Curtindo os Curtas e o Cineclubismo = acelerando a difusão e o mercado audiovisu ::  | Curta o Curta

Curtindo os Curtas e o Cineclubismo = acelerando a difusão e o mercado audiovisu

Por Guilherme Whitaker em 26/07/2008 17:20


Não é preciso pensar muito para sacar que o curta-metragem tem um imenso e crescente potencial mercadológico, ainda mais num país como o Brasil, por tantos anos atrasado em quesitos tecnológicos (antes fundamentais para se produzir/exibir cinema) e que hoje se equilibra como um grande produtor de conteúdo, graças, como sabemos, ao surgimento das novas (e mais baratas) tecnologias de fazer/exibir filmes.

 Cerca de 1000 filmes são feitos em todas as regiões do Brasil a cada ano, em todos os formatos e de todas as durações. Os cerca de 120 eventos regulares de difusão mal dão conta de exibir 1/2 deste total, ou seja, ainda existe mais oferta de filmes do que espaços para que eles sejam exibidos. O ressurgimento do movimento cineclubista tem importante papel para que estes filmes nacionais cheguem a mais locais que não possuam sequer cinema e/ou que não sejam atendidos pelos eventos regulares que, na maioria das vezes, acontecem nas capitais do estados, principalmente do Sudeste.

O investimento estatal e privado em ações cineclubistas é assim fundamental por diversos fatores, dentre eles a (talvez) única chance de acesso a um conteúdo original em bairros ou cidades mais distantes, formando assim um público freqüentador de filmes nacionais, levando adiante nossa cultura, nossas técnicas e questões audiovisuais. Além da exibição em si, uma sessão de cineclube é um evento (diferente de ver um filme na tv ou pela web) por onde giram certas economias e chances de troca de conhecimento e contatos que de outra forma não seriam possíveis. Diante de um quadro histórico desolador para a difusão de nossos filmes, há décadas sendo massacrados por conteúdos estrangeiros interessados basicamente em divertir em troca de moedas, o cineclubismo precisa se firmar cada vez mais e para tanto é fundamental receber mais apoio para suas ações que na prática são quase de ´guerrilha`, um exército Brancaleone de pessoas que sentem prazer em mostrar filmes ao povo. É então uma luta desigual contra políticas, filosofias e empresas com décadas de envolvimento em nossa cultura e economia, ou seja, a tarefa não é nada fácil e apenas com persistência, inteligência e investimentos será possível reverter esta situação para que dias melhores venham, não em meses ou par de anos, mas quem sabe em uma ou duas décadas, quando de fato por todo o Brasil, em cada cidade, haverá se não uma sala de cinema tradicional, um cineclube com programação regular de curtas, longas, debates e ações culturais que estimulem o pensamento e a produção de conteúdo audiovisual local. Ou seja, um cineclube não é apenas uma sessão, mas muito mais, é tudo o que ao redor e dentro dele se torna possível acontecer. A graça seria, então, usar o cenário cineclubista para desenvolver o cenário também comercial para os filmes curtos, com regularidade e volume, a fim de que se faça ali o que o pífio (e por isso pseudo) mercado comercial de longas nacionais nunca foi capaz, por diversos motivos: ser auto-sustentável, ser indústria mais comercial que cultural. Tais questões são estratégicas e assim deveriam ser tratadas, para o bem de todos os envolvidos.


Curtindo os curtas na grande Rede e fora dela

O site Curta o Curta (COC) nasceu em 2000 a partir de uma idéia queu tive para a criação de um canal na Internet que centralizasse as informações relacionadas ao curta-metragem nacional e também exibisse filmes. Em 1995/96 havia morado na Califórnia (EUA) e sacado o imenso potencial da Internet com relação à comunicação em geral e ao audiovisual em particular. Muito do que depois veio a ser esta TV Digital recém chegada ao Brasil, já estava presente nas possibilidades de interação no uso da Internet, onde o usuário pode ser mais ativo do que passivo, onde ele escolhe o que ver/fazer/ler/copiar dentre os milhões de canais/sites. Também por isso naquela época era fácil perceber que a revolução trazida pela informática a todas as áreas estaria, com a Internet, potencializado-se não apenas nos negócios mas também na vida pessoal de todos que tenham e-mail, assim como facilitando, e muito, a qualidade e a velocidade das relações, principalmente no que tange à comunicação social, área em que me formei em 1993.

Antes do COC não havia nenhum site nacional que fizesse este papel de centralizar as infos relativas aos curtas, tampouco algum site que exibisse curtas em tempo real. Fomos então, ou melhor, somos, os pioneiros na exibição de curtas na Internet nacional. No início, sem recursos e sem conhecimento algum, tratei de conseguir amigos que fossem da área de informática/internet para me ajudarem no desenho e no sistema dinâmico do site. Depois de alguns meses dois amigos toparam ser meus sócios e o site foi lançado em outubro de 2000, num visual muito similar ao de hoje, publicando notícias e exibindo cerca de 30 filmes na íntegra. Não havia, porém, nenhum foco específico no negócio que envolvia o curta, era apenas jornalismo (através do Jornal do Curta) e difusão (exibindo filmes online). Mas estava dado o primeiro de tantos passos que depois viriam, minha idéia de criar um canal na Rede estava funcionando. Com o passar dos meses/anos, diversos problemas foram superados, o primeiro e principal deles foi que para qualquer tipo de atualização eu precisava mandar por e-mail o que fosse pra publicar, seja texto ou filmes, e meus sócios publicavam. Só que obviamente não o faziam na hora, e aos poucos isso foi sendo um problema já que, como o site não dava grana e passava a dar cada vez mais trabalho (pois era um sucesso bem visitado e precisava ter sempre infos e filmes novos...), foi ficando difícil ele se manter de forma ideal, o que era deprimente. Para saber mais detalhes desta fase inicial do site, confira em http://www.curtaocurta.com.br/historia.php.

Hoje, oito anos se passaram e o cenário audiovisual brasileiro está bem melhor. Já existem dúzias de sites relacionados ao curta-metragem nacional, que exibem filmes e publicam textos que tenham a ver com este ambiente. Também por isso, em 2005, o site (hoje portal) Curta o Curta se transformou em empresa, numa rara iniciativa (de site virando empresa e durando mais que 1 ano) que em 2008 faz 3 anos e que surgiu também para injetar em todos os interessados uma postura mais profissional e, em alguns casos, mercadológica, tanto para quem faz curtas e quer viver disso como para quem quer exibir este conteúdo (em outros portais, eventos, RH de empresas, tvs, centros culturais, etc.) cada vez mais e melhor feito no Brasil. Ter virado empresa foi uma questão de sobrevivência, pois, sendo 100% independente, se a postura não fosse esta o site não teria como evoluir e, assim como na vida, principalmente no ambiente WEB, o que não evolui, pifa rapidamente.

Então que desde seu nascimento o Curta o Curta queria provar a todos que sim, curta-metragem é algo legal de se ver, que pode ter qualidades diversas e, afinado com o que de mais contemporâneo tem acontecido no mundo atual, pode unir entretenimento com conhecimento, pode ser dinâmico e multiformatado (um curta pode passar em diversas plataformas facilmente), pois usa de novas e sofisticadas tecnologias que dão chances de realização/exibição antes improváveis, se não impossíveis. Com o tempo e a falta de um patrocinador para seguir melhorando o site, seu destino estaria condenado pois eu não tinha como ficar investindo nele meu tempo e grana (queu tampouco tinha) sem nenhuma garantia de retorno, já que apesar de ser uma ação legal e mesmo de utilidade pública, eu seguia sem emprego e sem muitas perspectivas profissionais com jornalismo.

Em 2005, o cenário nacional pro cinema cultural, como são chamados os filmes de curta-metragem e docs. em geral, era bem mais animador do que em 2000. Crescentes investimentos estatais em ações de variados níveis indicavam a postura, principalmente do governo federal, de seguir investindo na produção/exibição de curtas, seja através do apoio aos eventos audiovisuais que acontecem a cada ano no Brasil, seja com a criação de novos e exemplares programas de fomento, como o ´Revelando Brasis`, os ´Pontos de Cultura` e a ´Programadora Brasil` que, cada qual ao seu modo, incentivam os realizadores na produção/difusão de curtas. Outra ação fundamental e que tende a ser um divisor de águas neste cenário foi a criação da ANCINE (em 2001) e a aproximação (oficializada em 2007) desta e do Ministério da Cultura, com a retomada de um movimento então condenado ao esquecimento no cenário audiovisual brasileiro: o cineclubismo, apenas a forma mais ágil de apoio direto a quem de fato exibe conteúdo nacional a um público sem acesso às salas de cinema tradicionais. Também não se pode esquecer certas iniciativas privadas além da COC, como a de canais de TV e portais na internet que exibem e remuneram curtas, assim como as empresas de telefonia interessadas em fornecer conteúdo de qualidade (e geralmente de pequena duração, ou seja, curtas) aos seus clientes de celulares e/ou IPTV. E a TV Digital que lentamente vem chegando e vai precisar de mais e mais conteúdo para suas grades. Ou seja, é MUITO promissor o cenário comercial para quem faz filmes no Brasil de agora, também por isso a COC existe, para fazer o meio de campo entre estas dúzias de empresas e os milhares de filmes.


COC e os Cineclubes

A relação do portal Curta o Curta com os Cineclubes já vem acontecendo, informalmente, há alguns anos, com a regular publicação das sessões cineclubistas no Jornal do Curta. Com foco em nossa missão de ajudar a acelerar o desenvolvimento da cadeia de produção/difusão do curta nacional, a partir de 2008 oferecemos espaço de divulgação das sessões e publicação de conteúdo exclusivo do Cineclube no Jornal do Curta. Um serviço gratuito, com o objetivo de apoiar a promoção das sessões dos Cineclubes e facilitar a vida do público ao fornecer num único espaço a programação de sessões em diversas cidades do país. Em breve estas publicações serão feitas por cada cineclube acessando diretamente nosso Painel de Controle, sem precisar passar pela editoria do COC, como acontece hoje. Tais ações do COC não visam gerar receita mas sim dar mais visibilidade e credibilidade aos eventos cineclubistas, para que eles se tornem mais fortes e melhores, já que sabemos que a promoção/divulgação é parte fundamental do sucesso de qualquer iniciativa cultural. Além desta divulgação, que é gratuita, o cineclube cadastrado como ´Exibidor` no COC já pode acessar, sem custo, um exclusivo Painel de Controle (PC) onde pode assistir aos filmes de nossos clientes produtores, podendo solicitar orçamentos para a cessão destes filmes para seus eventos.

Assim, ao ter seu cineclube vinculado ao COC o cineclube tem mais:
. Visibilidade, pois as sessões dos Cineclubes são divulgadas na área “Sessões Cineclubes” do Jornal do Curta.
. Liberdade de programação – Não é necessário programar filmes do Catálogo Curta o Curta para se beneficiar de nosso serviço. O Cineclube pode manter programação própria e independente e, ainda assim, contar com espaço no Jornal do Curta para divulgar suas sessões.
. Calendário de sessões – O espaço no Jornal do Curta permite que o Cineclube publique antecipadamente sua programação de sessões da semana, do mês ou do ano, ajudando a despertar o interesse do público e permitindo que ele se organize para aproveitar as sessões.
. Acesso ao Catálogo Curta o Curta – Caso o Cineclube tenha interesse, também tem acesso aos serviços Sessões Curta o Curta e Sessões Livres, para programar filmes do Catálogo Curta o Curta.

Estas ações têm por objetivo apoiar e fortalecer o trabalho dos Cineclubes, além de oferecer ao público um guia centralizado da programação em diversas cidades do país. Visa também, aos poucos, incrementar a auto-sustentabilidade da distribuidora e do circuito exibidor com que ela se relaciona, numa engrenagem que, com a regularidade prevista, tende a gerar receita tanto para o realizador tanto para a distribuidora, que fica com uma porcentagem do valor pelo serviço prestado.

Tal postura do COC acontece por vários motivos, como: dentre os mais de cem festivais de cinema que acontecem anualmente em todo o Brasil (vários deles com mais de 10 edições), quase a metade aceita longas e curtas-metragem, sendo que cerca de 35 são dedicados exclusivamente ao curta e são realizados em todas as regiões do país. Estima-se um público superior a 250 mil pessoas presentes aos eventos apenas de curtas em 2007, dentre os mais de 1,8 milhão de espectadores que se interessaram por longas e curtas no mesmo ano.

Ora, existem cerca de 2.000 salas de cinema no Brasil, número ínfimo diante do tamanho da população brasileira. E o público que tem um interesse específico, que quer assistir um curta-metragem, tem mais dificuldades pois este circuito comercial (ainda) não se interessa pelos curtas. Ao contrário do interesse cineclubista, praticamente inexiste programação regular de filmes curtos nessas salas.

Os Cineclubes conhecem o potencial da produção de curta-metragem brasileira e sabem que existe público interessado. Ao lado dos festivais, são o principal meio de exibição desses filmes. São centenas de cineclubes se esforçando para promover, com regularidade, sessões em todo o país. O Curta o Curta reconhece a importância e o valor do trabalho de formação de público desenvolvido pelos Cineclubes que, na maioria das vezes, atuam com restrição de recursos. Unindo tais forças e ações é possível melhorar a posição de todos, por isso cá estamos juntos. E, como pensado mais acima, sobre a maior oferta do que demanda para exibição de conteúdo nacional, penso que o papel do movimento cineclubista será cada vez mais relevante neste cenário, pois tais espaços poderão, aos poucos, serem fontes de conteúdos originalmente vistos e debatidos no espaço cineclubista.

O portal independente Curta o Curta, cuja missão é também ajudar a acelerar esta economia criativa audiovisualmente ativa, vem assim se juntar a diversas outras ações que também visam melhorar o acesso aos filmes de curta-metragem brasileiros. A idéia é formar cada vez mais público para que o formato um dia seja auto-sustentável, gerando receita para seus realizadores e exibidores de formas variadas. A idéia é organizar o ambiente de forma equilibrada e convincente, para que o mercado cresça por conta própria, algo que o mercado de longas nacionais até hoje tenta, em vão, realizar.

Por fim, imagino que a auto-sustentabilidade cineclubista é possível pois tenta criar novas possibilidades de ação e interação para uma economia super criativa e que hoje envolve milhares de pessoas em todo o Brasil. Havendo organização eu não tenho dúvidas de que o caminho do curta e do cineclubismo é tão similar quanto promissor, ebaaa.


Guilherme Whitaker, 39, diretor/produtor de curtas, criador do portal Curta o Curta, curador/organizador de eventos (Mostra do Filme Livre, Feira Audiovisual do Rio, entre outros) e cineclubista, é vice-presidente da Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-metragistas, ABD.
contato@curtaocurta.com.br

Texto publicado originalmente na cartilha ´Circuito em Construção - seminários estaduais para a auto-sustentabilidade cineclubista`, evento realizado em julho-2008 no Rio de Janeiro. Saiba mais aqui.

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