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Festival Universitário 2004: a família, o contato com o outro, uma distância afe

Por Guilherme Whitaker em 08/08/2004 18:13


                                                               Festival Universitário 2004: a família, o contato com o outro, uma distância afetiva

                                                                                                         por Marcelo Ikeda







É impossível escrever um texto que abranja a diversidade estilística e temática dos 35 curtas deste Festival Universitário. Este é, então, um recorte, um olhar sobre a produção universitária apresentada este ano a partir de sete filmes essencialmente narrativos que falam do tema da “família”, de uma “perda afetiva”, ou do “contato com o outro”. A partir de uma visão sobre os conflitos do relacionamento humano, suas semelhanças e diferenças apontam para uma série de características dessas produções.



* * *



Como jovens são os realizadores (em geral) do Festival Universitário, seu olhar sobre o tema “família” não deixa de refletir sua condição particular: o olhar da juventude cruza com o olhar do outro, para, a partir de suas diferenças, traçar uma espécie de retrato de diferentes gerações. Noite de Sol, como o próprio título já propõe, apresenta um retrato da diferença, de como duas pessoas muito próximas percebem que estão absolutamente distantes. Um pai e uma filha vivem sob o mesmo teto, e só os dois dividem a casa (o que é muito sintomático: a figura da mãe ou dos irmãos desaparece, como um exercício de contenção dramática). A primeira cena do filme apresenta a diferença entre as gerações através do diálogo e da ausência do olhar, mas a cena seguinte avança um pouco mais. Na mesa de café, a diferença é visível: o ritmo do cotidiano do pai e da filha é absolutamente diferente. Enquanto o pai lê sossegadamente o seu jornal e come torradas, a filha, num ritmo alucinado, recarrega a carga da bateria de sua câmera, faz o lanche, e outras mil e uma coisas nesse breve intervalo. Não se precisa de psicologia ou de vitimização: a diferença é intrínseca às gerações, faz parte do rumo natural das coisas.



Mas Noite de Sol procura um contato, e o pai percebe esse abismo a partir de uma distância física, quando a filha viaja para o Nordeste. Mais ainda: essa súbita proximidade se dá através da mediação de uma câmera de vídeo, a partir das imagens captadas pela filha em sua inseparável câmera. Esta é a intimidade que a realizadora confere ao filme: o registro concreto (são simples imagens de um pai e uma filha num café) torna-se sinal de transformação, ou ainda reflexo profundo da condição interior da filha, agora distante. Nenhuma palavra ainda é possível (o contato do pai com a filha no telefone é marcado pelo constrangimento): uma barra de chocolate comprova a busca da realizadora pela inocência (ou por uma infância perdida) e, como se fosse um filme de Kieslowski, o filme se encerra com uma transformação: a filha finalmente sente, de longe, talvez pela primeira vez, o abraço afetuoso de seu pai.



A diferença entre gerações é tema de outro filme: Que Fazer? Mas dessa vez, o tema da família desaparece, e surge o contato com o outro. De um lado, um velho comunista amargurado; de outro, uma jovem meio punk. Em comum, uma idéia de crise: a proximidade da morte, ou do suicídio. Que Fazer? desenvolve o que esses dois personagens poderiam ter em comum, e o faz numa situação-limite, num diálogo à beira da ponte, quando a jovem quer impedir o velho de explodir uma ponte para que ela possa cometer suicídio (??!!). A situação-limite é trabalhada pelo diretor numa concepção de geografia, filmando em locação, em uma ponte sobre um rio, e explorando a partir da posição dos dois personagens no quadro, sua situação em meio às duas margens: duas faixas de concreto e de carros, e entre elas, o rio. Nesse encontro desesperado, o diretor tenta acrescentar um humor sarcástico, algumas vezes com tiradas surrealistas ou de nítido escracho (um sonho, um picolé). O mais curioso do filme é que o diretor parece ter a consciência de que seu filme se equilibra numa corda-bamba entre o drama realista e o quase patético, e explora essa condição tanto nos diálogos quanto na estrutura da própria narrativa. Isso faz o filme ter um olhar particular, com uma tentativa de tornar o filme mais leve ou menos amargo. Em vão. Em pequenos toques, há uma tristeza profunda, uma impossibilidade de resolver os conflitos, ou de os personagens verdadeiramente se ajudarem, pois seus mundos estão completamente partidos, seja um ou outro. Ao final, uma explosão em off, a tela negra: a explosão em si é o que importa, ainda que não existam mais os personagens ou mesmo a geografia-limite.



Já Feito não para doer (o título é bem diferente de Feito para não doer) fala da perda de um ente da família, mas as informações que recebemos do filme nesse sentido são mínimas. É um filme sobre a dor da perda e do papel da memória. A partir de algumas fotos e de um reencontro, a personagem sente, e o filme acompanha sua revisitação de forma íntima. O fiapo narrativo que conduz o filme praticamente se rompe: o sentimento da perda floresce, e o realizador mergulha na repercussão da morte e no papel do reencontro. Ainda assim, o objetivo é um amaciamento, é um “a vida é feita dessas coisas”, e, ao final, há um final conciliador: um abraço. Mas não deixa de ser comovente e sensível: todo o trajeto do filme é em busca de um conforto, de um abraço de conforto, e se o realizador se sente satisfeito com isso, não é pouco: coroa a busca de um cinema de climas e sensações.



O outro lado da moeda é o tenso O Lençol Branco. Aqui também se fala de uma perda, e o ambiente familiar retorna: a mãe perde seu filho, quase recém-nascido, asfixiado pelo leite. Mas a grande visão de cinema dos realizadores é o tom ao mesmo tempo mórbido e íntimo que surge “naturalmente” (claro, “naturalmente” com grande trabalho da direção...) do filme, que brota desse dia-a-dia. O estilo dos realizadores é absolutamente descritivo, mas com um olhar assustadoramente atento aos menores detalhes: é a pequena bomba de sucção do seio para que o leite não seque, é um copo d´água, é uma mancha de leite na manga de uma camisa. O filme vai se tornando cada vez mais mórbido, obsessivo, asfixiante: é absolutamente impossível tolerarmos o “lençol branco” na sala, sem que ninguém o retire. Mas, cada vez mais, o filme se torna assustadoramente humano: o drama e o desespero mudo dessa mãe crescem à medida que se descreve o vazio dos momentos após o incidente, e essa proximidade claustrofóbica quase sufoca o espectador. Aqui, o filme se aproxima de O Sol Alaranjado, mas os realizadores, no final, mostram que seu trabalho é também da construção de uma atmosfera ambígua, que eles levam até o limite. O final revelador, mais que artifício de roteiro, prossegue nesse limite entre o mórbido e o lírico, retrato monstruoso mas ao mesmo tempo profundo reflexo de ternura e de saudade, de uma tentativa ultra-humana de matar uma saudade, de afastar uma distância, e de concretizar uma memória perdida.



O antípoda do clima tenso e mórbido de O Lençol Branco é o corrosivo Nossos Parabéns ao Freitas. Esse “pseudo-filme-trash” extrapola a relação da família de forma aguda: o filme se passa no dia de aniversário de Freitas, pai de família frustrado, ex-“come-cu-de-putas”. O aniversário é a prova cabal de sua falência, de sua imbecilidade. Todos no filme são completos imbecis, e a direção assume suas impossibilidades (inclusive de produção) de tal forma que o filme se revela uma grande farsa, uma típica comédia de costumes, ou ainda uma auto-ironia. A família torna-se símbolo da mediocridade e da crise do indivíduo. A filha de Freitas vai ter o mesmo destino das “putas” que Freitas conhecia em sua juventude. “Mas minha filha não! Minha filha não pode dar o cu!” – berra o desesperado conservador machista Freitas. Nada mais pode ser feito, e o filme ri de si mesmo, ri de sua impossibilidade.



O tema do outro ressurge no narrativo A Lâmpada e a Flor. Numa beira de estrada, o contato com o outro é revelador. De um lado, o dono de um quiosque em que se aluga uma mulher tão quente que seu sexo pode acender uma lâmpada; de outro, um viajante. Não há propriamente uma dramaturgia: o contato entre os dois mundos é completamente artificial, e a tal luz da lâmpada não é nenhuma magia ou truque. A mulher parece um robô: sua única reação negativa é para quem verdadeiramente lhe quer (o humilde vendedor de cocos). Dessa carência afetiva, dessa distância não resolvida pela dramaturgia, surge o filme, com suas pequenas qualidades e seus defeitos.

A carência afetiva, a impossibilidade de resolver uma distância é o que está por trás de Morango com Limão, aparentemente uma simples e despretensiosa comédia, ou quase um filme-piada. Não deixa de ser isso, e esbarrar em vários lugares comuns, mas apresenta seu olhar em relação ao outro através da eterna dissociação entre “o sucesso no amor e nos negócios”. Um rapaz que trabalha fazendo sucos numa lanchonete encontra o “grande amor de sua vida” quando uma menina pede a exótica mistura de Morango com Limão. A partir daí, o atendente parte numa busca obsessiva pelo seu amor, e acaba, meio sem querer, lançando uma moda no verão, e abrindo um verdadeiro negócio. Mas acaba infeliz, sem o seu amor. Por isso, a grande chave do filme é um diálogo típico, quando um “orelha” do protagonista diz “Acho que você precisa encontrar um amor. Um amor de verdade.” A chave aqui é o “de verdade”, que revela uma possibilidade de leitura mais ampla (assim como um bêbado que passeia pela filme e que lhe pergunta “qual é o sabor do amor?”): a bela menina representa o desejo inacessível de cada um de nós, a busca pela felicidade ou pelo amor, a busca pelo indizível. O perplexo Pepe é como o espelho de um Forrest Gump: passa alheio aos problemas do mundo, e sua inocência acaba paradoxalmente trilhando um espaço num mundo competitivo e materialista. Mas o diretor é romântico, e o mundo de Pepe e do verão carioca é repleto de cores vivas e de um gesto de consolo. Mas ainda assim o contato com o outro é impossível: o único contato de Pepe com sua misteriosa amante é através dos cartazes, das modas que provavelmente irá lançar ao longo dos próximos verões. Daí surge uma outra leitura: o processo de criação (ainda que quase uma marca publicitária) decorre da paixão, do desejo do intangível. Morango com Limão não deixa de ser um espelho partido do artista frustrado com as necessidades do mundo, ou ainda o filme de um desencantado publicitário cujo grande sonho é poder fazer cinema.



Elogio da Polaina é ainda menor, mas aqui o olhar do outro é muito mais humilde, e daí que o filme convence em sua honestidade. Exercício adolescente, de um filme feito por adolescentes sobre esse universo, Elogio da Polaina começa com um “amasso” dentro de um carro, um súbito encontro amoroso, para se revelar completamente falso: a idéia principal do filme é exatamente mostrar a carência afetiva de três jovens de opção sexual diferente: um homem que gosta de homens, uma mulher que gosta de mulheres, e uma mulher que gosta de homens. Os três personagens se encontram numa ponte, numa noite sombria e fria, o que nos remete ao encontro de Que Fazer? Mas dessa vez os jovens são iguais: suas necessidades são as mesmas, e a naturalidade com que a direção aborda o mundo dos três jovens convence, apesar de nitidamente estar imerso na precariedade de um primeiro contato com a direção.



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Qual é a família que se busca? Qual o contato com o outro que se trava? Crise, dor, morte, saudade, mundos iguais e diferentes, sexo, reconciliação, auto-ironia, poesia, memória, ausência: os jovens realizadores desse Festival Universitário, cada qual a seu modo, nesses sete filmes, apresentaram sua própria versão da descoberta – feliz ou infeliz – de que o mundo é também feito de pessoas, e a partir desse contato, se dá a instância transformadora em que se sustentam os filmes.



Marcelo Ikeda

07/06/2004


Curtas Analisados:



Noite de Sol, de Marcela Arantes

Que Fazer?, de André Luiz de Luiz

Feito Não Para Doer, de Caetano Gotardo

O Lençol Branco, de Juliana Rojas e Marco Dutra

Nossos Parabéns ao Freitas, de Felipe Sant´Ângelo

A Lâmpada e a Flor, de Pablo Ferreira

Morango com Limão, de Adolfo Sarkis

Elogio da Polaina, de Marco Aurélio Sanchez

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