Leopoldo Nunes ::  | Curta o Curta

Leopoldo Nunes

Por Guilherme Whitaker em 08/04/2002 14:57


Leopoldo Nunes, cineasta presidente da ABD - Associação Brasileira de Documentaristas, fala da Política Cultural no Brasil de ontem e de hoje, diz porque não temos (não somos) uma indústria de cinema e explica o que é a nova Lei do Curta. 


                                  

Curta o Curta: O que é Cinema Cultural?

Leopoldo Nunes: A priori, qualquer produção cinematográfica é cultural. A diferença é que um tipo de cinema é produzido para atender à chamada indústria cultural, ao mercado de entretenimento. 95% desse mercado é ocupado por produções norte-americanas desde Hollywood, e 5% por produções brasileiras.

O cinema cultural é o cinema independente, que não se encaixa exatamente naquele modelo (90 minutos, ficção, grandes atores, médios ou altos orçamentos). O cinema cultural é autoral por excelência, ou seja, o autor escolhe o tema e como pretende tratá-lo. Isto não quer dizer que não queira se comunicar com o público. O cinema cultural tem como principais características a ousadia da experimentação da linguagem, a jovialidade, a diversidade temática e a revelação de novos talentos. Na Europa, principalmente, existe um grande mercado para o cinema cultural, mas seu principal papel é renovar o cinema e a linguagem cinematográfica.

CC: Conte um pouco da história da ABD e como ela se situa hoje no cenário da política cultural brasileira? Com quem ela dialoga?

LN: A ABD foi criada em 1973, durante a Jornada de Cinema da Bahia, para representar os interesses dos realizadores do cinema cultural independente (documentaristas, curtas-metragistas) junto aos governos (federal, estaduais e municipais). Foi criada para defender os realizadores perseguidos pela ditadura militar, e também para propor políticas públicas para o desenvolvimento do setor. O primeiro presidente da ABD foi o cineasta Aloysio Raulino, e fez parte deste movimento histórico Pedro Farkas, Guido Araújo, Silvio Da Rin, Hermano Penna, Sérgio Santeiro, Adilson Ruiz, Paulo Rufino, entre tanto outros. Quase todos os cineastas que surgiram após o cinema novo fizeram parte e atuaram pela ABD. Marisa Leão e Sérgio Rezende, Murilo Salles, Alain Fresnot, por exemplo.

Eu diria que a rica produção de curtas metragens das últimas décadas deve-se ao trabalho da ABD. Todos os concursos para curtas e documentários – seja dos municípios, dos estados ou do governo federal – saem a partir de batalhas da ABD, algumas delas quase sangrentas. Este é um aspecto.

Outra coisa é que, passando o bastão de geração para geração, acumulamos uma experiência em legislações, debates de legislações, propostas de legislações, capacidade de formulação de políticas públicas, que significa um amadurecimento na esfera institucional, que nos garante, hoje, em qualquer fórum ou comissão onde se define os assuntos do cinema. E nós somos todos cineastas, cada qual com seu currículo e sua obra, mas unidos pela certeza da necessidade da organização para garantir a existência do cinema cultural independente.

A produção se multiplicou, se regionalizou, e a ABD também. A ABD-Nacional reserva-se a cuidar exclusivamente das relações nacionais, como o Governo, o Congresso, ou o Convênio Nacional ABD. A ABD-Nacional representa os interesses das Estaduais.
Nos Estados, as formas de atuação se diferenciam de acordo com cada realidade. Hoje estamos organizados em 18 estados do país.

CC: Como estão as negociações sobre o retorno da famosa Lei do Curta? O que seria a Lei do Curta hoje?

LN: 95% das sessões cinematográficas no país exibem filmes norte-americanos. O impacto que este discurso tem sobre o imaginário do povo brasileiro, no sentido da afirmação dos valores norte-americanos no Brasil, é incalculável. Até o Ministro da Cultura do Brasil vive dizendo por aí que o cinema americano é o melhor do mundo.

Enquanto isso, uma legião de brasileiros se mata pra fazer um filme, e fazem 200 num ano, será que algo não está errado? Não é papel do governo do país legislar a favor do desenvolvimento da produção cultural do país? Não, esse governo prefere legislar a favor da rede Globo, ceder às pressões dos distribuidores americanos, dos bancos, etc.

A lei 6.281/75, a Lei do Curta, será objeto de uma Audiência Pública na Câmara Federal, no dia 22 de maio, com transmissão ao vivo pela Tv Câmara. Vamos debater com o governo, na presença de parlamentares e procuradores públicos, se a lei está ou não em vigor. A lei prevê que toda sessão comercial em que for exibido um filme estrangeiro deverá ser precedida pela exibição de um curta metragem brasileiro. Temos pareceres da Câmara e do Senado que atestam que a lei está em vigor. O governo diz que não está, baseado em parecer da Advocacia Geral da União, mas ele nunca mostrou esse parecer. Se a lei estiver em vigor e ficar provado que o governo não exigiu o seu cumprimento ele será processado pelo Ministério Público, além de faze-la cumprir imediatamente.


CC: Por que até hoje ainda não temos (não somos), de fato, uma Indústria de Cinema no Brasil? Esta industrialização é mesmo querida? O que ela seria?

LN: A industrialização é importante do ponto de vista do que o cinema pode representar para a soberania do nosso país. Somos um país de dimensão continental, como a China, a Índia, a Rússia e Estados Unidos. O Brasil é maior que a Europa. Portanto, temos uma diversidade cultural muito grande, e o cinema é arte de massas, que poderia representar o papel da integração nacional. Mas esta incumbência foi legada à Rede Globo, pelo regime autoritário instaurado através de golpe em 1964. A Rede Globo é uma empresa, tem um dono, e não representa a diversidade do país. Por mais que queira.
Uma indústria se dá com um conglomerado de empresas, em todos os ramos da atividade. Neste sentido, temos uma base pronta: algumas produtoras, empresas de serviço, de materiais, distribuidores e uma rede de exibição. O equipamento de publicidade é o que mais funciona. O que precisamos é apenas participar dessa economia, que está reservada, com a anuência do governo brasileiro, para os Estados Unidos da América. É o capital financeiro, especulativo, sobre o capital produtivo.

CC: Quais os paradigmas (se é que existe algum) que você usa para pensar a relação entre o Cinema, o Mercado e o Estado no Brasil de hoje?

LN: O paradigma é que o Brasil é um país vendido para os Estados Unidos.

Desde os anos 70, nas gestões de Roberto Faria na Embrafilme e Gustavo Dalh no Concine que se tenta discutir a inserção do cinema brasileiro no próprio Brasil. Os produtores querem, os fornecedores querem, o público quer. Quem não quer são as majors, as distribuidoras estrangeiras, e os exibidores. Estes, apesar de serem brasileiros, são capachos dos distribuidores. Porém, ganham dinheiro como água. Nesta balança, o governo brasileiro sempre pende a favor dos distribuidores estrangeiros.

CC: A ABD tem um Convênio Nacional com várias empresas do setor, o que é exatamente e como funciona este Convênio?

LN: É simplesmente a velha máxima: “unidos, descobrimos que somos muitos e que temos muita força”.

Um curtametragista sozinho tinha que penar pra conseguir bons descontos e, não raramente, era destratado por prestadores de serviços e fornecedores. De repente, calculando por cima os filmes previstos para 2000, cerca de cem, fomos negociar com os fornecedores em nome do coletivo. “Quanto vc dá de desconto pra um curta? E pra cem curtas?”, é diferente, percebe. Conseguimos descontos de 75%, 60%, 51%, que permitem uma economia real de até 40% no orçamento de um filme.

O Convênio fez um ano, e participamos, até agora, de 70 filmes. Não fizemos qualquer propaganda, nem um folheto, infelizmente, e a coisa rolou através das ABDs, nos Estados, demonstrando um fortalecimento motivado pela ação prática, os realizadores viram o resultado.

A força que representa a volumosa produção de curtas no Brasil é muito grande. A quantidade de pessoas que estes filmes empregam (estudantes, técnicos, atores, ajudantes, contadores), o uso das empresas de serviços (laboratórios, finalizadoras), os impostos, etc, somados, representam um dos mais importantes segmentos de produção audiovisual do país. Estimamos que mais de 200 filmes foram realizados entre 2.000 até o início de 2.001.


CC: O que você acha do Projeto Petrobras Cinema e o que achou deste último edital do MINC?

LN: Este edital do MINC foi arrancado na marra, após uma grande mobilização política. Dezenas de faxes foram encaminhados ao Ministro da Cultura e ao Secretário do Audiovisual protestando contra seu adiamento. Ele veio sob pressão, com exigências autoritárias. Mas conseguimos algumas coisas, como a inscrição por pessoa física.

É lamentável a postura do Secretário do Audiovisual, de tentar nos isolar. Poderíamos ter feito muitas coisas conjuntamente, já que oferecemos toda a base para se praticar uma boa política para o audiovisual. Sinalizamos de todas as formas, em cartas explícitas, em reuniões, debates, palestras, que gostaríamos de formular um programa político para o cinema cultural independente. Mas o Secretário é muito vaidoso, prefere seguir sua intuição.

Acho o Projeto Petrobras Cinema uma iniciativa exemplar. O resultado disso vai ser a promoção do formato curta junto ao público brasileiro. O projeto prevê a atuação na televisão, nas salas (antes do longa estrangeiro e em programas), e na produção. Nós contestamos o programa no início deste ano, nas suas falhas, e fomos chamados pra dar nossa avaliação. Foi uma atitude democrática, de reconhecimento da existência institucional da ABD. Fomos ouvidos e apoiamos o programa.

A Petrobrás tem sido objeto de atenção na mídia, por causa dos desastres, e eu gostaria de ter certeza que este programa durará muitos anos.

CC: Fale um pouco de você, seu passado, seu agora e o que espera produzir até o final de 2001.

LN: Eu milito no cinema desde 84, quando ingresso no movimento cineclubista, no Cineclube Cauim, em Ribeirão Preto. Na época, o Cauim era um dos mais importantes cineclubes do país. Tínhamos uma sala de 400 lugares e programávamos filmes de arte com grande sucesso, preconizando o que hoje faz o espaço Unibanco e o Estação. Em 86 comecei a trabalhar na produção independente de vídeo, em São Paulo. Em 88 ingresso da Escuela Internacional de Cine y Tv, de San Antonio de Los Baños, em Cuba, mas fui punido (preterido) por ser paulista. O pessoal do partidão que dava as cartas argumentara que São Paulo tinha duas escolas de cinema, etc. Fui então convidado a fazer oficinas na escola. Na época fiquei muito puto, mas hoje entendo que foi melhor assim. No ano seguinte entrei na ECA/USP, e fiz meu primeiro filme, A Idade do Lixo, inteiramente rodado com negativo vencido, com 1.500 pratas apenas. Equipe e elenco literalmente estrearam neste filme, como Flávio Frederico, por exemplo, que era assistente de Câmera.

Tenho quatro curtas, o mais conhecido é O Profeta das Cores, com o qual ganhei o prêmio de Melhor Documentário, no 28o Festival de Brasília, em 95.

Agora trabalho em alguns projetos, sendo um documentário, um longa ficção, uma mini-série infanto-juvenil sobre a história do Brasil e também em um curta metragem. Procurei não participar de nenhum concurso enquanto estive na presidência da ABD. Por isso investi apenas na confecção de projetos.


Comente aqui...


Você precisa digitar algo na caixa de texto.
Não foi possível enviar seu comentário.
Informe um e-mail válido.
Você precisa informar um nome.
Você precisa digitar algo na caixa de texto.

Jornal do Curta




[confira outras notícias]