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Entrevista com o jornalista e cineasta Pernambucano Kleber Mendonça Filho

Por Guilherme Whitaker em 01/04/2008 08:30


O cineasta deve fazer o filme que precisa fazer

Entrevista com o jornalista e cineasta Pernambucano Kleber Mendonça Filho, sobre sua vida e pensamento intimamente ligados ao cinema

Kleber Mendonça Filho é cineasta e jornalista especializado em crítica para cinema. Trabalha como crítico profissional de cinema para o Jornal do Comércio do Recife e alimenta seu site especializado em cinema, Cinemascópio, há nove anos. Dirigiu diversos curtas premiados no Brasil e no exterior, como A menina do Algodão (2002), Vinil Verde (2004), Eletrodoméstica (2005), Noite de Sexta, manhã de sábado (2007). Kleber ruma agora para uma mudança de patamar na carreira, com o lançamento de seu primeiro longa-metragem, o documentário Crítico - sobre "ver e fazer filmes", segundo suas palavras. O cineasta prepara a produção de um novo ficção-documental chamado Recife Frio, uma alegoria para fenômenos sociais e psicológicos que ocorrem em Recife. Nesta entrevista ao Na Prática, Kleber fala sobre processo de criação, revela próximos projetos, faz sua própria crítica dos críticos e reflete sobre todo o fazer cinematográfico.

Gostaria que falasse um pouco sobre seus projetos em andamento.
Bom, eu, to conseguindo manter um ritmo desde 2003, um filme por ano. Teve A Menina do algodão, Vinil Verde, Eletrodoméstica. Aí eu to fazendo atualmente um curta que ganhou um prêmio na Petrobras que se chama Recife Frio. É um falso documentário. Na melhor das hipóteses, ele vai parecer um documentário bem verdadeiro. Pelo absurdo do tema, as pessoas vão entender que não é um documentário, mas ele se comporta exatamente como um. O filme é sobre uma mudança que acontece no clima do Recife, ele passa a ser uma cidade fria em vez de uma cidade tropical. No filme, a idéia é fazer um documentário de uma TV francesa sobre essa cidade do Brasil que deixou de ser tropical e tornou-se fria. Muita coisa do filme são observações bem reais sobre o que eu acho que está acontecendo no Recife hoje em dia. Não tão em questões climáticas, mas em questões urbanísticas, etc., eu imagino que ele fique pronto ainda esse ano, espero. Mas antes desse filme eu terminei um documentário de longa-metragem chamado O crítico, que reúne nove anos de entrevistas que eu fiz no Brasil e fora do Brasil sobre críticos.

E como é a sua busca para encontrar a próxima história?
Até agora eu acho que não tive um filme que não fosse assim, mas todos os que fiz até agora, e o longa que estou escrevendo, são muito pessoais. Então são observações muito pessoais minhas sobre aspectos que estão sempre muito por perto. Significa que eu faço filmes monotemáticos, eu acho que você como pessoa, você pode ser afetado, você pode ser marcado por vários aspectos diferentes da vida. Por exemplo, A Menina do Algodão é um filme sobre um medo muito infantil, e uma experiência de medo que eu já tive quando eu estava no primário: era uma idéia, uma lenda urbana de que no banheiro tinha uma menina morta, e isso, na época, eu e meus amigos esperávamos horas, pra fazer xixi em casa. Pra você ter uma idéia do medo que isso era. E de alguma maneira você cresce, fica adulto e ainda lembra daquele medo. O ser humano sempre vai ter medo, e aí eu achei que era uma idéia boa pra fazer um filme de gênero, que é muito raro no Brasil, na verdade. Um filme de gênero muito brasileiro, sem castelos na Transilvânia, nem serial killers como nos Estados Unidos. Um filme bem simples, feito aqui no Recife. E Vinil Verde também é um filme que segue um pouco, mas é um pouco mais complexo. A menina do algodão é muito simples, ele é aquilo. A idéia do Vinil Verde foi a seguinte: uma amiga ucraniana, com quem eu terminei fazendo o Noite de Sexta, Manhã de sábado, viu o Menina do Algodão e imediatamente falou: "Me lembra várias histórias que eu ouvia quando era criança, na escola na Ucrânia". E aí ela achou um site onde tinha uma antologia de histórias para criança, e ela lembrava muito dessa, que era fantástica, e conseguiu ler exatamente a versão correta da história, porque na cabeça dela já tinha variado muito. Aí ela leu a história das uvas verdes, que é uma história essencialmente sobre a perda da inocência, o amadurecimento de uma criança e aí, quando ouvi a história, achei incrivelmente forte, muito dentro dessa idéia da fábula russa - porque a fábula russa é extremamente dura, ela é muito poética, e tem uma verdade que assusta. Acho que é um pouco da própria alma russa, você lê a literatura russa, é uma literatura que choca muitas vezes, mas ela choca com a beleza, ela não choca com táticas vulgares, o choque vem através da beleza. Isso é uma coisa notável na literatura, nas fábulas russas. Eu achei que teria que fazer um filme que honrasse essa atmosfera. Essa filosofia do choque é forte, mas ao mesmo tempo é muito bonita, e eu acho que é aí que o filme chama a atenção de muita gente, porque o Vinil Verde, embora o Eletrodoméstica seja tecnicamente um filme mais bem sucedido, é um filme mais amado.

Sobre Vinil Verde, um filme feito de fotografias, você decupou o filme em papel?
Eu decupei olhando pelo visor da câmera, no apartamento onde a gente tava filmando. Eu tenho que te dizer que isso veio naturalmente, mas, pensando agora, a grande dificuldade do filme é você decidir quais são as imagens importantes. Porque num filme normal você tem imagens a 24 quadros por segundo, no Vinil Verde você tem às vezes quatro imagens por minuto, dependendo da cena. Então você tem sempre ver quais são as imagens importantes e quais você não vai usar, não na montagem, mas na filmagem, isso talvez seja a parte mais difícil do filme. Mas foi um filme muito bonito de fazer, com a Verônica e Gabriela, que são mãe e filha. Foi feito no apartamento delas, e é um filme que geralmente tem uma resposta. Algumas pessoas obviamente não reagem bem porque consideram o filme muito estranho, ou simplesmente não entram, não fazem parte. Mas quem entra geralmente entra e sai bem mexido do filme. É um filme que eu acho que é muito pessoal, porque, na verdade, durante o processo de montagem eu meio que entendi a minha atração pelo filme, e nesse sentido, eu estava colocando para fora algumas das coisas que eu senti na morte da minha mãe. Então isso foi um processo bem complicado pra mim durante a montagem.

E tem alguma relação com culpa também? A questão da menina que faz algo independente da ordem da mãe.
Essa é a interpretação que cada um tem, mas eu pessoalmente não acho que é um filme tanto sobre a culpa, eu acho que é um filme sobre processos impossíveis de serem mudados. A gente é o que é, e nós não temos como mudar isso. Então a vida faz com que você faça as coisas da maneira como elas são feitas, então por mais que a mãe fale "Não faça isso", a menina vai e faz. Eu acho que é uma questão de processo irreversível da vida, do tempo. Tem muitas interpretações, outro dia eu recebi um e-mail de um cara dizendo que o filme na verdade era sobre a proibição da maconha. Não sei muito bem o que dizer sobre um e-mail desses (risos), mas se funciona para ele dessa forma...

E sobre as críticas que você recebe: já recebeu alguma crítica que tenha te dado uma nova interpretação sobre a sua própria obra?
Eu ouvi na França uma interpretação interessante sobre o Eletrodoméstica, dizendo que era uma revisão do Madame Bovary (romance clássico de Flaubert, realizado por Claude Chabrol em 1991), e nunca tinha passado isso pela minha cabeça, mas faz total sentido, aliás sentido até de que é uma versão moderna do Madame Bovary, porque o amante dela seria uma máquina. Mas eu não sei, tem críticas inteligentes positivas que são as melhores, tem críticas burras e positivas que são indiferentes, tem críticas inteligentes e negativas e tem críticas negativas que são estúpidas. Teve uma no festival de Brasília que, para falar bem do Noite de Sexta, o cara decidiu falar mal do Vinil Verde: "Dois anos depois de mostrar o trash ridículo Vinil Verde, ele vem agora com um filme realmente bom", alguma coisa assim. Você não tem nem como repudiar uma crítica dessas, porque ela é tão estranha que ela bate e volta. Mas até agora eu tenho que admitir que eu fui mimado pela recepção dos meus filmes, as críticas negativas foram mais nesse sentido. Porque acho que o grande medo do cineasta é ele ver uma crítica negativa com a qual ele concorda e ele diz "Caralho. Tirou minha roupa aqui". Isso até agora não aconteceu comigo não.

E a questão dessa narrativa que você usa, uma narrativa que não é tradicional, ela segue o acaso?
Isso é um problema, não um problema para o filme pronto, mas um problema prático para o realizador que está submetendo o roteiro para um edital, por exemplo. O Eletrodoméstica passou oito anos no inferno dos editais sem nunca ser selecionado. Uma vez eu tive o retorno de uma pessoa que estava em um edital (não ela assumindo qualquer culpa pelo filme não ter sido selecionado, mas ela me repassando o que falaram): "Eles disseram que não acontecia nada no filme". Isso para um roteiro é um pouco complicado, você fazer um roteiro que não tem uma história, sabe, uma história que numa sinopse você queira ver aquele filme, que é o mais normal. Mas, infelizmente, eu tenho um pouco de medo do longa nesse sentido, porque o longa são observações da vida numa vizinhança de classe média, então, eu até acho que as observações são interessantes, mas eu não sei se a norma dos editais vai passar como algo interessante, isso é um problema.

E você começando a fazer longas, pretende voltar ao curta-metragem?
Essa é uma pergunta boa, porque eu sempre me pergunto porque gente como Jorge Furtado, Beto Brant, que surgiram no curta metragem e passaram para o longa, nunca mais voltaram para o curta. E antes eu tinha uma defesa, e até criticava ou via isso com maus olhos, mas hoje eu entendo como funciona, porque uma coisa que você só entende quando você percorre todas as hierarquias do audiovisual, e quando você não percorre você não entende isso, porque você não consegue sentir isso, é que de fato existe uma série de castas, classes, dentro do audiovisual. É como eu te falei, nos anos 90 eu fiz vídeo e ninguém viu. Aí, na década de 2000, eu faço curta em 35mm e todo mundo vê, só que nada se compara a se ter um longa metragem em termos de exposição, porque os meus filmes são super bem sucedidos, mas eles ainda ficam presos no gueto do curta metragem, passa só no Canal Brasil, ou seja, dentro do universo do curta-metragem eles extrapolaram, foram para fora do Brasil em dezenas de festivais, mas dentro do universo do curta. Mas nada disso se compara à exposição que se pode ter com o longa metragem. É como se fosse uma droga que faz com que o cineasta não queira mais voltar para o curta, porque o curta, é o que eu disse, não se compara em termos de retorno, e satisfação pessoal de ter seu trabalho visto. Isso que eu tô começando a entender agora, é complicado para um cineasta, porque fazer um filme é muito difícil. Você precisa de muito tempo e dedicação e, se você fica num curta-metragem durante seis ou sete meses, de repente ele não será visto. Agora, ao mesmo tempo que eu falo isso, o Eletrodoméstica e o Vinil Verde tiveram muito mais exposição do que vários longas. Isso é triste, quer dizer, é bom pra mim, mas é triste pra muitos diretores. Mas, de qualquer maneira, não sei responder se uma vez fazendo longa, eu vou voltar ao curta, eu espero que sim. O curta-metragem é bem mais acessível do que um longa. Informalmente, há uma noção que eu não acho errada, de que é interessante você fazer curtas até para exercitar seja lá que talento você tem. E caso você não tenha talento, e tenha bom senso, o que obviamente não acontece (riso), é interessante você dizer "Ok, eu não tenho talento, vou partir para produção, ou para fazer qualquer outra coisa". O curta, para mim, é tão importante quanto um longa, mas existe uma hierarquia de não ver as coisas assim. Então tem que ser prático. É claro, aquele filme que eu falei, o La Jeteé, é um filme mais conhecido do que milhares de longas que tem por aí, é um filme importantíssimo. Pra mim alguns longas deveriam abrir para alguns curtas. Mas tem o outro lado, o lado de hierarquia.

Só para finalizar, o que você tem a dizer para essa fornada de jovens que está chegando com o cinema digital? Talvez um conselho que você gostaria de ter ouvido quando estava começando.  Eu acho que cada um tem que fazer o filme que... eu acho inclusive que estamos superando uma certa frase, que ouvi dez anos atrás numa reunião, uma coisa pavorosa, naquela época eu já tinha noção de quão pavorosa foi aquela coisa que eu ouvi. O cara estava falando que ele tinha um roteiro sobre a paixão que ele tinha pela prima dele, mas ele na verdade ia colocar no próxima edital um roteiro sobre maracatu, porque disseram que tinha mais chance de ganhar, e eu achei isso pavoroso. Falei pra ele: "Não faça isso não, eu quero ver o filme sobre a sua prima. Maracatu já tem quarenta outros documentários aí na televisão, é muito improvável que você vá acrescentar qualquer coisa de novo em relação a isso". Eu acho que cada um tem que fazer o filme que precisa fazer, sem pensar nas modas e nas tendências e nas questões de editais. Eu acho que isso está acabando aqui no Recife, pelo menos na coisa dos editais. Em 97 eu fiz um filme chamado Enjaulado, e era um filme totalmente urbano, mas as pessoas reclamaram que, em vez de fazer um filme de folclore, eu vou fazer um filme em apartamento. Ou seja, eu não acho que hoje em dia eu ouviria uma coisa dessas, o panorama já está muito mais diversificado, você tem filmes de interior você tem Baixio das Bestas... mas aí é que tá, o Baixio das Bestas e Baile Perfumado são filmes de interior, rurais, mas não são só isso, são outra coisa. E aí tem alguma coisa aí que dá um twist, que faz o filme interessante. Mas de qualquer forma a diversidade está muito saudável aqui e foi conquistada aos poucos, ao longo desses dez anos.

TRAILER DE CRÍTICO - http://www.youtube.com/watch?v=SDbgFqLyr4U
Por Gustavo Serrate - cineasta81@gmail.com - www.youtube.com/cineasta81

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