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Homenagem a KEUKEN na Mostra Livre 2005

Por Guilherme Whitaker em 26/01/2005 12:59


MFL homenageia documentarista holandês com inéditos e debate





Confira aqui a entrevista com JOHAN VAN DER KEUKEN (por Contracampo)
Leia o artigo ´UM MINUTO DE SILÊNCIO… E RUÍDOS`



JOHAN VAN DER KEUKEN: CIDADÃO DO MUNDO
Por Bernardo Carvalho 

Se hoje, como há décadas, não há matéria condutora mais adequada ao provincianismo e à intolerância do que o cinema e a TV, uma retrospectiva dos filmes de Johan van der Keuken (1938-2001) se apresenta como antídoto eficaz contra as vicissitudes mais ordinárias do mercado audiovisual: o formato consagrado, o reconhecimento fácil, o teatrinho naturalista de quinta categoria... Cineasta, fotógrafo, crítico e ensaísta, Keuken foi, antes de tudo, um cosmopolita, alguém que, através de uma obra prolífica e influente, investiu na pluralidade e na participação como idéias centrais e fundamentais na elaboração de quaisquer projetos de renovação estética, política, filosófica. Podemos dizer que a experiência Keuken nos conduz à duas percepções básicas: a de uma realidade essencialmente aberta ao novo, ao estranho e estrangeiro; e, simultaneamente, a um comportamento ativo do ponto de vista do espectador. Se hoje a “grande máquina” trabalha a todo vapor para afirmar “valores de mercado”, isto é, valores de comparação e discriminação, sob os quais cada um “vale o quanto pesa”, os filmes de Keuken nos levam a crer que o documentário pode transcender questões meramente intelectuais em direção a uma prática efetiva de transformação do mundo.

Aos dezessete anos, Keuken publicou seu primeiro livro de fotografias, Wij zijn 17 (Temos 17). Aos 62 anos, sabendo-se doente, realizou seu último longa metragem, De Grote vakantie (Férias Prolongadas) — que inclui cenas filmadas no Brasil, entre outros lugares do mundo. O paralelo é curioso: ambos conservam, sob diferentes aspectos, o pensamento poético-político expresso em toda a obra. Composto basicamente por retratos de sua irmã mais velha — em que, pelo espelho, ele se incluía no enquadramento — Temos 17 reporta um embrionário testemunho das questões e temáticas abordadas por Keuken: a dissolução do sujeito em meio à multiplicidade de perspectivas e valores; o questionamento – e até mesmo a negação! - das noções de individualidade e identidade, e portanto, a liquidação de qualquer pretensão puramente ‘documental’; donde o seu amor pela simultaneidade, a necessidade de compreender todos os valores, de participar de todos os lugares, e por conseguinte, o deslumbre diante do novo aparato de relações estabelecidas no bojo da revolução digital — pioneiro que foi na utilização de câmeras e processos de edição digitais.

E é neste sentido que Keuken manifesta uma atitude de constante desconfiança em relação ao termo “documentário”, segundo o qual um “autor” (no caso, o cineasta) interpreta unilateralmente o tema abordado, fornecendo ao espectador um panorama fechado, uma idéia previamente determinada. Esta característica de seu trabalho pode ser apreciada em filmes como Big Ben e Herman Slobbe: ambos retratam as peculiaridades de dois personagens muito especiais, mas não os caricaturiza, nem suprime as dificuldades e os defeitos. Ao contrário, sugerem ao espectador que anexe sua própria história à pequena estória ali contada, interagindo abertamente com o objeto focado. Keuken, portanto, não aborda simplesmente um personagem, uma situação, ou um assunto, como se o cineasta portasse uma verdade unívoca e inquestionável; ao contrário, seus filmes são sempre o retrato parcial de um encontro — parcial na medida em que não se pretende ao esgotamento. Eles nos remetem mais a um impressionismo poético-construtivo, que à necessidade de pura e simplesmente ‘documentar’. Ou, em suas próprias palavras (os grifos são meus):

“Alguém disse também sobre o filme de Ben Webster, que o filme era ruim, que não contava nada sobre Ben Webster (...) Depois viu o filme de novo e disse que era como no Museu de História Natural, você tem alguns ossos, algumas fotografias, e a partir disso você pode compor um ser inteiro. (…) É como uma arqueologia da mente (…). Então, ao invés do modo etnográfico, que é apresentar um máximo de detalhes sobre uma sociedade ou uma cultura, e dos detalhes construindo o todo... Aqui você tem apenas uns poucos fragmentos, você coloca-os juntos e você está ciente de todas as coisas que faltam, mas se você usa a imaginação, é o espaço entre elas...”   (Contracampo — Revista de Cinema, abril de 1999)

A arqueologia da mente é o trabalho de reconstituição que autor e espectador realizam através da imaginação: o processo criativo não está identificado exclusivamente com o trabalho do cineasta, mas também com o trabalho intelectual e criador realizado pelo espectador. Tal qual nos livros de Machado de Assis, onde o leitor é tragado pela estória a ponto de participar dela, Keuken nos estimula, através da disposição criativa das imagens e na amplitude das temáticas, à criar as condições de possibilidade para uma arqueologia da mente. Um dos filmes escolhidos para a homenagem, Aprendendo a ler, inédito no Brasil, é um bom exemplo do construtivismo conceitual e poético que reside no cerne dos filmes de Keuken.

Seja nos retratos-vivos (Blind Kind, Big Ben), seja nos documentos poéticos (Amsterdam Afterbeat, sobre as filmagens do memorável Amsterdam Global Village, e A moment’s silent, um de seus primeiros filmes), seja até mesmo em sua obra fotográfica, Keuken busca aproximar-se do tema de seus filmes com a naturalidade com que nos aproximamos de um colega. Mas isso não será efetivamente possível — visto que não há quem permaneça ingênuo diante de uma ilha de edição. O que nos leva a crer que, certamente, esta percepção o fez trabalhar em função de uma cinematografia essencialmente ligada às idéias de multiplicidade e participação. Em seus filmes, todos são vistos e participam, até o espectador, que ao invés de receber, como de hábito, um conteúdo pronto e acabado, é obrigado a maquinar as perspectivas apresentadas em função de uma maior compreensão. 


FILMES QUE PASSARÃO NA MOSTRA DO FILME LIVRE

Um momento do silêncio (Even stilte, 1960-63, Holanda, 10 min)   INÉDITO
Um dos primeiros filmes realizados por Keuken, um marco inicial de seu estilo particular. Even Stilte foi realizado pouco depois de Keuken terminar seus estudos no IDHEC, de Paris. É, portanto, um filme de juventude.

Herman Slobbe — Criança cega 2 (Herman Slobbe — Blind kind 2, 1966, Holanda, 29 min)
Segundo filme da série sobre crianças cegas, Keuken registra a vida de Herman Slobbe, um pré-adolescente raivoso e criativo.

Big Ben: Ben Webster na Europa (Big Ben: Ben Webster in Europa, 1967, Holanda, 32 min)
A paixão de Keuken pelo jazz é notória e rendeu ao menos um grande filme. Big Ben é o retrato do grande saxofonista americano, morto em 73.

Aprendendo a ler (Het leesplankje, 1973, Holanda, 10 min)   INÉDITO
Keuken subverte o método tradicional de alfabetização utilizado nas escolas — onde se ensina através de associações entre palavras e imagens — substituindo essas imagens por imagens do contexto social e político da época.

Amsterdam Afterbeat (Amsterdam Afterbeat, 1996, Holanda, 16 Min) INÉDITO
No fim de cada seqüência da obra prima de Keuken, Amsterdam Global Village, a câmera se volta para registrar o técnico de som Noshka van der Lely. 

A homenagem tem apoio do consulado Holandês
 


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