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Mercado para curtas é debatido em Tiradentes.

Por Guilherme Whitaker em 25/01/2012 11:12


Apesar de ter como grande foco as discussões estéticas sobre a produção nacional, a Mostra Tiradentes abre espaço também para o debate em torno de outras esferas do cinema brasileiro. É o que pode ser visto nesta terça-feira, no debate “O Curta na Era Digital” e no anúncio da Carta Tiradentes 2012, resultado do Encontro Nacional do Fórum dos Festivais.

Do primeiro, participaram o cineasta Cavi Borges, cuja produtora Cavideo também completa 15 anos em 2012; Eduardo Valente, curador de curtas da Mostra Tiradentes entre 2007 e 2011; Marco Aurélio Ribeiro, presidente da Associação Curta Minas; e William Hinestrosa, curador do Festival Internacional de Curtas de São Paulo.

A mesa começou por colocar em crise a própria proposta do debate, pela dificuldade em se atrelar a questões tão amplas quando “curta” e “digital”. “É impossível distinguir o digital do analógico hoje, pois mesmos filmes rodados em película passam por processos digitais em sua finalização”, afirmou Marco Aurélio Ribeiro.

Valente foi pela mesma linha: “Não faz sentido falar em era digital, pois tudo hoje é digital. Já ultrapassamos o momento de discutir a novidade que era o digital. É como querer voltar a discutir a importância ou não do som no cinema, algo que era uma questão no fim do cinema mundo”.

Ele ampliou ainda o questionamento para o conceito de curta-metragem. “Os vídeos que circulam pela Internet, sem créditos, e são vistos por milhões de pessoas em poucos dias, podem ser considerados curtas? Há um autor lá? Quando o Festival de Curtas de São Paulo foi criado, há 22 anos, a proposta era exibir todos os curtas produzidos no país. Hoje isso é impossível”, concluiu Valente.

Logo depois, a discussão migrou para as estratégias necessárias para se viabilizar comercialmente a produção curta-metragista. “É preciso buscar alternativas para a distribuição do curta. As locadoras eram um caminho, sempre pensei a Cavideo assim, mas hoje elas estão em crise. Então estou sempre buscando novos caminhos para vender meus curtas”, afirmou Cavi, que montou uma pequena barraquinha com seus filmes na mesa de debate e vendeu 115 DVDs em poucos minutos. “Vou virar um camelô de cinema”.

Eduardo Valente ecoou a necessidade de se buscar alternativas quando se fala em monetarizar a produção curta-metragista. “Se você quer dinheiro, precisa pensar em termos de mercado. Não adianta querer ser pago para fazer sua arte, sem buscar um nicho de mercado desde o desenvolvimento do projeto”, acredita Valente.

Uma das principais demandas da mesa foi o surgimento de gestores de conteúdo audiovisual, que seriam responsáveis justamente por essa interface entre produtores/realizadores e os meios de difusão/comercialização, necessidade fortalecida pelo novo projeto de lei que obriga as operadoras de TV por assinatura a programar conteúdo nacional e independente em suas grades. Segundo Marco Aurélio Ribeiro, o mercado está atento a essa demanda, a ponto do Sebrae estar desenvolvendo um curso justamente para a formação desses gestores.

A Mostra também viu nessa terça-feira o anúncio pelo Fórum dos Festivais da Carta Tiradentes 2012. Nela, o Fórum, composto por 65 associados e com onze anos de atividades voltadas para o fortalecimento e valorização do circuito de mostras e festivais de cinema, aponta as recentes restrições aos mecanismos de fomento aos festivais, com destaque para a LDO-Lei de Diretrizes Orçamentárias 2010/2011, como de grave impacto à realização de diversos festivais, o que torna ainda mais urgente a implantação do PRONAF-PROGRAMA NACIONAL DE APOIO AOS FESTIVAIS, já apresentado pelo Fórum ao Ministério da Cultura/SAv.

Atualmente, são realizados por ano 240 festivais brasileiros no país e no exterior, atraindo um público anual de cerca de três milhões de espectadores. Esse circuito cumpre o indispensável papel de levar o audiovisual à população, com uma ação direta na formação de público, de geração de emprego e renda. Vale destacar ainda que o segmento de festivais de cinema é responsável por cerca de 100 empregos diretos para cada R$ 1 milhão investidos, um resultado expressivo para o desenvolvimento da economia criativa.

Outro grande destaque da terça-feira foi o lançamento do livro “Cinema Sem Fronteiras – 15 anos da Mostra de Cinema de Tiradentes / Reflexões sobre o Cinema Brasileiro – 1998-2012”, que revisita a trajetória e momentos históricos do cinema brasileiro nos últimos 15 anos, traduzidos em reflexões, crônicas, artigos, entrevistas, depoimentos, pesquisas e registros da Mostra Tiradentes, além do "Dicionário de Filmes Brasileiros - Curta e Média-Metragem", do catálogo da Programadora Brasil e da revista Filme Cultura 55.

Entre os filmes da terça, o destaque foi As Horas Vulgares, de Rodrigo de Oliveira e Vitor Graize, que concorre à Mostra Aurora. Foram exibidas ainda a série 4 da Mostra Panorama e as segundas séries da Mostra Curtas na Praça e da Mostra Foco, além de O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia, parte da homenagem a Selton Mello.

Nesta quarta-feira ocorre um dos momentos mais aguardados do festival, a mesa “Um Olhar Sobre o Cinema Brasileiro”, com a presença de representantes dos festivais de Cannes, San Sebastian, Veneza, Amsterdam e Barcelona, e, dando continuidade à Mostra Aurora, será exibido o longa paulista Corpo Presente, de Marcelo Toledo e Paolo Gregori. Completam a programação do dia o longa A Erva do Rato, de Julio Bressane, parte da homenagem a Selton Mello, e os curtas da série 5 da Mostra Panorama, e das séries 3 do Curtas na Praça e Foco.

Na programação de quinta-feira, os longas voltam a dominar a grade de programação, com as exibições de dois longas da Mostra Aurora – Entorno da Beleza, de Dácia Ibiapina, e HU, de Pedro Urano e Joana Traub Cseko, na Mostra Aurora – além de Roda, de Carla Maia e Raquel Junqueira, na Mostra Praça; e O Home Que Não Dormia, de Edgard Navarro, na Mostra Olhares.

Os curtas continuam, com a exibição da série 6 da Mostra Panorama, bem como o Seminário do Cinema Brasileiro, que contará com os Encontros com a Crítica, Diretor e Público sobre Corpo Presente e a série 3 da Mostra Foco, além da primeira edição do Panorama Crítico da Crítica, que propõe uma reflexão sobre a atuaçãoo da crítica cinematográfica na primeira década do século XXI.



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A cidade de Tiradentes, localizada a 180 km de BH e com apenas 7 mil habitantes, recebe durante a Mostra Tiradentes toda infra-estrutura necessária para sediar uma programação cultural abrangente e gratuita, que reúne todas as manifestações da arte. São instalados três espaços de exibição: o Cine-Praça, no Largo das Fôrras (espaço para mais de 1.000 espectadores); o Complexo de Tendas, que sedia a instalação do Cine-Tenda (com 700 lugares), e o Cine-Teatro (com platéia de 150 lugares), que funciona no Centro Cultural Yves Alves – sede do evento.


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15ª MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES
20 a 28 de janeiro de 2012

Patrocínio: Petrobras, Oi, BNDES, Cemig/Governo de Minas, Bohemia
Incentivo: Leis Federal e Estadual de Incentivo à Cultura
Apoio: Oi Futuro, Sistema Fiemg/Sesi/Instituto Estrada Real, Sistema Fecomércio Minas Senac/Sesc, Café 3 Corações, Rede Globo Minas, Canal Brasil, Prefeitura de Tiradentes, PMMG, Kodak, CTAv, Revista de Cinema, MegaColor, Labocine, Estúdios Mega, Cinecolor Digital, CiaRio, Ministério das Relações Exteriores


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