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Entrevista com José Roberto Torero

Por Guilherme Whitaker em 12/12/2007 09:16


Torero e o Cinema
Por Gustavo Serrate

O bem humorado escritor, jornalista, blogueiro, roteirista e cineasta José Roberto Torero conta sua experiência cinematográfica. Torero nasceu em Santos no ano de 1963, é autor, entre 13 livros, do Best seller O chalaça. Tem seis curta-metragens na sua filmografia, entre eles os premiados Amor!, Morte e A alma do negócio, um longa-metragem chamado Como fazer um filme de amor, e um novo projeto na manga, de nome ainda indefinido, em andamento. Torero nos conta sobre a prolificidade criativa e mata o mito da criatividade espontânea, segundo ele, uma obra de arte é construída à base de muito estímulo com café e de pestanas queimadas sobre a mesa. Sua experiência com curta-metragens certamente lhe serviu de base para a direção de seu longa-metragem, mas Torero afirma que o curta-metragem não é apenas um trampolim para outras coisas, o curta é um formato livre que tem importância per se.

Além de cineasta e escritor você trabalha com TV e é cronista esportivo. Pode comentar um pouco sobre essa pluralidade de seu trabalho?
Isso é uma coisa comum para quem trabalha com letras. Machado de Assis escrevia para vários jornais, fazia contos, peças de teatro, livros. É uma coisa normal. Está dentro do escrever, e fazer roteiros é escrever, fazer crônicas é escrever, fazer contos para revista é escrever. O roteiro é um pouco diferente. O roteiro pede uma cultura mais cinematográfica do que literária, mas de qualquer forma está tudo dentro do escrever, então não é uma coisa assim, incomum, essa pluralidade.

E como foi a transição de literatura para o roteiro?
É que eu fiz faculdade de cinema na ECA-SP ( Escola de comunicações em Artes )com Pós de roteiro. Não acabei nem a faculdade nem a pós. Fiz jornalismo e cinema e letras na faculdade.

Como você se interessou por cinema?
Na verdade eu gostava muito de ver filmes e aí eu pensei: vou fazer o curso de cinema porque aí eu vejo um monte de filmes de graça. Deve ser uma faculdade fácil, fazer filmes... E eu errei muito porque das três faculdades que eu fiz foi a mais puxada. Mais que jornalismo e letras. Estudei de manhã, muitas vezes à tarde. Trabalhei mais. É uma faculdade melhor mesmo do que as outras duas.

Pode falar um pouco sobre o próximo longa que pretende fazer?
É um longa, aliás, passado em Brasília. São dois deputados e cada um tem um projeto, para realizar o projeto eles precisam comprar os outros deputados. É uma guerra política para ver quem consegue comprar mais deputados. A idéia do filme é mostrar os bastidores da política. Eu escrevi um livro chamado Os Vermes, sobre as artimanhas políticas de uma capital federal. Foi baseado nesse livro.

E qual será o nome do filme?
Varia muito. Depende da semana. Como comprar um deputado. Elefante vai a feira. Porque um dos caras é chamado de Elefante.

Mudando de assunto, como você mantém essa atividade criativa constante? Você tem algum método para manter a prolificidade?
Café né? Existe essa questão sobre criatividade, mas na verdade você precisa trabalhar bastante. Ficar várias horas na frente do computador, fazer, refazer. Não tem esse mito de que existe uma criatividade espontânea. Você precisa começar, e aí você faz. Tem que trabalhar né? O pessoal enfeita demais isso. Ninguém pergunta para uma empregada doméstica: Como é que você mantém essa sua energia? Todos os dias a senhora passa e cozinha! Tem uns caras que escrevem bem de primeira. O Clovis Rossi da folha (Folha de São Paulo), por exemplo, de primeira ele já faz um bom texto. No meu caso não. No meu caso eu tenho que fazer muitas vezes.

E como foi sua experiência nos curta-metragens?
Na verdade eu gosto muito mais de curtas do que de longas. É uma vida mais divertida. Você não tem tanta dor de cabeça, viaja muito mais. Tenho muita saudade do curta-metragem, mas depois que eu fiz o longa já não dá mais pra voltar para o curta porque a maioria dos editais deixa de fora quem já fez um longa. Então como eu já fiz longa, na maioria dos concursos eu não posso entrar, porque o pessoal considera que o curta é uma escola para o longa, mas não é. Ele é uma coisa em si. Eu poderia fazer curtas a vida toda mas agora não dá mais.

Mas apesar do curta não ser uma escola para o longa, eles devem ter servido de suporte para a realização do longa.
O curta também é uma escola. O que eu quis dizer é que ele não é só isso. O curta é bacana em si mesmo, não é que ele seja só uma escada para o longa-metragem, ele em si já é importante. Mas você aprende muito fazendo curta. Você aprende como lidar com equipe, como colocar a câmera. Você filma e monta e aí você vê o resultado do que você fez e aí você aprende mesmo a filmar. O curta tem mais liberdade, porque no longa você tem uma certa regra dramatúrgica e tal né? O curta pode ser mais doido. Como ele tem pouco tempo, pode ser feito em formas diferentes, e o curta é até melhor quando é feito de formas diferentes.

E essa história de editais. Quando você começou a produzir, já começou através de editais?
Os meus dois primeiros foram como aluno através da ECA e o terceiro eu ganhei um concurso. Foram três feitos por concurso, um eu paguei do bolso e dois foram feitos pela escola.

Morte e amor são temas recorrentes em seu trabalho. São temas que você busca naturalmente?
São temas recorrentes na vida né? O que tem pra se falar, além disso? Não sobra muita coisa. O poder talvez, mas acho que amor e morte são os dois maiores temas. Eu fiz curtas sobre morte, tentei conseguir dinheiro para fazer um documentário sobre morte, mas não ganhei dinheiro em nenhum edital e acabei não fazendo. A morte é um tema até mais recorrente pra mim do que o amor.

O que diria para os novatos do mundo do cinema?
Para quem já produz seja de forma independente ou não, ou para quem ainda quer começar.
Acho importante fazer. Fazer bem feito. Porque através dos curtas você vai chegando a outros lugares também. Por exemplo, fazendo curtas eu cheguei no Retrato Falado, aquele programa da Globo com a Denise Fraga. Os caras viram os curtas, hoje em dia todo mundo vê curtas, você coloca no youtube, pode fazer sucesso, os caras te chamam. Dá pra usar o curta como trampolim para outras coisas, ou só para se divertir mesmo.

Publicada originalmente no CURTABLOG.

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