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MATE EXPERIÊNCIA

Por Guilherme Whitaker em 08/11/2004 10:39


MATE EXPERIÊNCIA
Por Igor Barradas


Segue abaixo, frutos de um fluxo de pensamento ingovernável em busca de uma síntese totalizadora da paixão que foi participar do cineclube Mate Com Angu, no ano de 2003, no mítico município de Duque de Caxias.

Re-erguer a tradição cineclubista é muito mais do que gozar com o barulho hipnotizador do projetor. O que começou apenas como uma vontade imensa de matar uma fome nostálgica de um tempo que nunca vivemos, se transformou em necessidade. Resistência real às imagens massificadas que nos impregnam e nos sufocam em nosso dia-a-dia urbano caótico.

Mas, o que mais surpreendeu o Cineclube Mate Com Angu, de fato, foi perceber a incrível demanda que há no público por imagens que fogem dos selos corporativos. Nós temos conseguido alcançar um público novo, ávido por coisas novas, graças a uma devoradora fome por diversidade que assola toda a classe excluída de nosso país.

A constatação é clara: alunos das escolas públicas da região têm sido nosso principal público, (por funcionar em um prédio público, nossas exibições acontecem à tarde) e é incrível a reação deles a filmes radicalmente experimentais; não há preconceito. Esta reação é o resultado de anos e anos só assistindo a já massificada linguagem “global”, linguagem que são obrigados a receber goela adentro. E o mais engraçado é que eles se sentem inclusos em uma modernidade que presumem ser da metrópole carioca, só que não percebem que as suas cabeças estão abertas, ao contrário da massa classe-média carioca.

“Eu acredito que um filme, não é apenas um filme” Oliver Stone

Não só isso, o Mate Com Angu têm nos mostrado o quanto a nossa cidade se mostra madura. Novos curiosos de cinema de todas as classes vêm aos poucos bicando nossas exibições; poucos, porém fiéis e questionadores. E para estas pessoas abrimos as portas de nossos corações e mentes, na intenção de que o choque de idéias culmine em uma simbiose gloriosa. Queremos que o Mate seja um organismo vivo, que ele seja um movimento aberto a quem deseja participar, somar e gritar por uma nova Caxias.

Uma nova Caxias, não só de dentro para fora, como de fora para dentro. O Mate não só quer contribuir para a transformação do cotidiano da cidade, interferindo no cenário através de ações culturais e questionadoras. Mas também contribuir potencialmente com o imaginário do cinema nacional, através do simples, mas poderoso gesto de se apertar o REC de uma câmera apontada para a urbe, para a luz, para o povo e para o sentimento caxiense.

“Cinema é muito mais o que esta vivo em volta da cena do que o que você planejou antes” Mário Carneiro

Queremos que a exibição desmistifique o cinema e provoque nosso público a querer fazer cinema. Queremos que nossa ação crie a sinergia de um pensamento cinematográfico em Caxias. Para que surja filmes! Filmes carregados de CAXIAS em cada milímetro da grande tela montada em frente a espectadores ávidos por novos universos. O caxiense vê o mundo de uma forma peculiar e tem muito a gritar: foram anos e anos de submissão, de repressão, de estigma. Somos cidade-prima de Liverpool, de Seatle, de Nova Orleans, de Recife e de Roma. Cidades que de comum em sua história, tiveram anos e mais anos de repreensão que culminaram respectivamente nas revoluções culturais do rock, do grunge, do jazz, do manguebeat e do renascimento. Quem teria a ousadia de dizer que com Caxias não poderia acontecer o mesmo?

E tem mais, sobra utopia até para um cineclube economicamente viável: não somos movidos apenas pelos nossos ideais; há também dentro de nós uma força empreendedora que acredita que amanhã possamos sustentar nossos filhos através de um trabalho apaixonante e engrandecedor. O Mate, por enquanto, não vê nem sombra de retorno financeiro, só gasta dinheiro, suor e lágrimas. Mas nós acreditamos que o cineclubismo é o futuro! Com o advento dos home theater, em um futuro próximo, a sala de cinema será em nossa casa, e o único lugar onde as pessoas poderão apreciar e questionar filmes na coletividade, será no cineclube de sua vizinhança. Atividade que pretendemos investir e permanecer; atividade, que, se Deus quiser, nos dará dignidade no bolso e paz no coração.

Mas enquanto a revolução não acontece e o dinheiro não entra, nos contentamos com o prazer de uma exibição, em ir tomar uma cerveja na esquina com seu público e ficar tocado ao ouvir de um rapper que se emocionou com “Aruanda”, de 1960, clássico paraibano de Linduarte Noronha sobre a saga de um quilombo pacifico sobrevivendo no cenário desolador do sertão nordestino.

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Igor Barradas é organizador do Cineclube Mate Com Angu // Cultura para uma melhor digestão // igorbarradas@curtacaxias.com.br


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