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Curtas de Alexander Kluge: um doloroso e multifacetado acerto de contas

Por Guilherme Whitaker em 05/11/2004 10:52


 

Curtas de Alexander Kluge: um doloroso e multifacetado acerto de contas
Autor: Marcelo Ikeda


O Grupo Estação merece todos os parabéns pela reativação do cinema Estação Paço realizando mostras de clássicos do cinema mundial, exibindo filmes pouquíssimo vistos no Brasil. Os filmes alemães são um dos destaques. O Paço já exibiu retrospectivas de Wim Wenders e Werner Herzog. Agora, relembra um dos mais importantes nomes no novo cinema alemão dos anos 70, embora menos conhecido que o já citado Wenders ou ainda Fassbinder: Alexander Kluge.

O "novo cinema alemão" surgido no início dos anos setenta recuperou o prestígio crítico do cinema alemão, abalado desde as conseqüências da Segunda Guerra. Provomendo uma heróica tentativa em se reconciliar com seu passado, olhando-se no espelho para refletir sobre seu unbewältige Vergangenheit (passado não-assimilado), seu grande objetivo foi a busca de uma identidade para o povo alemão, perdido entre a vergonha de relembrar seu passado nebuloso e a alienação de sua associação tecnocrata com os Estados Unidos, em decorrência do Governo Adenauer.

Os curtas de Alexander Kluge exibidos no Paço foram uma excelente oportunidade para o público carioca conhecer os primeiros trabalhos do cineasta, assim como a formação do "novo cinema alemão". Foram ao todo seis curtas: Brutalidade em Pedra: A Eternidade de Ontem (1960); Professor em Transformação (1963); Retrato de Quem Deu Certo (1964); Sra. Blackburn, Nascida a 5 de Jan de 1872, É Filmada (1967); Bombeiro E. A. Winterstein (1968); Notícias dos Staufer (1977).

Seu primeiro curta – Brutalidade em Pedra
– foi exibido na mostra. Dialogando diretamente com o clássico Noite e Nevoeiro, de Alain Resnais, através do resgate à memória, dos lentos travellings de antigos locais da Guerra, agora vazios, e em sua narração em off, é no entanto mais alemão: seco, com cortes abruptos e várias descontinuidades, típicas do cinema de Kluge. No meio do filme, surgem depoimentos (inclusive do próprio Hitler), fotos de arquivo e maquetes, que ajudam a compor a estrutura do filme.

Em comum, nos seis curtas exibidos, há nitidamente um trabalho minucioso e exaustivo em revisitar a história alemã para compor alguma alternativa em relação ao presente e ao futuro. No cerne desses filmes, está um sentimento de ser alemão e da identidade de uma nação alemã. Seja através do olhar direto da trajetória das instituições, ou simplesmente de trajetórias individuais, o passado é uma forma de ver o presente. O diálogo com a história atravessa uma necessidade artística e cultural de seguir possíveis rumos ou de trilhar novas alternativas.

Daí decorre que um primeiro elemento estético que esses filmes promovem são um tratamento particular do tempo, de forma a fundir/colapsar uma visão entre passado e presente. A difícil tentativa de reconciliação com esse passado significa olhar-se de frente para o espelho, embora sem temer ou evitar as contradições e as amarguras do processo. É no dever não só histórico mas moral de promover esse doloroso diálogo, entre redescobrir o caos que se insere as descontinuidades narrativas do cinema de Kluge. Seu cinema pretende ser um inventário exaustivo, resgatando pontos perdidos no tempo/espaço mas ao mesmo tempo sem se referir a associações ou a causalidades redutoras, e sem esgotar a questão com um reencontro síntese. Sua proposta não difere muito de nossas tentativas em arrumar nossos quartos: não queremos propriamente promover uma organização/catalogamento do que existe, porque parte intrínseca de nossas vidas, mas simplesmente lembrar a nós mesmos que essas etapas existiram, ainda que estejam num canto qualquer, sob os lençóis e as roupas amarfanhadas. Por enquanto.

Exatamente por isso, uma segunda tendência é evitar o caráter essencialmente didático do documentário. Por um lado, Kluge resgata o passado com um distanciamento afetivo mas torturante, como em Brutalidade em Pedra, nos recursos à memória e nos efeitos ainda presentes. Por outro, busca uma intensa proximidade distante, como na entrevista com a Sra. Blackburn. Embora próximo, pelo fato de a mulher ser um membro da família Kluge, ela está essencialmente distante, com hábitos e costumes distantes do nosso cotidiano. Nesse sentido, o centro da tentativa de Kluge ocorre quando ela tenta reconstituir o episódio quando uma pessoa invadira a casa e quebrara um valioso pote. Reconstituir representa um diálogo doloroso com o passado, mas sem nunca recuperar a dor ou o sentido daquele episódio quando presente. Mas esse diálogo parece ser, acima de tudo, a única alternativa possível de viver. Dessa forma, seu final é extremamente significastivo. O próprio Kluge, tanto como o diretor ou simplesmente como um membro da família, se senta ao lado da Sra. Blackburn (seja como entrevistada ou como sua familiar) para tomar chá. A tentativa heróica (e poética) de promover um diálogo sincero não deixa de ser levemente contrastada por sua mesma impossibilidade, retratada no silêncio e no distanciamento.

Em Retrato de Quem deu Certo, a construção é mais irônica, recurso que não passa isolado numa recuperação desses filmes. O sentimento de indignação, a consciência da irreversibilidade algumas vezes apontam para uma postura amarga, anáquica ou simplesmente irônica. São nesses pontos que Kluge insere suas descontinuidades que reafirmam sua visão ambígua do "saber" do documentário. As elipses de pontos cruciais da história do policial são constrastados com sua visão sobre o assunto. Ainda assim, a dor da aposentadoria representa a falência de um certo conceito de nação alemã.

Em Notícias dos Staufer, a visão histórica se assume ainda mais explicitamente. Retomando a trajetória do Imperador Frederico II e comparando-o com o governo de Hitler, Kluge, ainda que peque numa visão essencialmente determinista e fatalista, promove um painel da história alemã marcada por suas próprias contradições e sua sede de poder.

Se pensarmos o cinema de Kluge como uma tentativa de compor um painel da história alemã com um paralelo entre passado e presente, marcado pela fragmentação e pela recusa ao documentário didático, talvez seu exemplo mais característico seja justamente Bombeiro E. A. Winterstein. A trajetória da própria Alemanha se confunde com a trajetória do próprio indivíduo, num filme composto de cenas filmadas, imagens de arquivo e fotos estáticas. A cobiça insana do poder, a proximidade do abismo, a questão do olhar e do tempo (o mundo girando) e a ironia, através do exército de brinquedo que circula o filme são características típicas do cinema não didático, indignado e multifacetado deste curioso diretor alemão ainda pouco conhecido no Brasil.


Marcelo Ikeda é editor do site Claquete.


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