Incertezas sobre o futuro da Cinemateca do MAM ::  | Curta o Curta

Incertezas sobre o futuro da Cinemateca do MAM

Por Guilherme Whitaker em 11/06/2002 15:13


Incertezas sobre o futuro da Cinemateca do MAM 


É triste notar que o filme cultural e independente (não comercial) em nosso país perde espaço e voz na mesma proporção que os filmes estrangeiros dominam cada vez mais e mais as salas de exibição e os canais de tv, tudo como se fosse natural, tudo como se fosse o mais correto de ser feito, deixar os acervos apodrecerem, deixar as salas de cinema virarem igrejas ou agências bancárias. É desta forma que, nos últimos anos, os políticos cariocas têm tratado os filmes realizados em nosso país e, justamente por isso é que a situação chegou numa verdadeira sinuca de bico, quando todas as soluções são, além de difíceis e caras, complicadas politicamente de acontecerem com a urgência necessária, ainda mais num ano de eleições.

A situação da Cinemateca do MAM serve como um exemplo já clássico do descaso para com relação à nossa cultura: nas últimas décadas pouco ou nada foi feito ali para se preservar com uma mínima dignidade e zelo técnico o acervo das milhares de latas de nossa memória cinematográfica, um patrimônio cultural da humanidade na medida em que é um patrimônio cultural de nossa brasilidade, de nossa história enquanto nação com identidade e sotaques tão próprios quanto locais/universais. Este descaso para com a Cinemateca, que vem de longa data, agora chega em seu limite, forçando atitudes fortes e pragmáticas de pessoas e instituições ligadas ao cinema nacional, para que algo seja feito e ainda se consiga salvar este acervo de filmes e documentos.

Hoje o MAM, através de seu conselho, exige que todo o acervo de matrizes (os filmes originais) seja retirado até dia 31 de julho. Quer que saiam porque os filmes estão apodrecendo e o MAM não tem os recursos para as obras necessárias. Já a classe cinematográfica se articula (leia a ATA do encontro no final da página) e pensa em variadas atitudes, como entrar na justiça contra o MAM e sua pressa em se livrar dos filmes; ou retirar não apenas as matrizes dos filmes mas também todas as cópias e documentos, o que decretaria o fim da Cinemateca do MAM. Mas, para onde irião as milhares de latas de filmes? Seria criada uma nova Cinemateca do Rio? E como sempre, a incalável pergunta: quem vai pagar esta caríssima conta?

Ou seja, é uma situação limite e de difícil solução porque envolve muita gente, muito dinheiro e muita politicagem num ano eleitoral... Quem dança neste história toda é a cultura brasileira, cada vez mais massacrada por interesses externos e distantes de suas raízes, que ao invés de serem preservadas são jogadas no lixo através de ´não atitudes` das pessoas e instituições que têm ou teriam poder para reverter esta situação através do diálogo e não através de posições unilaterais ou arrogantes. Talvez falte interesse, talvez falte vontade, talvez falte vergonha ou visão do que seja o patrimônio cultural... isso porque, na hora de se anistiar exibidores que devem furtunas ao INSS é tudo fácil e rápido, já na hora de se investir na preservação e na difusão da cultura, da arte e da memória local é sempre difícil e demorado, para isso nunca há dinheiro nem vontade de encarar os problemas de frente, sem medo ou vergonha... Mas estamos no Brasil...

Temos, então e pelo menos, duas questões relevantes que, por sua vez, suscitam outras tantas, mesmo porque, como foi dito, são problemas antigos e que apenas cresceram ao longo dos últimos anos. A culpa tem vários nomes, são pessoas e instituições que, mesmo com poder (no caso do MAM e dos Governos passados) fizeram apenas questão de nada fazer, ou de fazer muito pouco ou de fazer errado. Uma vergonha que, finalmente, terá que ser, de alguma forma, reparada:

O maior e mais caro problema a ser solvido está no correto armazenamento do acervo das milhares de matrizes dos fimes, das cópias e dos documentos. Outro problema, mais simples e barato, está no bom e efetivo uso da sala da cinemateca para a difusão de filmes culturais.

Um paradoxo relacionado a todas estas questões é o fato de que cada vez mais filmes são produzidos em nossa cidade e em nosso país. São filmes culturais eou independentes, ou seja, filmes não comerciais, que não visam o lucro e que, talvez por isso, não interessem aos que lucram com o cinema. Por isso tais filmes culturais não possuem sequer UM espaço de exibição, ou seja, centenas de filmes são feitos e não conseguem ser exibidos. E olha que falo do Rio de Janeiro.


Por essas e por outras é que foi criado o Movimento SOS Cinemateca, que coordena um abaixo-assinado em http://web.archive.org/web/20040309102515/http://207.159.134.82/cgi-bin/miva/cinemateca/cinemateca.hts onde você pode dar seu recado e assinar...


O Curta o Curta apóia este e qualquer outro movimento que vise a reversão desta situação inaceitável para o Brasil e para o Rio de Janeiro.


Comente aqui...


Você precisa digitar algo na caixa de texto.
Não foi possível enviar seu comentário.
Informe um e-mail válido.
Você precisa informar um nome.
Você precisa digitar algo na caixa de texto.

Jornal do Curta




[confira outras notícias]