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Marginália 70 em Cuiabá

Por Guilherme Whitaker em 31/10/2002 15:20


Marginália 70 em Cuiabá
Mostra com filmes super-8 realizados nos anos 70 destaca obras de Hélio Oiticica e Torquato Neto 


Revisão da mais instigante produção de filmes em Super-8mm realizados no Brasil e resultado de uma extensa pesquisa coordenada por Rubens Machado Jr., professor de cinema da Universidade de São Paulo, a mostra Marginália 70 – Experimentalismo no Super-8 Brasileiro ganha exibições em Cuiabá no Sesc Arsenal (Rua 13 de Junho, s/nº, Porto) de 5 novembro à 1º de dezembro. As sessões têm entrada franca.

Terceira Mostra Itinerante do ITAÚ CULTURAL (segue-se a “Anos 60” e “Fronteiras”), Marginália 70 – Experimentalismo no Super-8 Brasileiro aponta de forma pioneira a coerência expressiva de artistas plásticos e cineastas experimentais como Antonio Dias, Edgard Navarro, Hélio Oiticica, Ivan Cardoso, Lygia Pape, Marcello Nitsche, Paulo Bruscky e Raymond Chauvin que, mesclando radicalismo e poesia, engajamento político e anarquia, souberam dar continuidade à índole experimental que marca o cinema brasileiro.

Foi esse mesmo apego à experimentação que fez do Cinema Novo (anos 60) e do cinema de invenção marginal (anos 70) referências cinematográficas mundiais. O período de austeridade política e da proliferação de manifestações culturais alternativas, demarcado pelos anos 70, favoreceu a produção de filmes em formatos não-comerciais e de propostas estéticas nada convencionais.


poetas, artistas, anarco-superoitistas: A MARGINÁLIA 70 E O CINEMA EXPERIMENTAL

O que haveria de extraordinário ou polêmico em afirmar que os filmes experimentais brasileiros em sua metade ou dois terços teriam sido realizados em Super-8? Poucos teriam meios para discordar ou concordar, começando pela elasticidade do conceito de cinema experimental internacionalmente, maior ainda no caso brasileiro. Uma das tradições que se renovam até hoje num tênue porém resistente circuito americano e europeu de museus ou salas especializadas tem sido a convergência que em certos momentos transforma em quase sinônimas as designações de “filme de artista” e “filme experimental”. Aqui, ao contrário, raras foram as ocasiões em que isto se deu, embora a produção de artistas plásticos muito tenha se aproximado da pesquisa dos nossos cineastas experimentais e vice versa. Outro motivo que impossibilita a discussão do quadro experimental no país é a sua grande produção em bitolas menores (também o 8 mm regular, bem como os primeiros formatos do vídeo) cuja “irreprodutibilidade técnica” tornou a memória de suas poucas, fugidias e auráticas primeiras sessões constituído não raro o único acesso às obras. Isto eqüivale a dizer que tais obras não têm sido mais vistas ou revistas por qualquer público, e nem mesmo por pesquisadores, desde os anos 70, época de sua maior produção e difusão.

A multiplicidade e diversidade de proposições estéticas é uma das marcas distintivas da produção audiovisual na década de 70, imposição, em parte, da segmentação fragmentária das experiências forçada pelo regime político autoritário. Ao lado da vigorosa expansão da TV e do relativo sucesso da Embrafilme houve uma proliferação de experimentalismos jamais vista, o mais das vezes segmentados e localizados, implicando microesferas comunitárias como no caso de festivais intermitentes, mostras artísticas e de uma miríade de pequenos eventos. Procurando os traços comuns mais interessantes destes acontecimentos encontraremos sem dúvida no Super-8 um material dos mais representativos. Não há entretanto nenhum estudo ou levantamento panorâmico sobre a produção nacional superoitista, exceto meia dúzia de livros ou teses sobre surtos regionais, em geral de pouca ambição crítica e deixando totalmente de lado os centros maiores como São Paulo e Rio. Mesmo sobre os filmes de maior repercussão produzidos nesta bitola pouquíssimas e breves linhas de caráter crítico foram escritas até hoje.

Em nossa prospeção nos dirigimos ao Super-8 experimental (categoria menos numerosa nos festivais, como a de animação, diante das prolíficas documentário e ficção) tentando abranger as suas diversas acepções. Na escolha para a mostra entretanto adotamos critérios mais exigentes dentro de cada acepção encontrada, visando por um lado manter um quadro minimamente significativo da pluralidade das propostas existentes, e por outro provocar uma compreensão maior de algumas vertentes que nos pareceram mais ricas e atraentes. Neste sentido privilegiamos numericamente os pautados de modo mais radical na pesquisa não só da linguagem como do processo específico de realização nesta bitola — desde a concepção à exibição —, sintonizando as tradições artísticas de maior peso às novas posturas estéticas, comportamentais e políticas então em curso. Foram vistos mais de 450 filmes, dos 681 levantados, envolvendo-se 237 realizadores (um terço destes sendo artistas plásticos) de 21 cidades (Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, São Paulo, Campinas, Santos, Rio, Goiânia, Belo Horizonte, Governador Valadares, Vitória, Salvador, Aracaju, Maceió, Recife, Caruaru, João Pessoa, Teresina, Fortaleza, São Luís e Manaus). Para esta mostra itinerante escolhemos apenas 42 filmes, envolvendo 48 realizadores, praticamente um só filme por cineasta, o que espelha o partido adotado de compor um amplo espectro de tendências, ainda que o nosso recorte obrigasse a deixar fora alguns aspectos do experimentalismo mais ligados às convenções da ficção, documentário e animação. Para tanto os filmes foram especialmente restaurados e novas matrizes produzidas em suporte beta digital, possibilitando o seu acesso em mostras e na videoteca do Itaú Cultural.

Trata-se de um resgate que nos dará a ver um corpus formidável e em grande medida inédito do universo audiovisual brasileiro. É bem verdade que este aspecto de terra incognita já tem-lhe dado por vezes uma aura de coisa fabulosa (tanto quanto insondável) que poderá agora ser devidamente analisada, desvendada, desmitificada. Além da proximidade verificável entre o experimentalismo de cineastas e de artistas plásticos, um outro paralelo de grande pertinência contemplaria a jovem produção poética dos anos 70 e a chamada literatura de mimeógrafo. Por exemplo, o mesmo traço localista revela-se explosivamente numa verve telúrica irônica e estranha, pois menos romântica que realista, ou concreta (ou neoconcreta...); a mesma inflamação do aqui-agora levada às raias da consciência física dos corpos, do mundo e também do meio específico de expressão, em auto-reflexividades várias. Foi pensando nisto é que buscamos nesta mostra o maior diálogo possível entre as três partes — poetas, artistas plásticos e a provocativa inquietude dos jovens cineastas. Esta tripla confluência talvez nos ajude a explicar tanto cineasta em flor equiparando as falas dos seus filmes à melhor poesia marginal; artista a decupar e ritmar as suas fitas melhor que muito cineasta de carreira; ou poeta convertido a bom praticante da plástica cinematográfica.

Na programação das sessões, em lugar de segregações temáticas ou estilísticas, tentamos manter um espírito híbrido fiel à convivência daquela diversidade de posturas que foi emblemática dos maiores festivais do período, caso da Jornada de Salvador ou do Grife em São Paulo. Espaços de respiração democrática, manifestações diversificadas, contestação política, esculacho do status quo vigente. A graça e a jovialidade das expressões mais espontâneas temperavam com o seu frescor a sisudez e conservadorismo artístico persistentes. Em pleno regime autoritário, o isolamento exacerbado das gestações criativas na verdade prepara o confronto súbito de mentalidades. Um olhar mais atento perceberá entretanto, para além do impacto comportamental, uma riqueza de proposições estéticas que nos permitiria cogitar de atitudes e conceitos perfeitamente aplicáveis neste conjunto de filmes e oriundos de diferentes esferas. Sem pensar em termos muito particulares, não faltaria ocasião para num exame detido falarmos de filme estrutural, abstrato, de found-footage, onírico, conceitual, minimalista, materialista, prop-art, construtivo, pop, noturno, vivencial, primitivista, odara, neoconcreto e assim por diante. Se podemos apostar na pertinência destes termos genéricos na futura análise dos filmes escolhidos, mais interessante seria tentar haurir nos próprios filmes conceitos mais singulares. A riqueza das proposições anunciadas pelos realizadores eles mesmos escancaram já várias pistas possíveis: — o cinema rudimentar, o cineviver, a antropofagia erótica, o terrir, a vanguarda acadêmica, o megalomaníaco neocinemanovíssimo, o cinema de salão, o anarco-superoitismo...

Apesar da vocação tropicalista e pós-tropicalista de citar, dialogar ou incorporar o discurso dos diversos meios de comunicação, uma característica entranhada na produção Super-8 em geral e que a distingue da realizada em outras bitolas (até mesmo do chamado Cinema Marginal) é a sua oposição clara a tudo aquilo que tenha a ver com a TV, sua antípoda máxima no período. Outro superoitismo curioso foi o de interação com a precariedade do veículo, aderindo estudiosamente aos seus grãos, sua textura, às “aberrações” de sua facilidade de manuseio, mobilidade e exposição automática, a desritualização contingente mas também voluntária de todo o processo de produção. Nisto houve sem dúvida contribuição dos artistas plásticos, que aliás participavam com alguma freqüência dos festivais. Já a ligação imediatista ao cotidiano é irmã gêmea do que também fizeram os jovens poetas. Esta consciência do meio de expressão, compreendida em sua precariedade, configura num certo sentido a mais funda repercussão em nosso universo audiovisual da Estética da Fome, que foi escrita por Glauber Rocha anos antes, em 1965, tornando-a talvez mais profética do que ele gostaria. O recrudescimento das malhas do poder forçaram o que já havia de significante e mesmo de fálico na legenda “uma idéia na cabeça e uma câmara na mão”. A transformação sofrida no tema do fálico mostra-se, em seu sentido psicanalítico de ordem e de presença do pai, figurada numa realidade física ambiguamente evasiva ou senão coalhada de símbolos e monumentalizações irônicas. Por suas características intrínsecas como meio e inserção social, o experimentalismo superoitista implicou nas condições brasileiras dos anos 70 uma forte experiência de negação. Negação dimensionada esteticamente em diversas direções, compreendida a cívica, da declaração contra um status quo cultural e político, mas também aquela comportamental, estigmatizada como desbunde, cheia porém de diferentes matizes contraculturais.


Rubens Luis Ribeiro Machado Júnior
Paulista, doutor em Cinema pela USP e Sorbonne Nouvelle. Desde 1983 realiza atividades periódicas como consultor, pesquisador de cinema e professor (ECA-USP).


Programação de 5 a 10 de novembro às 19h00 e 20h30 - PROGRAMA A

The Illustration of Art – 2 (Antonio Dias, Nova York, 1971-1980, 1min53, cor, mudo) – Um acender de palitos de fósforo com mais estranhamento que naturalidade.

A Pátria (Jorge Mourão, Rio, 1977, 3min, cor, som) – Tensões entre os espaços externo e interno, o medo e a paranóia em tempos de repressão.

Carnival in Rio (Lygia Pape, Rio, 1974, 10min51, cor, som) – Filmagem contagiante de um desfile de rua, com chegada coreográfica da polícia.

Nosferatu no Brasil (Ivan Cardoso, Rio, 1971, 26min50, cor e pb, som) – Budapeste, século XIX: Nosferatu (Torquato Neto) é morto. De férias no Brasil, vampiriza nativas.

Dinâmica dos Traços II (Ypiranga Filho, Recife, 1972, 2min, cor, mudo) – Com películas veladas trabalhadas com lixa, palha de aço e gilete, de modo que essas interferências lembrem uma pessoa andando num canavial.

Terror da Vermelha (Torquato Neto, Teresina, 1971-1972, 28min, cor, som) – Um assassino serve como pano de fundo para investigar o caráter formal do cinema, com elementos avessos à ficção contemporânea.

Funeral para Uma Década de Brancas Nuvens (Geneton Moraes Neto, Recife, 1979, 9min16, cor, som) – Balanço emotivo e severo da vacuidade artística, social e política da década de 70 cotejada ao decênio anterior.

Exposed (Edgard Navarro, Salvador, 1978, 7min30, cor, som) – Fogo, retratos queimados da vida familiar, cães copulando, figuras da era política da ditadura militar.


Programação de 12 a 17 de novembro às 19h00 e 20h30 - PROGRAMA B

São Paulo (Abrão Berman, São Paulo, 1970-1973, 3min22, cor, som) – A velocidade da metrópole em imagens frementes, enfatizadas pelo rock do grupo Iron Butterfly.

Aluminosa Espera do Apocalipse (Fernando Severo, Peter Lorenzo e Rui Vezzaro, Curitiba, 1979, 13min50, cor, som) – A história de Aluminosa, cidade destinada a reconstruir a humanidade depois do apocalipse.

Viva o Outro Mundo (Kátia Mesel, Recife, 1972/1970, 5min14, cor, mudo) – Um happening burlesco, que mistura a ficção ao espaço comum.

Relax Místico (Giorgio Croce e Ragnar Lagerblad, Rio, 1977, 18min, cor, som) – Cenas documentais de rua numa metrópole caótica e violenta convivem com a narração de uma terapia de relaxamento.

Fotograma (Cláudio Tozzi, São Paulo, 1973, 3min40, cor, mudo) – Primeiro, a dificuldade de abrir um cartucho Super-8 recém-tirado da embalagem e depois, na veladura do filme, o resultado da violação brucutu.

Cubo de Fumaça (Marcello Nitsche, São Paulo, 1971, 4min37, cor, som) – No céu de São Paulo desenha-se um cubo de fumaça.

Agrippina é Roma-Manhattan (Hélio Oiticica, Nova York, 1972, 16min27, cor, mudo) – Na imponente arquitetura de Manhattan, como numa Roma neoclássica, mulher de vermelho e personagens airosos tentam a sorte, entre o afã mundano e a transcendência mítica.

Céu Sobre Água (José Agrippino de Paula, Salvador, 1978, 22min16, cor, som) – Águas de Arembepe, uma mulher ora grávida, ora não, uma criança e um homem se integram ao espaço da Natureza.


Programação de 19 a 24 de novembro às 19h00 e 20h30 - PROGRAMA C

Paixão Maldita (Isay Weinfeld e Marcio Kogan, São Paulo, 1975, 1min30, cor, som) – Anunciado como uma megaprodução nacional, o filme se depara com o convite para participar do filme feito a Dina Sfat.

O Duelo (Daniel Santiago, Recife, c.1979, 2min13, P/B, som) – Como nos duelos de honra no século XIX defrontam-se dois camera-man empunhando as grandes antagonistas ideológicas Super-8 versus 16mm.

Ora bombas ou a pequena história do Pau, Brasil (Fernando Bélens, Salvador, 1981, 4min15, cor, som) – Entrevista com um órgão genital brincando com a censura da ditadura militar aos telejornais.

OK x KO (Luciano Figueiredo e Oscar Ramos, Londres e Cardiff, 1973, 7min50, cor, mudo) – O poeta Chacal realiza poemas visuais atribui significados brincando com os cenários.

Mamãe, Eu Fiz um Super-8 nas Calças (Carlos Zílio, Rio, 1974, 1min, cor, mudo) – Por intermédio de créditos anunciados solenemente em folhas de papel, encontra-se um filme político e de suspense.

Projeção (Marcos Bertoni, São Paulo, 1981, 3min25, cor, som) – Jovem cineasta conta em poucas palavras como prevê que seja seu filme e as reações do público.

O Vampiro da Cinemateca (Jairo Ferreira, São Paulo, 1975-1977, 66min, cor, som) – Frases, trechos de filmes e seqüências ficcionais constróem um afresco do universo poético do autor de Cinema de Invenção.


Programação de 26 de novembro à 1º de Dezembro às 19h00 e 20h30 - PROGRAMA D

Copacabana Beach (Vivian Ostrovsky, Rio, 1982, 10min08, cor, som) – Copacabana e seus habitantes observados ao som de trilha sonora que ajuda a atribuir novos conceitos à famosa praia.

X (Anna Maria Maiolino , Rio, 1976-2000, 3min29, pb, mudo) – Um olho em toda a tela, e a câmara é outro olho que olha o olho do personagem.

Luz e Sombra (Mário Cravo Neto, Salvador, 1976, 7min50, cor, som) – O autor, olhando a rotina com generosidade, dá sentido a pequenas coisas, como a luz que entra pela janela.

Rio de Janeiro – Brasil (Luiz Alphonsus, Rio, 1975, 26min50, cor, som) – Um possível caso de amor narrado poeticamente entre samba, futebol e religião.

Abílio Matou Pascoal (Pola Ribeiro, Salvador, 1977, 12min30, cor, som) – Enquanto um juiz de menores fala em decadência espiritual, imagens documentais mostram mulheres grávidas e crianças trabalhando nas ruas.

Mãe Natureza (Flávio de Souza, São Paulo, 1977-1978, 13min42, cor, som) – Alegoria em que a personagem-título ressurge tal uma mamma paulistana em farsa à la Méliès.

Poema Louco N° 1 (Raymond Chauvin, Porto Alegre, c.1970/1980, 2min55, cor, mudo) – Sentado à frente da mesa em um apartamento, o realizador escreve e em seguida risca as palavras com x.

O Palhaço Degolado (Jomard Muniz de Britto, Recife, 1976/1977, 13min, cor, som) – Palhaço interage com a narração do poema Outdoors de Recado, em sátira dos mestres da cultura nordestina, encenada em cenografias singulares da capital pernambucana


Mostra Itinerante ITAÚ CULTURAL – Marginalia 70 - de 5 de novembro à 1º de Dezembro de 2002 às 19h00 e 20h30

SESC Arsenal - Rua 13 de Junho, s/n, Porto - tel (65) 616.6941 – Cuiabá - MT - Entrada franca


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