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Duas vezes Marco Dutra

Por Guilherme Whitaker em 15/08/2005 19:08



Duas vezes Marco Dutra 



Cena do curta "O lençol branco"

Ver em conjunto os dois recentes curtas de Marco Dutra (O Lençol Branco, co-dirigido por Juliana Rojas, e Concerto Número 3) nos dá a chance de perceber um trabalho em continuidade, e cada filme ganha um novo significado em particular. O principal tema desses trabalhos é a proximidade da morte, ou ainda, o impacto da certeza da morte no dia-a-dia das pessoas mais próximas. Ainda, um corolário desse tema principal é o relacionamento entre os membros da família, sua proximidade e sua distância. Mas o que encanta na visão de cinema de Marco Dutra é como ele trabalha dois pontos: o primeiro é o clima de tensão que emerge da própria mise-en-scene (tempos largos, silêncios, movimentos lentos dos personagens, o rigor do enquadramento) naturalmente, sem nenhum esforço, mas arquitetado de maneira muito cuidadosa; o segundo é a atenção minuciosa aos pequenos detalhes da rotina dessa família. A partir desses dois elementos, seus filmes revelam uma “crise”, sempre fruto da presença da morte, e se questionam até que ponto é possível “voltar à normalidade”, recuperar um antigo equilíbrio. Com seu cinema observador aos pequenos detalhes, dedicado ao relacionamento humano, e bastante rigoroso à sua estética, Marco Dutra acaba sutilmente promovendo um pequeno inventário das limitações da natureza humana, da dificuldade da busca de um sentido para a vida, e da importância da família e do calor humano para superá-las. Mais rigoroso e austero, o claustrofóbico O Lençol Branco torna a convivência com uma família que acaba de perder um filho recém-nascido quase insuportável. Assumidamente mórbido mas ao mesmo tempo profundamente afetuoso, extrai essa ambigüidade de um cinema que busca um distanciamento rigoroso e uma proximidade quase como um consolo para a pobre família vítima do destino. Já Concerto Número 3 é mais esperançoso, com uma narrativa inventiva que vê a mesma situação por diferentes pontos de vista (o da mãe, o do pai e do filho). A presença dos exteriores (ainda que poucos), a câmera na mão e a trilha sonora dão ao filme uma ternura e um lirismo que o austero O Lençol Branco não pode ter. Mais radical, a tensão de O Lençol Branco tem sido menos aceita que a compaixão de Concerto Número 3. Mas ambos fazem parte de um mesmo projeto de cinema: um cinema humano talentoso, que evita o sentimentalismo simplório para, através de uma profunda consciência de uma mise-en-scene, compor um painel das sutilezas e dos pequenos dramas da existência humana. 

Por Marcelo Ikeda


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