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Expectativas em torno da implantação do cinema digital

Por Guilherme Whitaker em 08/11/2004 10:39


Expectativas em torno da implantação do cinema digital
Autor: Carlos Ebert 



                                                                      
Alguns acontecimentos recentes deram início às discussões entre nós das normas (International Standards ou Recommendations) da International Telecommunication Union (ITU antiga CCIR), que irão orientar à partir de 2004, a implantação do cinema digital. 

Uma observação do que vem acontecendo nas discussões a respeito da escolha do padrão de transmissão da TV digital no Brasil, deixa todos os envolvidos na industria audiovisual preocupados com a possibilidade de que também com relação às normas regulamentares do cinema digital, um impasse nas decisões venha a se configurar.

Entretanto a natureza do problema é bem diferente. Se na transmissão da TV digital existem três sistemas concorrendo (norte americano (ATSC), europeu (DVB-T) e japonês (ISDB-T), no cinema digital pretende-se chegar a um único padrão a ser homologado mundialmente pela ITU.

O próximo encontro da ITU acontecerá de 19 a 25 de março de 2003 em Genebra, e ao contrario do que aconteceu no encontro deste ano onde só as entidades ligadas à televisão brasileira se fizeram presentes, deverá contar com representantes de entidades ligadas à industria cinematográfica e a Agencia Nacional de Cinema (ANCINE ).


Com o objetivo de conhecer e discutir os aspectos científicos, tecnológicos e artísticos envolvidos nesta escolha - crucial para a continuidade já num futuro próximo da atividade audiovisual entre nós - , a Associação Brasileira de Cinematografia (ABC), constituiu um grupo de trabalho interno (GT Digital) com os objetivos de: Entrar em contato com as entidades aqui e no exterior, que estão trabalhando na elaboração das normas, e sempre que possível, associar-se as mesmas. Examinar toda a documentação disponível à respeito, classifica-la e indexa-la. Elaborar uma avaliação das propostas que serão encaminhadas a reunião da ITU em 2003. Redigir um relatório com suas conclusões para ser encaminhado à ANCINE e demais orgãos governamentais competentes, às associações representativas da indústria audiovisual e a sociedade civil em geral.

Paralelamente, estamos participando juntamente com a Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão (SET), de um grupo de trabalho instituído e instruído pela Society of Motion Picture and Televison Engineers (SMPTE) para acompanhar os trabalhos do Comitê DC28.4W SMPTE (Digital Cinema Working Group).
Num futuro próximo, estaremos firmando um protocolo para formação de um grupo de estudos sobre Cinema Digital junto à Secretaria de Assuntos Estratégicos da Agencia Nacional de Cinema (ANCINE)


"Cinema digital é um novo serviço que aplica as mais avançadas tecnologias da televisão ao mundo da cinematografia. Ela simula o cinema convencional (projeção de filmes em telas gigantes para grandes audiências) usando as tecnologias que a televisão de alta definição (HDTV) aportou. O objetivo é atingir pelo menos a qualidade do filme 35mm tal como é projetado nos cinemas em todo o mundo". Doc. 6/148 da ITU

Esta definição de cinema digital adotada pela ITU encerra ao menos aparentemente , uma contradição em termos de qualidade técnica, já que as tecnologias atuais de HDTV não atingem ainda os parâmetros estabelecidos para a projeção de filmes na bitola 35mm.
Os parâmetros a serem considerados para o estabelecimentos das normas futuras abrangem os seguintes aspectos: resolução , distância do espectador à projeção, colorimetria, contraste e luminância, estabilidade e movimento.

As Normas e Recomendações serão estabelecidas para todas as etapas da cadeia ou seja: captação, edição, masterização (codecs, sistemas de compressão etc), encriptação, transmissão, armazenamento e projeção (projetores, telas áudio etc,).

O detalhamento de cada uma das etapas segundo o documento preliminar da ITU ("General reference chain and management of postprocessing headroom for programme essence in D-cinema applications.Document 6-9/27(Rev.2), Annex 10 (source: Document 6-9/TEMP/6(Rev.1)) Considera e define as seguintes etapas:

* Aquisição - onde imagens e sons são transformados em duas representações digitais. As entradas nesse bloco consistem em estímulos luminosos e sonoros. As saídas são sinais digitais essenciais de áudio e vídeo.
* Pós-produção - onde estes sinais digitais essenciais de áudio e vídeo são processados para produzirem um master finalizado da obra de acordo com o intuito criativo dos autores. As entradas deste bloco consistem nos sinais digitais essenciais de áudio e vídeo. A saída é o master finalizado.
* Distribuição - onde os sinais da obra são codificados, multiplexados e modulados com vistas ao seu envio aos usuários do cinema digital. As entradas deste bloco consistem nos sinais digitais provenientes do master finalizado. Suas saídas são os sinais codificados, multiplexados e modulados que alimentam as apresentações.
* Apresentação - Onde os sinais digitais provenientes do master finalizado são transformados em estímulos luminosos e sonoros apresentados a audiência. As entradas deste bloco são os sinais recebidos via distribuição. Suas saídas sãos os estímulos visuais e sonoros apresentados a audiência.

Todas as entidades presentes concordam em linhas gerais com esta categorização. As diferenças surgem quando se trata de definir os parâmetros de resolução , distância do espectador à projeção, colorimetria, contraste e luminância, estabilidade e movimento.


David Reisner, assessor da American Society of Cinematographers (ASC), a entidade que reúne os diretores de fotografia que atuam na industria cinematográfica norte americana, fez algumas considerações sobre o que viu e ouviu na reunião da ITU realizada em Genebra de 7 a 20 do corrente ano (Reisner e Mattieu Sintas da delegação francesa, eram os únicos representantes ligados ao cinema. Todos os restantes estão ligados à TV. O Brasil esteve representado pela TV Globo e pela SET)

" Os Estados Unidos entendem que os padrões e normas para a exibição cinematográfica devem ser desenvolvidos juntamente com a industria cinematográfica mundial e não pela ITU. Os franceses acreditam que devam ser estabelecidos pela ITU como forma de preservar a participação internacional. As demais nações assumem posições intermediárias."
" A HDTV ainda tem um nucleo de apoiadores, mas a ideia de que a TV de alta definição não tenha qualidade suficiente para cumprir os requisitos do Cinema Digital vem ganhando mais consideração."

" Existe um movimento em direção a adoção do padrão HDTV para conteúdos alternativos( esporte, teatro, eventos transmitidos ao vivo) mas não para filmes de longa metragem. Conteúdos alternativos certamente acabarão sendo veículados em HDTV. Em trabalhos anteriores a ITU desenvolveu alguns "perfis" - qualidade e custos inferiores para aplicações com menor grau de exigência como por exemplo teatro comunitário . Esta ideia pode ser aplicada ao cinema digital." ( o grifo é meu)

Nessa mesma direção vai a afirmação de Denis Kelly da Kodak : "Diante dos diferentes requisitos de idioma, a maior aceitação de propaganda no cinema, o interesse maior em cinema comunitário de alta qualidade e a necessidade dos cineastas locais e nacionais de encontrarem meios de levar seu trabalho às telas de cinema, o sistema da Kodak parece ser ideal para esse ambiente". (o grifo é meu)


As observações de Reisner e Kelly levantam uma questão de grande interesse para nós que não possuímos um circuito alternativo de exibição nas cidades medias e pequenas. A adoção de um padrão do tipo 1080 p ou 720p, rodando numa plataforma PC, com software tipo midia player acoplado a um projetor MMD de 3000 a 4000 Lumens, para exibição em pequenas salas é uma alternativa com ótima relação de custo benefício e com custo inicial e de manutenção relativamente baixos, que poderiam ser usados para a exibição longas de baixo orçamento captados em digital, curtas, programas experimentais etc.

Reisner segue com suas considerações:

" Outra organização de normas técnicas é a SMPTE. A SMPTE desenvolveu a maioria das normas e padrões usadas no 35mm. Seus membros são majoritáriamente norte americanos, mas ela é uma organização internacional. A SMPTE tem muito mais experiência e "expertise" no cinema do que a ITU. Seu trabalho com Cinema digital está sendo feito pelo grupo DC 28 que se reune mensalmente em Los Angeles e tem trabalhado ativamente... O DC 28 está trabalhando com resoluções de 1920x1080 até 3610x1536, espaços de cor similares ao do filme, bem como outros situados além do espectro visível, 10 e 12 bits por cor componente, bem como vários esquemas de compressão, segurança etc... Os participantes do DC 28 são majoritáriamente fabricantes de equipamento, representantes dos grandes estúdios e grandes exibidores. Juntamente com alguns grupos de pós produção e cientistas especializados em cor , quase todos norte americanos. Existem poucas pessoas com conhecimentos de ciência e nenhum diretor de fotografia ou diretor com formação técnica."

Em sendo norte americano e representando a ASC, é natural que o Sr. Reisner defenda que as normas deva ser elaboradas pela SMPTE e apenas aprovadas pela ITU ( nosso grupo SMPTE/SET/ABC terá por objetivo formar eleitores para esta proposta?). Mas não se trata só disso. Mais adiante a estratégia exposta por Reiser ganha novos contornos.

" Os sete maiores estúdios norte americanos formaram uma companhia DCI (anteriormente NDC e antes disso Newco), para examinar e avaliar os padrões do cinema digital.. A DCI foi formada a poucos meses e ainda esta começando. Saberemos mais sobre eles com o passar do tempo."

Após pesquisar exaustivamente na internet, não consegui encontrar nenhuma informação à respeito da DCI, que certamente desempenhará um papel central na elaboração e aprovação das normas e regulamentos para o cinema digital.


Da parte dos fabricantes de equipamento algumas parcerias despontam com muita força para disputar o mercado. As duas mais importantes são as constituídas pelas empresas Kodak/JVC/IBM e Technicolor/Qualcomm /Boeing. Todos os sistemas existentes com exceção do da Kodak usam projetores da Christie Digital ou da Barco que usam o chip MMD (micro-mirror device) da Texas Instruments (TI) O MMD pode exibir no máximo uma imagem de 1280 x 1024 pixels.

A join venture da Technicolor/Qualcomm/ Boeing planeja instalar 1000 equipamentos de projeção digitais em 1000 salas escolhidas dentre as 37.000 salas existentes nos EUA. O consorcio está envolvido nos nove grupos do SMPTE DC 28 desde o início dos trabalhos e espera submeter sua tecnologia às normas do grupo até o final de 2003. Lembremo-nos que 2004 é a data limite estabelecida pela ITU para editar as normas internacionais. O consorcio lançou o Auditorium Management System (AMS) que usa um conjunto de discos de memória para armazenar o filme criptografado. Para ser exibido ele passa por um modulo decodificador que remove a encriptação e descomprime a informação relativa à imagem e ao som antes de envia-la ao projetor. Compressão utilizada: Adaptive Block Size Discrete Cosine Transform (ABSDCT). Encriptação utilizada: Triple-DES que é uma tecnologia certificada e utilizada pelo governo dos EUA e pela comunidade financeira há mais de 20 anos. Distribuição: DVD ROM.


O outro consorcio que já apresenta seus produtos para o cinema digital, é o formado pela Kodak/JVC/IBM. Com uma estratégia mais imediatista, o consorcio investe em duas frentes com o seu Kodak Digital Cinema Operating System: o cinema digital de alta resolução, encriptado que irá substituir o filme 35mm e um formato inferior aberto, para exibir o que eles chamam de pre-show entertainment, que inclui clips musicais, comerciais, traillers etc.

Segundo um release do consorcio, " O Kodak Digital Cinema Operating System (COS) inclui um mini-servidor e projetor para cada tela de um complexo de cinemas, além de um servidor principal para receber e distribuir informações. Tudo isto é conectado por uma rede de alta velocidade gerenciada por um software da Kodak, o qual faz a ligação de todas telas. Com o COS, o gerente do cinema tem um meio fácil e intuitivo de movimentar dados de imagem, incluindo anúncios antes da exibição, trailers e filmes digitais.

O Kodak Digital Cinema Projector inclui o software de gerenciamento de cores da Kodak e outra tecnologia de geração de imagem proprietária da Kodak. Seu coração é o novo chip D-ILA da JVC, de três milhões de pixels, que proporciona quase o dobro da resolução fornecida por outros projetores cinematográficos digitais atualmente disponíveis. O projetor inclui ainda a capacidade de lidar com decriptografia e um sistema de marcas d’água invisíveis."

O sistema para pré show, não encriptado , se utiliza de projetores de médio porte (3000 a 4000 lumens). Para ambos os sistemas podem ser utilizados na distribuição DVDs, Internet de banda larga, linhas terrestres de telefonia e transmissão via satélite.

Ainda Denis Kelly, Gerente de Operações Cinematográficas da Kodak na Europa, na África e no Oriente Médio, afirma que: "No final deste ano (2002), talvez haja cerca de 1.000 telas equipadas com projetores de baixo custo e redes", diz. "Isto é animador, porque permite que os donos de cinema comecem a aprender como usar sistemas digitais para criar maior entretenimento antes da exibição do filme. Mas é também desalentador, porque muitos desses sistemas são projetados apenas para o momento. Eles não atenderão às exigências do futuro. O sistema operacional de cinema digital da Kodak é à prova de futuro e escalável. Futuros aperfeiçoamentos dos projetores ou o acréscimo de mais projetores exigirão apenas uma mudança simples de software. A mesma rede e os mesmos servidores proporcionarão toda a capacidade e flexibilidade de que os cinemas necessitam no futuro."


Sem a definição das normas e padrões, toda a industria do cinema digital se empenha na difícil tarefa de "navegar enquanto constrói o barco" . Por isso o conceito de escalabilidade desempenha hoje um papel fundamental . Só os sistemas que puderem evoluir com baixa obsolescência serão atrativos para distribuidores e exibidores. Acredito porém que a escalabilidade qualquer que seja seu grau, não significará o abandono da proposta de dois níveis de qualidade/tamanho da sala. Como nós, criadores de imagem e som, nos posicionaremos frente a este cenário é uma questão delicada e complexa. De um lado queremos o máximo de qualidade para a imagem e o som da obra cinematográfica digital , do outro ambicionamos ampliar a exibição nacional, diversificando e democratizando o acesso ao cinema projetado.

O equilíbrio entre os interesses da industria transnacional de hardware e software, das "majors" norte americanas, do resto da industria audiovisual mundial e de nós, usuários primários das novas tecnologias, é delicado e acreditamos que a ITU seja o fórum ideal para o debate e a aprovação da normas e regulamentos para o cinema digital, prevista para 2004.

Publicado originalmente no site da Associação Brasileira de Cinematografia



E-mail do autor: ebert@dialdata.com.br.


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