos ($) é claro. Mas,
diminuindo um pouco o veneno, houve aqui também uma boa dose de ousadia,
principalmente em termos de Hollywood. Que venha o "2", que já estão
produzindo.. 

 
Por Christian Caselli 


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