Enfrentando Hollyworld - Artigo de Guiwhi Santos e Marcelo Ikeda ::  | Curta o Curta

Enfrentando Hollyworld - Artigo de Guiwhi Santos e Marcelo Ikeda

Por Guilherme Whitaker em 01/06/2010 10:54


Com uma rede de produção e distribuição que opera em escala mundial, estimulada pela concentração em grandes conglomerados midiáticos, as majors dominam o mercado cinematográfico. Mas, apesar desse cenário arrasador, existem formas de resistir à uniformização do acesso aos produtos audiovisuais hegemônicos.


"Se cinema é cachoeira, vídeo é arrebentação" Guiwhi

“Quem não deve não treme” Popular

 

O desenvolvimento das tecnologias de comunicação e informação tem provocado grandes mudanças nos modos de produção e consumo no mundo de hoje. Essas mudanças, cada vez mais aceleradas, provocam impactos não somente no campo das técnicas, mas essencialmente econômicos e sociais. O campo da cultura sente as influências desses movimentos de transformação de maneira íntima, transformando modos de ser em produtos de uma indústria cultural cada vez mais materializada, guiada por uma lógica essencialmente mercantil. A unicidade dos fazeres dessa “aldeia global” inevitavelmente afeta ideias, padrões e valores sócio-culturais, impulsionando a adesão a uma cultura de massa, que produz mercadorias midiáticas em escala nacional e por vezes mundial. Os meios de comunicação globais transformam radicalmente o imaginário de todos, por meio da circulação de livros, filmes, músicas, transformados em mercadorias que carregam consigo uma padronização crescente nos modos de percepção do mundo e das coisas.

Por um processo histórico, a concentração da indústria cinematográfica remonta ao período entre guerras, em que o cinema hollywoodiano conquistou os mercados mundiais com uma distribuição massiva. No entanto, nas últimas décadas é visível o aprofundamento desse processo de concentração. Um oligopólio de seis empresas (Warner, Sony, Disney, Paramount, Universal e FOX) domina a indústria cinematográfica a nível mundial, de modo que dos vinte filmes de maior bilheteria mundial lançados em 2008, apenas um não possui participação de uma dessas empresas. São empresas que funcionam numa integração vertical, em que o domínio de suas atividades está na distribuição, e não propriamente na produção ou na exibição, comprovando que a circulação é o fator-chave desse modelo.

Por outro lado, essas empresas integram outros conglomerados ainda maiores, de modo que os estúdios cinematográficos tornaram-se parte de grandes conglomerados midiáticos. O exemplo mais significativo foi a fusão entre AOL, Time e Warner, englobando, num mesmo oligopólio, líderes globais de produção de conteúdo cinematográfico e de mídia impressa, além de um grande player na indústria de tecnologias de comunicação. O passo seguinte a esse processo foi a incorporação desses conglomerados midiáticos em outros conglomerados ainda mais robustos, de modo que a indústria midiática seja apenas parte de um conglomerado que produz os mais diversos produtos, numa lógica de consolidação de marcas e de pulverização dos investimentos como forma de redução dos riscos. Um exemplo é a compra da Universal pela General Electric (GE), empresa que fabrica produtos tão diversos quanto turbinas para aviões ou equipamentos médico-hospitalares de intensiva tecnologia.

Apesar de falados em língua inglesa, os produtos fílmicos dessas grandes corporações não são propriamente norte-americanos, mas essencialmente produtos globais. Ao invés de representarem o domínio de Hollywood, são na verdade representantes de uma “Hollyworld”, já que atualmente a minoria dessas empresas ainda permanece sediada na cidade norte-americana. Além disso, o mercado externo já representa a maior parte das receitas dessas empresas: em 2006, 65% da receita das majors foram obtidas fora do território norte-americano. Com uma rede de produção e distribuição que opera em escala mundial, estimulada pela concentração em grandes conglomerados midiáticos, pela velocidade dos fluxos financeiros e pelos efeitos multiplicadores das ações de marketing com a difusão da informação através das tecnologias de comunicação sociais massivas, as majors dominam o mercado cinematográfico não apenas dos Estados Unidos mas da maior parte de países do mundo, inclusive das grandes potências econômicas européias, como Itália, Alemanha e Reino Unido. Mesmo na União Européia, a participação dos filmes norte-americanos é de 70%, sendo que os filmes europeus representam apenas 28,4%. Ou seja, os cinemas nacionais são “estrangeiros em seu próprio território”, dominados por um cinema hegemônico, que atua em escala global.

Como seria de se esperar, o Brasil não se trata de exceção à regra mundial. De fato, a invasão de filmes de “Hollyworld” é esmagadora num mercado de grandes desigualdades, onde 92% dos municípios não possuem uma única sala de cinema em funcionamento regular, e 61% da renda de bilheteria está concentrada nas dez principais capitais. Possuindo pouco mais de 2000 salas (2063 salas em 2008), o mercado de exibição cinematográfica brasileira é pequeno, em se tratando seja do número de salas per capita, seja de salas por km2. Os filmes distribuídos pelas “Big Six” são exibidos comercialmente no mercado brasileiro por meio de grandes lançamentos, numa estratégia integrada mundialmente. Alguns desses lançamentos chegam a ocupar mais de 500 salas simultaneamente, configurando uma invasão maciça de um único produto na fatia mais privilegiada do mercado de salas de exibição: os multiplex dos grandes centros urbanos, com filmes que estimulam a fantasia e o escapismo, repetidos e reiterados através de sucessivas continuações, como Homem Aranha, Harry Potter, Missão Impossível, entre outros. Em 2008, as “Big Six” apresentaram uma participação de cerca de 80% no mercado de distribuição cinematográfica no Brasil.

Nesse contexto, produzir cinema fora do contexto das “Big Six” se revela um projeto de resistência, de possibilidade de sobrevivência de outras formas de se contar uma história, de mostrar valores que não coincidam com a hegemonia da veiculação das marcas e da lógica mercantil. Os Estados Nacionais têm tentado garantir essa possibilidade em diversos fóruns. Recentemente, no âmbito da Organização Mundial de Comércio (OMC), alguns países, liderados pela França, com participação marcante do Brasil, lançaram o conceito da “exceção cultural”, mostrando que o audiovisual não pode ser simplesmente regulado como um mero produto industrial, já que traz consigo uma carga de valores simbólicos que não podem ser simplesmente substituídos por um bem cultural de um outro país.

Apesar desse cenário arrasador, existem formas de resistência à uniformização do acesso aos produtos audiovisuais hegemônicos. Hoje, é possível produzir conteúdo com boa qualidade técnica com câmeras digitais portáteis, a um preço bastante acessível. A difusão desses conteúdos se tornou possível através de inúmeros portais e plataformas na web, responsáveis por divulgar não só novos talentos mas especialmente formas alternativas de produção e de veiculação de ideias, já que o grande risco da exposição massiva de um pequeno número de obras audiovisuais a nível global é que o espectador conclua que existe uma forma hegemônica de pensar, agir, viver. Ter acesso a diferentes modos de fazer é portanto um sinal de liberdade, exercício de cidadania, em que aprendemos a observar o outro e respeitar as diferenças.

Os Cineclubes e as Mostras de Audiovisual continuam sendo um espaço importante para o encontro de pessoas, a veiculação de filmes e realização de debates sobre os desafios da produção contemporânea. A Mostra do Filme Livre (www.mostradofilmelivre.com), realizada no CCBB do Rio de Janeiro, é um exemplo, ao completar nove anos de atividades privilegiando os novos formatos e abrindo portas para formas alternativas de se pensar o audiovisual. Exibindo filmes de diversas regiões do país, com diferentes modos de produção, em geral com um orçamento bastante reduzido mas com muita criatividade, a Mostra oferece ao público uma possibilidade de reflexão sobre os rumos dos produtos midiáticos no mundo de hoje: os “filmes livres” não só podem como devem também entrar em cartaz.

Guiwhi Santos e Marcelo Ikeda

(Publicado originalmente na revista Le Monde Diplomatique de abril de 2010)

 


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