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Festival dá calote em dúzias

Por Guilherme Whitaker em 29/11/2001 14:31


Festival dá calote em dúzias
Festival Terra em Foco, desfocado, completa um ano sem pagar os filmes vencedores e os jurados - CONTAG diz ter entrado na Justiça e UNESCO desconhece sua participação no evento
 


Há um ano o Terra em Foco 2000 - Festival CONTAG de Cinema e Vídeo, terminava com toda a pompa de um evento orçado em R$220.00,00. Mas o foco perdeu-se totalmente com o passar dos ventos e com o não cumprimento do que acordado estava com jurados e vários prestadores de serviço. O maior rombo, no entanto, ficou para os artistas que se animaram em exibir seus filmes no evento e que ganharam (mas não levaram) os prêmios prometidos. Em valores de hoje o total da filhadaputagem alcança mais de cem mil reais, porque a despeito da lenda de que não há mais inflação neste país, quase tudo aumenta de preço e de um ano para cá o que valia 10 sem dúvida passou a valer, com sorte, 12.

Tal festival aconteceu entre 24 e 27 de outubro de 2000 em Brasília e teve, entre 50 filmes curtos e longos, shows com Zezé Motta, Marcos Valle, etc. Tais artistas foram pagos, certamente porque são famosos. Já os realizadores, os verdadeiros artistas - porque se tratava de um festival de cinema e não de música - até hoje não viram a cor do tutu que seus filmes fizeram por merecer. Dos jurados, apenas o ator Stepan Nercessian recebeu o cachê de R$3.000,00, isso depois de ameaçar entrar na Justiça. A UNESCO, por exemplo, oferecia um prêmio de R$10.000,00 para o melhor curta-metragem, vencido pelo filme ´Passadouro`, de Torquato Joel, que, cansado de insistir por meios orais, acaba de entrar na justiça para que esta resolva o caso.


Foto do filme ´Passadouro`, de Torquato Joel,
um dos lesados pelo Festival.

Outro realizador lesado, Penna Filho, vencedor do melhor vídeo educativo com o filme ´Fendó - Tributo a uma Guerreira`, comenta:
´Estou indignado. Nem tanto pelo troféu ou pelo dinheiro, mas pela forma como o promotor do evento, a Contag, e a "responsável" por sua execução, a Vitória Multimeios, e a sua titular, a senhora Jô de Abreu, se comportaram até agora, decorridos mais de um ano da divulgação da premiação. No início quis acreditar, confiei no argumento da Vitória Multimeios de que estava aguardando o repasse do dinheiro, "porque a Unesco não havia ainda pago o prêmio". A argumentação utilizada simplesmente responsabilizava a Unesco... Na verdade, deveria desconfiar imediatamente, porque apenas por uma feliz coincidência fiquei sabendo da premiação, aproximadamente uns 10 dias após o resultado: o editor do documentário, Argemiro F.de Almeida me telefonou cumprimentando pelo prêmio. No fim de novembro (de 2000) voltei a ligar. A desculpa foi outra: o PRONAF não havia pago (pasme: Pronaf é aquele programa do Ministério da Reforma Agrária que promove pequenos empréstimos para a agricultura familiar! Mesmo que possa ter uma relação com a Contag não vejo plausibilidade!). Em março de 2001 formalizei ofício ao presidente da Contag, quando disse estranhar o comportamento da organização do evento, que até aquela data não apresentava uma justificativa para a não entrega da premiação, quando a praxe era enviar comunicação aos vencedores que não estavam presentes bem como providenciar a remessa dos prêmios. Enviei cópia também para a Vitória Multimeios. O mais lamentável é que ninguém me respondeu. Antes, tinha dúvidas. Hoje, suspeito firmemente que houve malversação do dinheiro. No mínimo, essa Vitória Multimeios não agiu corretamente. O silêncio, somente rompido por insistência nossa em busca de uma justificativa plausível, é comprometedor. Acho que a Contag e a Vitória Multimeios só vão se coçar se houver pressão séria.`


Na tentativa de apurar o que aconteceu, acontece e acontecerá, o Curta o Curta ligou diversas vezes para diversas pessoas de diversas cidades brasileiras, como Sampa, Brasília, Porto Alegre e Paraíba. Tanto esforço para descobrir que tudo segue da mesma forma que há seis meses, quando o Correio Brazilense publicou matéria sobre tal falcatrua, dando nome aos bois envolvidos. As mesmas pessoas da produção do festival foram novamente procuradas e disseram (quando foram achadas) as mesmas coisas de antes, cada qual jogando a batata quente adiante, com promessas de que no final a justiça vai ser feita, mesmo que o mundo acabe antes.

Na CONTAG (Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura), depois de várias tentativas, falei com o próprio presidente da entidade, sr. Manoel dos Santos, que confirmou toda a confusão, dizendo ser a culpa da Vitória Multimeios, produtora do festival, que já teria sido acionada na justiça. ´Foi tudo muito estranho porque tal evento foi a quarta edição, as três anteriores foram feitas pela mesma equipe e com a mesma premiação, e dera tudo certo...`, disse o presidente. Ainda segundo ele, a CONTAG estaria procurando os lesados para negociar as dívidas e que a maior dificuldade é saber qual o exato valor do rombo e quem de fato não recebeu, porque a citada produtora não prestou contas das 220 mil moedas usadas para fazer a festa, ou melhor, o festival, ou melhor, o rombo. A CONTAG acusa a produtora Joaniza Abreu de ser a (ir)responsável pelo desfalque. Através da Vitória Multimeios a citada criatura teria recebido as milhares de moedas para fazer tal evento, que foi feito, porém não conseguiu arcar com as dívidas relacionadas à premiação e cachês dos jurados e outros prestadores de serviços. O Curta o Curta tentou achar Joaniza Abreu mas ela não foi encontrada mesmo.

Já na UNESCO conversei com a assessoria de comunicação, que pediu alguns dias para apurar porque a diretoria havia mudado e tal. Dias depois disseram que absolutamente nada encontraram relacionando tal evento à Unesco, um verdadeiro mistério. Mas na regulamento do evento, que tenho em mãos, estão dois prêmios da Unesco, 10 mil para o melhor curta e 10 mil para o melhor longa.

Torquato Joel, outro cineasta lesado, comenta:
´Minha impressão é que isso tudo é um desrespeito ao realizador. O maior absurdo é saber o resultado através da comissão julgadora pelo absoluto conhecimento pessoal. Guido Araújo, diretor da Jornada Internacional de Cinema da Bahia, me ligou depois informando que eu tinha ganho o prêmio de curta. Se não até hoje eu não saberia. Passei a ligar para a coordenação do evento e aí começou um longo período de enrolações: sempre a tal moça estava saindo para pegar a grana e repassar aos realizadores. Necas!`

A despeito do que disse o presidente da CONTAG, de que estava a negociar com os lesados os valores das dívidas, tanto Torquato Joel quanto Penna Filho confirmaram que não foram procurados.

Por Guilherme Whitaker.


Saiba todos os lesados pelo Terra em Foco 2000 - Festival CONTAG de Cinema e Vídeo.
Melhor vídeo produzido nos assentamentos: Camarazal, de Paula Reis
Melhor vídeo documentário: Pés na Estrada, de Anderson Leandro
Melhor curta-metragem: Passadouro, de Torquato Joel
Melhor vídeo institucional: A Importância da Floresta, de Kátia Picheli
Melhor vídeo educativo: Féndô, de Penna Filho
Melhor diretor: Márcia Paraíso por Ocupar, Resistir, Produzir
Melhor roteiro: César Teixeira por Filho de Odália
Melhor fotografia: Waldir de Pina por Retrato Primeiro
Melhor trilha sonora: André Moraes por Terra de Deus


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