Curta, patinho feio virando herói ::  | Curta o Curta

Curta, patinho feio virando herói

Por Guilherme Whitaker em 19/12/2007 18:01


Você pode até duvidar de tudo que vê, difícil é duvidar que esteja vendo

Este ano, durante o Festival Internacional de Curtas de São Paulo ouvi de um diretor de longa-metragem a seguinte frase: - “só se fala em curta, todo mundo só pensa em curta, tem edital pra tudo o que é tipo de curta, quem faz longa tá cada vez mais ferrado”. Na hora rimos e etc., agora prossigo no pensamento sobre uma interessante constatação: a de que hoje e cada vez mais (quem sabe?) o curta-metragem no Brasil vem ganhando mais espaços e tudo quisso pode e deve trazer de positivo para quem faz filmes curtos e para quem deseja exibi-los, cultural eou comercialmente.

Curtas e longas
O curta é, desde a invenção do cinema, a mais adequada duração para se experimentar audiovisualmente o mundo, por isso ele será aqui tratado como origem de enredos e movimentos universalmente originais. Seja no comunicar ou no alterar o haver pela linguagem/arte audiovisual tornada cada vez mais popular, com todo posinegativismo que o ser ´popular` carrega de nascença. Idealmente é o dia em que cada vez mais pessoas terão menos tempo pra “gastar” com conteúdos banais, quando mais gente terá acesso gratuito à internet de alta velocidade (a rede pra mim sempre foi vista e usada como uma “tv digital”, só que praticamente sem custo final e com muito mais canais, estes milhões de sites sobre tudo). Imagino que os curtas serão naturalmente mais atraentes à população em geral e aos poucos vão estar mais presentes no cotidiano de mais pessoas, sendo dai mais populares do que filmes de maior duração, muitas vezes supérfluos à cultura, ineficazes ao mercado. Longas nunca ´morrerão`, apenas perderão cada vez mais espaço para filmes mais adaptáveis aos novos mundos, estes que desde o chip tem modificado tudo ao redor também através da aplicação da tecnologia às ciências das comunicações, das mídias e da informação. Curtas chegam mais facilmente ao público não apenas de guetos e patotas, o YouTube, com seus milhões de vídeos postados e vistos por dia ao redor da terra, que o diga.

Sem comparação
Não se deveria comparar esforços físicos e cargas simbólicas tão distintas que carregam obras de durações tão diferentes, é como comparar o poder/valor de uma música com a de todo um CD, sendo que assim como no cinema, por vezes uma música pode ‘valer’ por vários cds, um curta pode ´valer’ por vários longas, depende de tudo! Então, mesmo talvez não devendo, se pode comparar, já que sempre haverá espaço para todos os tipos e gostos neste potente mercado cultural brasileiro. Uma vantagem dos longas é que a cultura de assisti-los com alguma regularidade vem de várias décadas, enquanto o incentivo e mesmo as chances de curtir os curtas é inexistente ou recente para a maioria das pessoas. Refiro-me ao público em geral, a saber: os milhões de brasileiros que não fazem filmes mas gostam de vê-los, os praticantes do audiovisual como espectadores, sem os quais quase nada haveria. Já uma vantagem dos curtas é sua fácil adaptação à digitalização do mundo, sendo poética e potencialmente atraente a diversos segmentos da vida social, científica, cultural e qualquer nome que se invente, o curta pode estar presente em todos os lugares, seja fazendo filmes, seja vendo-os. Agora o desafio é avançar tais movimentos para que o curta seja, em alguns anos,  também um meio de vida e não apenas um hobbie. Se não pra todos, claro, ao menos para os interessados em viver profissionalmente do audiovisual no Brasil.

Longo e promissor futuro para os curtas!
Quem sabe esta imensa economia também cultural ligada ao curta não será tão relevante e economicamente ativa e instigante quanto à economia focada nos longas? Além desta questão do curta ser mais atraente para as novas plataformas móveis, onde já está o futuro, no Brasil são feitos cerca de 700 curtas por ano e cerca de 60 longas (muitos não lançados, apenas exibidos em festivais, isso quando são selecionados...). Oxalá uma noite neste país seja possível se realizar cinema/vídeo, de qualquer duração, um AUDIOVISUAL, com alguma chance de ver este investimento independente (de tempo e tutu) retornar com sobras que animem seus realizadores a fazer mais filmes. Aí sim, teremos uma indústria se movimentando de fato com as próprias pernas, se autogerando, ditando certos rumos nas mídias e não sendo por elas guiados ao prazer de modas e moedas norte-americanas. Nossa indústria audiovisual, hoje mais cultural que comercial, precisa se desenvolver mais rapidamente e com focos também no longo prazo, para ser um manancial de empregos e recursos em atividades co-ligadas às milhares de pequenas e micro-empresas, centenas de canais de tv/iptv/celular/etc., de cinemas, sites e cineclubes dispostos a levar ao público a produção de filmes curtos e longos independentes e não apenas de novelas, seriados e comerciais premiados. Uma tarde as igrejas voltarão a ser cinemas, não como os cinemas de ontem, que ainda vendem filmes e pipocas, mas centros audiovisuais de pensamento e entretenimento multimídia.

Guilherme Whitaker, 38, é diretor de curtas e cineclubista, criador do site Curta o Curta e da Mostra da Filme Livre. Vice-presidente da ABD, Associação Brasileira de Documentaristas.

Comente aqui...


Você precisa digitar algo na caixa de texto.
Não foi possível enviar seu comentário.
Informe um e-mail válido.
Você precisa informar um nome.
Você precisa digitar algo na caixa de texto.

Jornal do Curta

[confira outras notícias]