Curtacritica:

Curtacritica: "Os sapatos de Aristeu" e "Superbarroco"

Por Guilherme Whitaker em 03/05/2009 17:59


OS SAPATOS DE ARISTEU

Realizado na faculdade FAAP, de SP, “Os Sapatos de Aristeu” é uma pequena obra prima tratando de dois temas hiper-espinhosos: morte e travestismo. Porém Luiz René consegue equalizar estas duas pontas de uma maneira extremamente sóbria, tanto estética quanto dramaticamente. Resumindo, o Aristeu do título é o nome de nascença para o travesti que aparece morto logo no início, sendo maquiada e vestida para o seu funeral pelas colegas de trabalho. Para diminuir o glamour das travestis em um tom respeitoso e longe do caricato, optou-se pela fotografia em preto e branco, que dá não só um tom funério quanto distanciado.

Mas a coisa complica quanto o corpo é entregue para a família. Daí este é o estopim de uma série de confrontos interpessoais que são revelados em uma catarse hermética, digamos assim, em explosões de recalques e não aceitação da subjetividade alheia. Como é de se esperar, a mãe e a irmã nunca aceitaram a decisão de Aristeu de ser uma “quase mulher”, e isto fica claro naquele momento tão drástico, em que um intruso volta ao lar muito mais do que um filho pródigo. Para exemplificar melhor o conflito, vem a decisão da mãe em arrancar toda a roupa drag do travesti para vesti-lo com um sóbrio e masculino terno e gravata. “Ele será enterrado como Aristeu”, decreta a matriarca, impedindo também a entrada dos outros gays. Ela chega até a cortar o cabelo longo do filho para lhe dar um ar mais de homem. Nisto, após a irmã gritar para o próprio morto sobre o quanto ela odiava seu caráter outsider, a mãe lhe confessa o quanto seu filho foi ético, prometendo que nunca mais iria voltar a sua casa (observação importante: é muito curioso notar o caráter andrógeno das duas excelentes atrizes). É logo depois disto é permitida a entrada dos outros travestis, que lhe entregam a única vestimenta feminina de seu corpo, marcando assim a única e inevitável concessão da família à homossexualidade do cadáver. A peça de roupa, não por acaso, dá título ao filme.

Gostaria de ilustrar esta crítica com uma crônica sobre um amigo falecido há pouco tempo, em São Luís do Maranhão. Era um grande cara, o Joacy Jammis, anarco-punk e um ótimo desenhista. Ou seja, não era homossexual, mas foi protagonista de uma situação parecidíssima com a do filme: ao morrer, sua família, mais tradicional, o enterrou com camisa de abotoar social para dentro da calça, transformando-o em um mauricinho. Ou seja, muito longe das camisas pretas de protesto e das calças rasgadas que ele costumava a usar. “Foi a única vez que eu pude ver meu filho assim”, justificou a mãe. Seus amigos ficaram horrorizados, não exatamente em ver seu amigo vestido daquela forma, mas sim com a impossibilidade total dele se defender. Meio sem saber o que falar, um dos punks sugeriu: “poxa, pelo menos põe o coturno dele...”. Arte, vida e morte mais uma vez se confundiram.

 

SUPERBARROCO

Se há algo que Pernambuco pode estar cheio de orgulho é de seu cinema curtametragista atual. Pelo menos três filmes chamaram a atenção braviamente neste festival, um o já comentado “Muro”, de Tião, “Superbarroco”, Renata Pinheiro (ambos selecionados para o festival de Cannes) e “No. 27” (de Marcelo Lordello, a ser comentado em breve).

“Superbarroco” é um filme único. A escolha narrativa da realizadora em ilustrar os delírios de um louco de rua (ou algo assim) foi interferir no cenário com diversas projeções, que deixam as imagens, no mínimo, com uma beleza desconcertante. Esta é a base estética que se apóia o filme, mas que também tem a grande ajuda do inacreditável ator Everaldo Pontes, que já tem se destacado, e muito, em produções locais. O que poderia virar apenas uma videoarte metida a besta, aos poucos vai ficando mais claro ao espectador que se trata de muitos dos fantasmas do delirante personagem, mas a recusa de fazer uma fantasmagoria em efeito especial e assumido a projeção, torna o filme bonito à beça e metalingüístico. Ao fim, ele participa de uma projetada festa de aniversário, onde ele balbucia umas das suas poucas falas compreensíveis: “eu também vou morrer hoje” ou algo muito parecido. Daí o filme termina. Ou algo assim.


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