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MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES 2017 CURTAS DA MOSTRA FOCO

Por João Carlos Martins em 08/02/2017 16:18


MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES 2017

CURTAS DA MOSTRA FOCO


Cobertura especial de MARCELO IKEDA, a convite do festival.




A Mostra Foco de 2017 se revelou, a meu ver, a mais potente e coerente seleção de curtas desde a sua criação. Muitos dos curtas retratam os desafios dos jovens no nosso tempo, entrecruzando questões sociais e íntimas. O universo do trabalho e da criação também foi uma vertente em comum a esses curtas. Os desafios da linguagem do audiovisual diante dessas questões não ficaram de fora desses debates, com vários curtas selecionados que tiveram um tom quase experimental.


PROGRAMA 1

A Canção do Asfalto | Direção: Pedro Giongo

Restos | Direção: Renato Gaiarsa

AUTOPSIA | Direção: Mariana Barreiros

Estado Itinerante | Direção: Ana Carolina Soares




Mais conhecido por seus curtas de animação, o primeiro curta-metragem de ficção de Pedro Giongo retrata o cotidiano de chineses que vivem em Curitiba. O curta se concentra num olhar humano e entrecruza as relações de trabalho, as familiares e a vida do estrangeiro. O protagonista jovem se aborrece no trabalho na pastelaria de seu tio, não se concentra no trabalho, é advertido pelo seu tio. O curta observa uma intimidade desse jovem mas a uma certa distância. A opção é pela narrativa de corte clássico, com uma discrição e economia que tem seus certos momentos de beleza. Mas em geral fica uma sensação de uma certa platitude, uma dificuldade de adensamento, um foco no comum que acaba se tornando ordinário. Falta talvez uma certa observação de acasos, de pequenas singelezas para além da estrutura pesada do roteiro, que acaba soando um tanto mecânico, e que sufoca a possível poesia desse curta.


Gosto muito do ponto de partida de RESTOS, do baiano Renato Gaiarsa. Seu curta apresenta um olhar para a cidade de Salvador, a partir de falar de uma greve dos garis. Esses trabalhadores, que muitas vezes parecem invisíveis, acabam por tumultuar o cotidiano do "sistema", ao paralisar seu trabalho, e tornando visível o lixo que inunda as grandes cidades. O curta observa essa estrutura da cidade mas não consegue se aproximar de fato de seu personagem principal, que praticamente não tem voz durante todo o filme. O filme acaba ficando no meio do caminho em adensar os efeitos dessa greve na vida desse gari e no olhar para as contradições da cidade de Salvador. No fim, RESTOS acaba não "colocando o dedo na ferida", não aprofundando suas premissas nem em termos de roteiro nem em termos do próprio clima da encenação, apesar de ter momentos interessantes e potentes, quando, por exemplo, o lixo é queimado na Praça Castro Alves.


Mais bem sucedido nessa conjunção entre um olhar individual e um olhar para a cidade, entrecruzando com a questão do trabalho como opressor é ESTADO ITINERANTE, de Ana Carolina Soares. Em vez de um gari, Ana Carolina escolhe como protagonista uma trocadora de ônibus. Nesse paralelo com RESTOS, o trabalho é um gatilho para disparar questões sobre a cidade. Mas aqui o curta consegue aprofundar mais os efeitos do trabalho e da cidade no íntimo dessa personagem. Ainda, o curta claramente põe em pauta o tema da opressão da mulher na sociedade contemporânea. O curta propõe o protagonismo da periferia de Belo Horizonte, mas sem a radicalidade ou a frontalidade de um BARONESA, A JUVENTUDE DO TIGRE, ou mesmo sem a poesia dos curtas de André Novais. A opção de Ana Carolina é pela narrativa clássica de tom mais descritivo, e o curta é muito bem realizado em termos de suas intenções mas talvez falte um sopro de poesia, algo que escape um pouco do programado, ou de uma "cartilha de intenções" explícita talvez demais. ESTADO ITINERANTE me interessa mais quando se aproxima de uma crônica de costumes aos moldes do "cinema popular" de um Anjos do Arrabalde, e esse olhar para o prosaico me parece mais bem sucedido no filme do que sua intenção de se expor explicitamente como um libelo político sobre as minorias.






Por fim, AUTÓPSIA, de Mariana Barreiros, avança na cartilha de denúncia da opressão da mulher, exibindo imagens bizarras de violência à mulher pelas imagens/sons propagados pela mídia. Mariana faz um filme de montagem que funciona como um agit prop, especialmente pelo efeito violento provocado pela montagem que funciona claramente como uma estrutura de videoclipe, criando um certo efeito cinestésico potencializado pela textura das imagens, filmadas das telas da televisão.



PROGRAMA 2

Nunca é noite no mapa | Direção: Ernesto de Carvalho

A maldição tropical | Direção: Luisa Marques & Darks Miranda

Ferroada | Direção: Adriana Barbosa e Bruno Mello Castanho

CINEMÃO | Direção: Mozart Freire


Por meio de um rastreamento no Google Earth, Ernesto de Carvalho apresenta, em "Nunca é noite no mapa", em curtos seis minutos, uma potente análise do mapeamento de informações ( e vidas!) desse dispositivo. Ao se perceber filmado pelas câmeras do Google Earth, Ernesto propõe um contracampo, uma espécie de resposta. Filma, então, usando as suas próprias ferramentas, como ele vê o programa da Google e como ele se vê filmado por esse programa. O resultado é uma reflexão sobre as cartografias do poder da sociedade capitalista pós-industrial. Nesse breve filme-ensaio poético com grande poder de síntese, Ernesto articula o político e o íntimo, combinando uma voz over feita pelo próprio realizador com as imagens capturadas pelo Google Earth.


Em A maldição tropical, Luísa Marques atualiza o ícone de Carmen Miranda com a construção do Parque do Flamengo, que veio a hospedar o próprio Museu Carmen Miranda e o Museu de Arte Moderna. O que está em jogo é uma releitura da tradição do modernismo brasileiro, e a atualização da presença de Carmen pelo tropicalismo nos anos sessenta/setenta. O modernismo é também um projeto de presenteficação de um futuro, e daí um diálogo lá pelo meio do curta com um certo clima de ficção científica (de filme B, claro rs). Luísa reflete sobre esse legado sem querer explicar nada, mas apresentando uma reflexão potente por meio de imagens e sons que deslocam o espectador de seu lugar passivo. Por isso, é curioso o uso de imagens de uma das obras de Paul Sharits, em sua busca por um cinema de sensações que rompa frontalmente com o figurativo. Luísa combina o documentário, a performance e as artes visuais numa espécie de filme-ensaio, baseado também em grande pesquisa de arquivo. Ao mesmo tempo, Luísa interfere nos arquivos visuais, com fusões, com uma música dissonante, com uma certa ironia, o que não está muito distante do gesto de um Sganzerla, na montagem delirante, nas interferências irônicas nos arquivos radiofônicos e de imagem e de som, da releitura de um dos ícones da grandeza e do fracasso do Brasil. Carmen para Luísa não está muito distante de Welles em alguns dos filmes de Rogério. Para ambos, esses artistas são uma forma de falar sobre as contradições de um projeto de progresso de nosso próprio país.







"Como dois e dois são quatro

sei que a vida vale a pena.

Embora o pão seja caro

e a liberdade, pequena.

(TICO recita poema de Ferreira Gullar)

no curta FERROADA, de Adriana Barbosa e Bruno Mello Castanho


FERROADA se propõe a ser um documentário sobre o artista Tico. No entanto, sua abordagem foge do tom informativo e cerimonioso. O curta realiza um mergulho na vida e obra do escritor, pois vida e obra se confundem. A criação passa a ser mola propulsora do curta, um modo de ser que aponta para uma ética do artista, uma forma de viver a vida. O artista, no entanto, não pode viver apenas de sua criação. Ele precisa "trabalhar". O trabalho, no caso, é o dia a dia como coveiro em São Paulo. Trabalho, criação, vida. A dificuldade de se manter vivo e se manter criando com o mundo capitalista que oprime a liberdade de ser, diante da necessidade de ganhar o sustento. Assim, Tico é um espelho, ou alter ego de toda uma geração de realizadores de São Paulo, em que incluo Renan Rovida, Lincoln Péricles, Thiago Mendonça, só para citar três realizadores paulistanos que receberam mais visibilidade nas edições anteriores de Tiradentes, mas poderia citar diversos outros, vários que são completamente desconhecidos por nós, e estão em busca do seu reconhecimento. Desse modo, Menelão, o personagem de Renan Rovida em FERROADA, assume uma função dupla: é não apenas o alter ego de Tico (uma espécie de Tico jovem) mas também é personagem de si mesmo (Menelão é o próprio Renan). Como aborda a relação entre criação e vida, FERROADA examina, na própria forma do filme, essa diálogo entre documentário e invenção, entre registro e fabulação. O curta, então, é essencialmente um encontro: encontro de almas entre Tico (esse artista já não tão jovem) e Renan/Menelão (esse jovem artista). Encontro tematizado de diferentes formas no curta: encontro no cemitério como coveiros e encontro no palco como palhaços, entrevista posada em que os dois se sentam em diferentes margens do rio, etc. Até o maravilhoso plano final, em que os dois estão num grande "palco aberto", no clarão de uma natureza, dançando quase como se fosse numa festa a céu aberto (festa em que há apenas os dois), até o momento em que Tico segue o seu caminho: um caminho aberto no meio da natureza até uma escuridão, até que ele avança até o fora do quadro. Esse plano (o final do filme) dialoga com dois pontos: uma entrevista que Tico defende o suicídio como saída consciente de uma festa quando ela passa a estar chata (ponto dentro do filme) e com o próprio suicídio de Tico, evocado em cartela logo após esse plano (ponto fora do filme). Ou seja, ponto em comum entre criação e vida, ou entre vida e morte, ou entre o filme e o que está para além dele. Esse plano final (reavaliado pela cartela que fala do suicídio do artista) fala do encontro mas também dessa distância entre ambos (entre ele e Menelão, entre ele e a vida), desse abismo que não pode ser preenchido por mais que o certo humor do filme e da figura de Tico nos aponte. Há sempre algo que falta. Desse modo, FERROADA não é apenas um belo libelo, um belo documentário sobre o artista Tico, mas principalmente o filme apresenta um retrato dos desafios do artista da periferia dos grandes centros, propondo um diálogo afetivo entre diversas gerações que se propõem criar e viver, com todas as dores e delícias desse gesto. Considero o plano final de FERROADA o mais denso e mais belo momento das sessões de curtas nesta Mostra de Tiradentes (uma singela despedida de uma festa, de um filme e de uma vida).






















CINEMÃO, de Mozart Freire, escolhe abordar os encontros possíveis nos cinemas pornôs do centro de Fortaleza, como o Cine Betão. Mas como é possível dar visibilidade a um lugar que funciona por meio da escuridão? Por isso, é notável que, mesmo vindo da sociologia, Mozart tenha escolhido retratar essa questão por meio de dois elementos tipicamente cinematográficos: a representação do corpo e os efeitos de luz/sombra. Ver-não ver, mostrar-não mostrar: eis duas questões cinematográficas que Mozart irá pesquisar em seu curta, para além da motivação sociológica do encontro. Os corpos falam por si, entregam-se num jogo de revelar-esconder, num misto de concretude e de imaginário, de intimidade possível e de bruto distanciamento. No sinuoso plano final, uma imagem numa tela de tevê aponta, de forma dúbia, para esse duplo abismo: até que ponto a representação do sexo (ou do outro) pode ser um substituto às nossas formas de prazer. Silencioso e levemente melancólico, Mozart recusa o mero exibicionismo voyeurístico para promover um distanciamento que nos leva a refletir, por meio de uma forma sensorial (e não de tese!), sobre as formas de representação do prazer não apenas no cinema mas principalmente nas nossas vidas, e o certo vazio que pode surgir a partir disso.

















PROGRAMA 3

Minha unica terra é na lua | Direção: Sergio Silva

Vando Vulgo Vedita | Direção: Andréia Pires e Leonardo Mouramateus

Tempos de Cão | Direção: Ronaldo Dimer e Victor Amaro


O curta de Sérgio Silva começa com uma citação cinéfila a uma famosa crítica de Luc Moullet comparando o estilo de grandes cineastas da história do cinema com seu horóscopo. Em seguida, vemos uma longa entrevista, em que percebemos que a sempre marcante Gilda Nomacce faz as vezes do próprio diretor Sérgio Silva, entrecruzada com momentos em que o próprio diretor responde a essas perguntas, numa espécie de versão do "cinema do eu" do dispositivo de Jogo de Cena, de Coutinho. Sérgio Silva pesquisa, então, com um diálogo forte com o kitsch, o exame das possibilidades do olhar em primeira pessoa no cinema, flertando com o egocentrismo e com o voyeurismo. Há um jogo de espelhos, um duplo entre ator-autor. Vendo o curta, ficamos em dúvida se essa provocação tem a consciência de seu autor que ele quase beira ao exibicionismo meramente egocêntrico, e o que de fato esse curta propõe para além de um exercício de estilo.


VALDO VULGO VENDITA prossegue a filmografia de personagens libertários de Leonardo Mouramateus, agora potencializado pela associação com Andréia Pires, que possui um longo trabalho com a dança contemporânea em Fortaleza, com espetáculos que impressionam por uma energia anárquica jovem, como em Vagabundos. Para quem conhece o trabalho de Andréia, que já desenvolve uma antiga parceria com Mouramateus, VVV não é um corpo estranho. O diálogo com a cultura pop, a estética fragmentada em pequenas esquetes que dão liberdade e improviso ao trabalho do ator, a oscilação entre o afeto e a violência por meio de uma pesquisa do que um corpo pode, o interesse por uma pesquisa sobre uma arte jovem (o interesse pelos modos de ser de uma juventude), a combinação entre ousadia, anarquia, ingenuidade e curiosidade, são elementos prévios do trabalho de Andréia que ressurgem aqui em VVV. No desafio para a incorporação dos elementos da linguagem cinematográfica, certamente a presença de Mouramateus, a montagem de Tomás von der Osten (vide as fusões, que lembram o tom de seu fascinante último curta) e especialmente o extraordinário trabalho de câmera de Victor de Melo (um dos grandes fotógrafos de Fortaleza que, infelizmente, não tem o seu talento devidamente reconhecido) contribuem para dar ao curta o seu tom particular, uma energia quase selvagem. É curioso pensar a importância de Victor de Melo para esse curta, já que os trabalhos de palco de Andréia são marcados pela frontalidade e os curtas de Mouramateus são quase todos com câmera fixa, com grande rigor de composição de enquadramento. Fora um único momento de "retrato", em que os personagens estão em composição frontal, surpreende em VVV a liberdade da câmera, que "dança" junto com os personagens, mantendo-se muito próxima a eles, muitas vezes participando e interagindo na cena como se fosse um corpo, especialmente na formidável cena na praia da Barra do Ceará. Muito mais ainda haveria a ser dito sobre esse curta, como ele não deixa de abordar a violência sofrida pelos jovens da periferia, ou ainda em como ele representa outros lugares da cidade de Fortaleza - um desejo marcante pela geografia da cidade. Há também uma certa ingenuidade em VVV, o contato com alguns recursos já muito vistos de um certo cinema contemporâneo, e ao mesmo tempo, os trabalhos de palco de Andréia me parecem mais potentes em como essas pequenas performances dos personagens despontam. Ainda assim, a energia de VVV nos impacta, por sua liberdade anárquica, pela curiosidade em investigar as possibilidades do ator no cinema contemporâneo, e pela liberdade como os elementos de linguagem (em especial a câmera) conjugam um olhar para o cinema e para o mundo de hoje. A liberdade precisa ser vivida mais do que pregada em cartilhas nos murais do facebook.












Por fim, um dos destaques da seleção foi TEMPOS DE CÃO, de Ronaldo Dimer e Victor Amaro. O curta se insere numa estética contemporânea pela forma original e inventiva como combina ficção e documentário, criando uma narrativa híbrida. O curta apresenta seis personagens numa São Paulo não totalmente realista, quase que dialogando com a ficção científica, exacerbado pelo clima da primeira parte do curta, que apresenta um personagem que tenta transformar gasolina em água para combater a falta d´água da cidade. Assim, TEMPOS DE CÃO nos lembra dos recursos de BRANCO SAI PRETO FICA, mas uma das principais diferenças é seu trabalho de mise en scène, bastante sofisticado, especialmente nos movimentos de câmera (alguns realmente engenhosos, como o que passa pelo corredor da habitação). TEMPOS DE CÃO apresenta seis personagens da periferia que buscam sobreviver a esse "cenário apocalíptico", mas o que surpreende é a forma nada usual como o filme os apresenta, mesclando imaginário e real, com a boa opção de sugerir e não afirmar por cima dos personagens um "cinema de tese", e ainda, expressando tudo isso por meio de uma grande potência cinematográfica.










*  *  *


Para além da Mostra Foco, gostaria de destacar dois curtas vistos na Mostra Panorama:


SOLON, de Clarissa Campolina, pode parecer meio deslocado na programação de curtas contemporâneo, por não apresentar explicitamente as motivações políticas e sociais do seu tempo. Seria um curta que dialogaria mais com o chamado gênero "experimental". É importante ressaltar isso, pois Clarissa, uma das mais importantes figuras do Coletivo Teia, agora assina esse curta como uma aventura fora do Coletivo, assinado pela Anavilhana. A Teia se tornou também uma teia de produtoras, ou quase uma holding, se assim pudermos dizer. Teia e Espaço Teia. Anavilhana, Fractais, Tandera. Estúdios de artistas. Até que ponto então a Teia existe ou não existe mais? Não existe como Teia, mas ainda existe sob outras formas, que se metamorfoseiam? Qual é a herança de um coletivo que se dissolve? Como as coisas no mundo se dissolvem para se recriar outra vez, assumindo outras formas que não deixam de coabitar essa primeira formação? SOLON pode ser curiosamente visto sob essa perspectiva. Um ser que se movimenta, que dança, que se transforma, que se dissolve e se reconstitui, diante da natureza e do movimento do mundo. Ficção científica, filme futurista, filme sobre a origem do mundo, filme-dança, filme feminino? SOLON é tudo isso, mas talvez, acima de tudo, o que me interessa na enorme poesia de SOLON, é a consciência de sua busca por um cinema de sensações essencialmente não-narrativo, ou seja, é o prosseguimento de um "caminho-Teia", essa busca por um cinema sensório que dialoga com uma certa videoarte mineira - esse caminho solitário que sempre foi trilhado por um grupo de realizadores mineiros, e que agora talvez corra o risco de soar meio anacrônico, meio fora de moda diante de um cinema contemporâneo brasileiro que, fugindo do risco do formalismo, corre o risco de se tornar mero panfleto político, instrumentalizando a política e atrofiando o impacto do cinema como invenção de formas, de mundo e de experiências sensíveis. SOLON nos recorda esse caminho proposto pela Teia há alguns anos e que parece esquecido. A beleza de sua realização aponta para sua tremenda solidão, e por isso, curiosamente faço essa leitura de SOLON como um dos mais políticos curtas vistos nessa edição de Tiradentes. Pela afirmação quase desesperada da importância de seu lugar no mundo, a partir de sua solidão.


Essa reflexão me aproxima de um curta como AS ONDAS, de Juliano Gomes e Leo Bitteoncourt. Existe uma tendência que leva a opor o cinema experimental do cinema político. Como se o cinema experimental fosse um cinema que buscasse apenas uma investigação das formas e dos sentidos, e que o cinema político fosse um cinema de base realista que busca se aproximar das questões do mundo. Ou seja, como se o cinema experimental fosse simplesmente um cinema formalista que dá as costas ao mundo. O que é fantástico em um projeto como AS ONDAS é pensar a possibilidade de cruzamento desses olhares, examinando as possbilidades de o cinema despertar uma sensação física que nos leve a uma reavaliação do que é o nosso mundo. AS ONDAS, por meio de sua estratégia de choque - é um filme DE FATO de choque - nos reaproxima do mundo, mas por meio de hipersensibilizar nossos sentidos para o que está aparentemente adormecido. AS ONDAS dialoga diretamente com um cinema experimental na tradição de Kubelka , Sharits e Btakhage, pelo seu rigor, pelo seu trabalho com o cinema como matéria fílmica, mas é um filme político por como conjuga as imagens diante do mundo. Há algo que falha e que pisca dentro do sistema. Pois me parece que o curta fala exatamente do sistema, em como ele se apresenta a nós. AS ONDAS podem ser também um filme de suspense, uma espécie de abalo sísmico, como CURE ou PULSE, de Kurosawa. AS ONDAS provocam um torpor. Torpor físico, cinema de sensações, cinema de atrações. Montagem. Som. Há algo que pulsa por detrás das lâmpadas fluorescentes, uma intensidade da corrente elétrica através dos filamentos. Cinema do corpo. Pois no meio de todo o vazio, ainda estão as ondas, elas estão lá. O radicalismo, a precisão, o rigor, a beleza, o torpor de AS ONDAS foram o grande momento da Mostra de Tiradentes deste ano.







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