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MOSTRA DE TIRADENTES 2015: CURTA-METRAGENS

Por Curta o Curta em 05/02/2015 17:43


Além dos longas-metragens em pré-estréia nacional e das obras inéditas na Mostra Aurora, a Mostra de Cinema de Tiradentes também se caracteriza por exibir um conjunto muito amplo de curtas-metragens. É importante o espaço que a Mostra oferece ao formato, cuja importância na revelação de novos valores e na proposição de novas formas de fazer é indiscutível.

É difícil fazer um balanço completo do conjunto de curtas exibidos, pois eles se dividem em inúmeras sessões espalhadas durante todo o festival:

 - Mostra Foco: mostra principal por ser a competitiva, com 3 sessões e 12 curtas ao todo;

 - Mostra Panorama: mostra não competitiva, com tendências da produção contemporânea, com 5 sessões e 22 curtas

 - Mostra Praça: com curtas mais populares, exibidos a céu aberto, com 14 curtas

 - Mostra Dissonâncias: novidade desta edição da mostra, abriga curtas que dividiram a opinião dos curadores, com 9 curtas

 - Mostra Formação: curtas realizados em escolas, oficinas, cursos ou unversidades, com 8 curtas

 - Mostra Cena Mineira: curtas mineiros, com 7 curtas

 - Mostra Cena Regional: curtas de Tiradentes e arredores, com 4 curtas

 - Mostrinha: curtas infantis, com 14 curtas

Assim, chegamos - se eu não tiver perdido algum número no meio desse caminho - a 90 curtas exibidos na Mostra. É um painel bastante significativo, mas que, ao mesmo tempo, quase impossibilita uma análise mais ampla do conjunto da produção exibida no evento.

Minha estratégia, então, será destacar alguns dos curtas exibidos na Mostra Foco e na Mostra Panorama, as duas principais mostras de curtas exibidas no evento.

MOSTRA FOCO

Entre seus 12 curtas, a Mostra Foco contou com dois curtas já exibidos e premiados em outros festivais de cinema no país, de realizadores já conhecidos no formato (podemos dizer que se tratam de "veteranos" no curta-metragem...).

A ERA DE OURO é uma parceria entre o paulista Miguel Antunes Ramos (um dos diretores do curta E, premiado em 2014 na mesma Foco) e o cearense Leonardo Mouramateus (diretor de vários curtas premiados, como Lição de Esqui e O Completo Estranho). Isso já é interessante, pois o próprio curta trata de um (re)encontro entre São Paulo e Ceará, ou ainda, o curta analisa as distâncias entre as duas cidades, mas sem uma perspectiva política tradicional, mas em como essa distância tão conhecida entre Nordeste e Sudeste pode ser examinada através de modos de ser. No curta, um cearense viaja para São Paulo e aproveita para reencontrar uma antiga amiga, também cearense, mas que mora na cidade há um bom tempo. Ambos trabalhavam juntos numa peça mas agora ela trabalha em uma grande empresa. O choque então não é apenas geográfico, mas uma distância temporal, uma distância das escolhas pessoais, dos rumos da vida, em "o que fazer". O curta irá fazer uma crítica indireta ao sufocante modo de vida paulistano, à desumanização das relações de trabalho. Mas, à medida que o curta avança, percebemos uma outra dobra, mais complexa: acima de tudo  A ERA DE OURO é sobre a representação, sobre a (terrível) necessidade de que muitas vezes precisamos representar os papeis de nós mesmos para sobreviver à selva do mundo. Ou seja, para falar de "modos de ser" é preciso necessariamente falar em "modos de representar". As sombras entre "cinema e vida", tão caras ao cinema contemporâneo, ganham nova roupagem, refletindo uma estratégia política pelo lado avesso, não em aproximar o cinema da vida, mas a vida da representação, ou seja, por como a vida se tornou quase como um jogo de representações, mas sem a pureza de um espetáculo teatral. Nesse jogo de espelhos, resta a fragilidade dos personagens, até que uma ação inesperada quebra esse espelho. E talvez não tenha nada atrás dele! Talvez apenas percebamos que representamos mal um papel pequeno numa peça barata - oh a vida! O que me lembra de uma frase de Jean-Pierre Jeunet: "após fazer publicidade, percebi que, se sofremos quando fazemos um filme de que gostamos e as pessoas não gostam, sofremos muito mais quando fazemos um filme de que não gostamos e as pessoas gostam. Percebi então que o único caminho do cinema é a sinceridade". A ERA DE OUTRO é exatamente sobre isso, sobre "fazer cinema" ou "fazer publicidade", é sobre escolhas.


ESTÁTUA, de Gabriela Amaral Almeida, prossegue a pesquisa audiovisual realizada em seus curtas anteriores (UMA PRIMAVERA, A MÃO QUE AFAGA, ...) e que também revelam sua proximidade com a Filmes do Caixote. Seus curtas são sobre pessoas comuns que inesperadamente se veem em situações extraordinárias. O tempo comum do cotidiano vai assumindo um gradual estranhamento, dialogando clamente com os limites do cinema de gênero. Assim, se o cinema contemporâneo trata o comum, a rotina, a família e o cotidiano nas bordas do filme documental, indiretamente influenciado pelo neorrealismo italiano, aqui o enfoque é quase que radicalmente diverso. Em comum, pensamos em diversos dos trabalhos do Filmes do Caixote, em especial os curtas e longas de Juliana Rojas, Marco Dutra e Caetano Gotardo, vários dos quais a própria Gabriela participou como colaboradora. ESTÁTUA prossegue essa linhagem, aparentemente enunciando-se como uma simples história de uma babá grávida que toma conta de uma menina de cerca de 10 anos, quando sua mãe viaja. Esse filme de mulheres sobre mulheres vai gradualmente deixando o campo do comum e embarcando no campo do fantástico (termo mais apropriado do que "terror" ou "suspense"). A habilidade com que a diretora cria climas e situações, com um curta todo passado dentro de uma casa, é notável. As dobras entre a comédia, o drama e o "suspense" têm variações fluidas, leves e orgânicas, garantindo o equilíbrio do resultado final, entre roteiro, atuação e direção (mise en scene).


Nos demais curtas, o resultado é irregular, alguns funcionando mais, outros menos. Temos o divertido e metalinguístico  OUTUBRO ACABOU, de Karen Akerman e Miguel Seabra Lopes, que mostra as aventuras de um menino que quer se tornar um cineasta. Detalhe que o menino é o próprio filho do casal de realizadores e os pais (que só vemos pelas pernas, quase como um recurso de desenho animado) são os próprios diretores (obs.: eu os reconheci pelas vozes, e não pelos pés!....rs). Um curta talvez um tanto romântico e idealizado demais, corroborando com uma visão muito romântica do papel do artista. Mas, ao colocá-lo como uma criança, Akerman e Lopes fazem uma doce autocrítica, ao mesmo tempo ironizando os delírios do cineasta-autor mas ao mesmo tempo louvando a pureza e a inocência dos seus princípios. Talvez todo genuíno cineasta seja uma criança. É essa aposta consciente na ingenuidade que confere ao curta a sua beleza.

Continuando com crianças..... divertido, doce e ingênuo mas bem cinematográfico também é VIRGINDADE, de Chico Lacerda, que relata as primeiras experiências sexuais de um pré-adolescente, mas na verdade narrados pelo próprio diretor, já adulto. É um filme sobre crianças feito por e para ser visto por adultos. É sobre essa distância que o filme se baseia. Para isso, é curiosa a aposta do diretor na narração (não vemos as cenas, só ouvimos sua descrição e imaginamos como teriam sido) enquanto a imagem mostra planos gerais dos lugares em que a ação se passou mas nos dias de hoje (da narração), muitos deles desfigurados (por exemplo, um cinema que virou uma loja, etc.). Um curta inventivo, ao cruzar esse gosto pela narração com o papel do tempo e das transformações da própria cidade. Cruza então documentário, ficção e experimental de forma criativa, abordando ainda o tema da iniciação sexual de uma criança que se descobre gay, de forma frontal e objetiva mas sem querer chocar, com uma certa leveza e ingenuidade. Mais um exemplo de uma série de curtas criativos feitos pelo coletivo Surto e Deslumbramento, de Recife.

Continuando com as descobertas sexuais....NO DIA EM QUE LEMBREI DA VIAGEM A BICUDA, de Vitor Medeiros, fala de um (des)encontro entre um casal de adolescentes que passa um final de semana sozinhos numa casa de campo. O curta já começa com um clima de estranhamento, baseado num grande plano geral e numa narração de voz branca, desdramatizada. Até que surgem os dois principais planos do filme (bastante longos), quando o casal transa. Toda a dificuldade do contato está ali numa dramaturgia do corpo, sem palavras, sem diálogos. A necessidade do outro, o estranhamento, a dificuldade, tornam a cena quase uma luta. A forma como os corpos procuram e evitam um ao outro, a dificuldade de os corpos "se encaixarem" expressa de forma incrível os desafios da dramaturgia desse curta. Seria ainda melhor se o diretor não precisasse citar tão explicitamente o cinema de Hong Sang-Soo, especialmente com o uso das zooms, recurso tão característico desse diretor sul-coreano.

Por fim, destaco o que considerei ser a maior surpresa positiva dos curtas da Mostra Foco. É brilhante o clima de cinema que a diretora Nathália Tereza consegue imprimir em A OUTRA MARGEM, utilizando um certo minimalismo, ou ainda, como recursos considerados básicos da linguagem do cinema ganham máximo efeito expressivo, com o uso do tempo, do olhar, do percurso...

Há alguns poucos diretores que são mestres na abordagem do universo feminino, como Bergman, Antonioni ou o nosso Carlão, mas é raro ver o contrário: cineastas mulheres abordando o universo masculino. Geralmente as mulheres buscam protagonistas femininas, em busca de um "ponto de vista feminino". Em A OUTRA MARGEM, a diretora Nathália Tereza aborda o universo masculino, um homem à noite à procura de alguém. O curta inteiro é um passeio de carro pelas ruas da cidade à procura de uma diversão, talvez algo para entreter o tédio, uma companhia, um amor, não sabemos ao certo muito bem. Não estamos então muito longe da atmosfera do cinema de um Kiarostami, por exemplo. O carro, a estrada e esse homem. A OUTRA MARGEM, no entanto, não é um filme psicológico: quase à maneira de um TWO-LANE BLACKTOP, temos o percurso e a estrada em planos bastante longos. E a noite. Há, ainda, um tom de melancolia que preenche toda a cena, uma solidão. Fico imaginando - provavelmente puro delírio meu - que essa menina que ele encontra seja mero fruto de sua imaginação. Com uma estrutura circular, estamos diante de um homem que busca, mas ele permanece opaco: temos apenas a estrada, o percurso, o carro. Tudo o mais se passa na cabeça do espectador, que sente sua solidão, que, ao final desse percurso que nunca abcaba, parece ser a sua própria. Não há psicologia para definir o curso das ações: as ações, elas falam por si mesmas (no cinema, o que temos são as ações, os pequenos gestos, não conseguimos ter acesso ao interior, esse é o bom cinema moderno!) O uso da música - som diegético mas cuja função poderia bem ser extradiegética -, esse recurso tão perigoso, é também um capítulo à parte.

MOSTRA PANORAMA

Na Mostra Panorama, o grande destaque foram várias produções do Rio de Janeiro, muitas delas com alunos ou ex-alunos do curso de cinema da UFF. É notável ver um contexto criativo de curtas ousados surgindo de uma geração jovem ligada a essa tão tradicional escola de cinema. Esses curtas gritam de ousadia, quase todos em torno de um cinema jovem, que expresse os anseios, as dúvidas e os dilemas da juventude refletidos através de uma estética contemporânea, viva, pulsante, que se coloca em risco. Além do BICUDA, selecionado para a Mostra Foco, outros três curtas, mais radicais na forma que o BICUDA, podem ser citados: JAVAPORCO, de Leandro das Nevez e Will Domingos, ENSAIO SOBRE MINHA MÃE, desconcertante curta de Jocimar Dias Jr., e especialmente o incrível CORAÇÕES SANGRANTES, de Jorge Polo - que considero a mais pulsante obra - entre curtas e longas - exibida em toda a Mostra. Infelizmente não terei fôlego para falar sobre os dois primeiros curtas citados (talvez volte a eles em outro instante, se conseguir revê-los). Destaco também  A HORA AZUL, de Giovani Barros, que, apesar de "mais formatado" que os curtas anteriores (que são mais "rebeldes" ou, colocando de forma melhor, que se arriscam mais), tem momentos bonitos na forma delicada como o realizador olha para a vida de sua protagonista. E também VENTANIA, de Matheus Peçanha, Renata Spitz e Thiago Yamachita, exibido na Mostra Formação.


Vamos então a CORAÇÕES SANGRANTES, de Jorge Polo.

Devemos ter cuidado com a beleza - o que é a beleza? não sei dizer. CORAÇÕES SANGRANTES (e não "sangrentos") é o mais belo filme da mostra não exatamente porque suas imagens exalam a beleza plástica fotográfica-fotogênica de um certo padrão do "cinema de arte". Sua beleza vem da forma como o diretor se atirou num abismo ao realizar esse filme. Seu projeto de juventude não surge por conta meramente da idade dos personagens ou porque "passam por uma travessia em que enfrentam desafios e amadurecem". Sua juventude é porque não há passado nem projeto de futuro, há apenas o presente. Porque é um filme de personagens que não querem amadurecer. Sua juventude está em como reúne diversos elementos do chamado cinema jovem contemporâneo para deslocá-los para outro lugar, para fazê-los caminhar, e não para simplesmente repeti-los ou diluí-los. É um filme de afetos, de encontros (um filme que entrecruza as relações entre cinema e vida, entre representar e viver, de personagens frágeis que se fortalecem por estarem juntos, um filme de encontros) mas ao mesmo tempo um filme político (um filme sobre um modo de viver no Rio de Janeiro, sobre a ocupação de um casarão no Centro da Cidade). Um filme ingênuo - a ingenuidade como subversão do bom gosto. Um filme inesperado, repleto de paixão e pulsão, mas ao mesmo tempo com uma certa melancolia, com algo que falta. É essa oscilação entre a alegria da brincadeira ingênua e a consciência da fugacidade e do desencanto que tornam esse curta de Polo tão singular. Ou, como prefiro, tão jovem. Essa pulsão e esse mal estar. Algo que me lembra de passagem um cruzamento entre o primeiro cinema de Jarmusch e alguns dos filmes do nosso cinema marginal. A radicalidade e a sinceridade com que o diretor se arremessa nesse abismo são absolutamente comoventes para quem consegue entrar nesse casarão.

Outro destaque são os curtas silenciosos de Krefer, esse curitibano que volta ao cenário dos festivais depois de um tempo de exílio voluntário. Suas obras são as que mais dialogaram diretamente com as artes visuais nessa edição do festival. Com DEUS Krefer já havia deixado grande impressão numa edição anterior da Mostra, junto com VÕ MARIA, de Tomás von der Osten. Agora, volta ainda mais amadurecido. ESTUDO DE PERSISTÊNCIA é todo feito a partir da montagem de fotos caseiras mostrando casais fotografando-se durante o ato sexual. Nesse estudo sobre o autorretrato, e sobre as formas de exposção da intimidade publicamente - potencializado na exibição desse curta em Tiradentes, numa tenda com cerca de 500 pessoas.... - as fotos ganham contorno sofisticado por um trabalho de luz que superexpõe os flashes, recurso que, para além de seu belo efeito estético, coloca um ponto a mais sobre a questão de "dar luz" a esses momentos de intimidade, ou no que eles propriamente revelam. ACTION PAITING 1 e 2 nasce de uma brincadeira com a pintura de Jackson Pollock, mas que combina com a questão do sexo, que parece ser a vertente desse conjunto de trabalhos de Krefer. Vemos um casal transando, mas vemos apenas as costas do homem por cima da mulher. As costas do homem tornam-se uma tela. As mãos da mulher arranham as costas, marcando-a, ferindo a pele, chegando a sangrar. A relação entre pintura e vida, esse gosto pelo movimento da vida, que é a base da pintura de Pollock, ganha um contexto mais explícito: a tela é o próprio corpo, pinta-se com as próprias marcas das mãos sobre o corpo. Dessa mistura de dor e prazer, desse êxtase, é que nasce a obra. No #2, o efeito é invertido: vemos as costas da mulher, e uma relação sadomasoquista se anuncia com gotas quentes de velas que caem sobre seu corpo, compondo um quadro à la Pollock. O #01 me parece ainda mais potente que o #02, mas os dois se complementam numa espécie de díptico. Muito mais haveria a ser dito, como o efeito curioso quando essas obras verticais (o comprimento é bem menor que a altura) são projetadas numa enorme tela horizontal, numa tela de cinema e numa tenda de enormes proporções como Tiradentes.


Outros destaques estão em dois curtas já exibidos no Festival de Brasília. O extraordinário SEM CORAÇÃO, de Nara Normande e Tião. Ainda não consigo encontrar palavras para exprimir o quanto esse curta tocou em mim, dado o seu potencial sensorial e sua complexidade na abordagem do universo adolescente, essa necesssidade e dificuldade do contato, esse dilema homem-mulher e entre "menino-da-cidade" e "menino-do-interior". O cinema contemporâneo é, acima de tudo, um cinema do encontro, um cinema dos modos de ser. SEM CORAÇÃO é extraordinário. O segundo é o inventivo LOJA DE RÉPTEIS, de Pedro Severien, que consegue estabelecer um clima ambíguo, filme de atmosfera, entre a decadência, o doentio e o perverso. Um curta sofisticado, um diálogo com o expressionismo, um desejo por um cinema muito além de sua narrativa.

Outro curta bem interessante é BOA MORTE, de Débora de Oliveira. O curta, a princípio, parece ser mais um curta memorialista, sobre a infância da própria realizadora em sua cidade no interior de Minas. Se essa estrutura não é novidade, encanta a forma como a realizadora comseguiu um tom muito peculiar, ao inserir toda um clima de intimidade no curta: o trabalho pictórico com as fotos, o bem escolhido timbre da voz e a forma como a narração é lida, os tempos entre as fotos. Melancólico e saudosista, BOA MORTE insere uma certa camada ficcional ao tom documental mas impressiona mais pela habilidade em encontrar um tom singular para abordar essa ambiguidade entre a saudade da infância (pertencimento) e o desejo de distanciamento e uma certa crítica ao provincianismo e anacronismo desse mesmo lugar - expressos de forma extremamente precisa em seu próprio título.

A CLAVE DOS PREGÕES, curta de Pablo Nóbrega, é um documentário sobre os pregões - as toadas características emitidas pelos vendedores ambulantes para anunciar suas mercadorias. Esse curta tem dois méritos bastante claros. Primeiro, ele não é um documentário informativo, que busca propor um mapeamento histórico, ou ainda, passar informações sobre a vida e as origens dos pregões, mas "apenas" se limita a mostrá-los em ação. Mas seu maior mérito é que, através deles, Pablo busca nos apontar para uma questão maior: seu trabalho de sobrevivência como uma forma de resistência. Ou ainda, em uma análise das transformações do modo de vida urbano. Isso me lembra do livro "Os sons que vêm da rua", livro de José Ramos Tinhorão, em que ele analisa algumas canções influenciadas pelos pregões dos vendedores de sorvetes. Certamente, as transformações urbanas da cidade, dominadas por obras, sons metálicos (carros, buzinas) e pela verticalização dos prédios praticamente afastaram os vendedores ambulantes das ruas. Os pregões são uma forma de arte - uma forma criativa de formar uma "marca" distintiva, num processo de divulgação de produtos que em muito se diferencia das práticas do consumo de massa. Ao mostrá-los caminhando pela cidade, mesmo sem vender nenhum produto, Pablo nos dá a ver uma invisibilidade: reinsere esses personagens no espaço urbano, ainda que hostil. Ou seja, A CLAVE DOS PREGÕES é, mais do que um documentário sobre o papel dos pregões, um curta sobre as transformações urbanas da cidades brasileiras e suas implicações nos modos de ser, nas formas de trabalho artesanais, e uma reflexão sobre as possibilidades de resistência. Por fim, esse projeto só poderia fazer sentido com um efetivo desenho de som - mais um brilhante trabalho de Danilo Carvalho. A CLAVE DOS PREGÕES é contemporâneo porque busca, acima de tudo, mostrar e, para isso, utiliza com sabedoria e simplicidade alguns recursos de mise-en-scene. O som dos pregões é quase abafado pelo barulho típico das cidades. Num dos mais belos planos do filme, numa rua deserta, ouvimos um pregão, e, lentamente, surge o vendedor, empurrando manualmente seu carrinho. Ninguém compra seu produto. Quando está quase a sair do quadro, estático, surge, ao fundo do plano, um trem, que rasga a paisagem.

AGRESTE, de Dellani Lima, comprova um caminho progressivo de amadurecimento desse inqueto realizador, que vem realizando praticamente um longa por ano. Realizado de forma urgente por conta de uma estada de Dellani em Fortaleza para a realização da Mostra Cinema de Garagem, AGRESTE, assim como alguns de seus últimos trabalhos, vem apostando numa depuração, na busca de uma simplicidade. É a fase Dellani-zen, que contrasta com seus primeiros filmes fortemente marcados pela influência da videoarte mineira. Mas nos últimos tempos, mais do que texturas visuais, e de seu inconformismo radical, Dellani parece mais interessado em desenvolver uma dramaturgia que busque, com simplicidade, abraçar as carências afetivas de seus personagens, quase sempre num híbido entre documentário e ficção. Neste que é um de seus mais singelos trabalhos, ganha força a forma como a cidade de Fortaleza inesperadamente surge na tela, diante de uma ruína na Praia do Futuro (onde também poderia ser na Barra do Ceará). Talvez sua força venha exatamente da relação pessoal de Dellani com a própria cidade em que passou boa parte de sua vida, até que optou por se mudar para BH. AGRESTE fala da necessidade de partir, de deixar algo para trás, ainda que esse algo no fundo nunca saia da gente. E também fala sobre a morte, ou ainda, sobre o que fica após a morte das coisas (as ruínas). Quando Vítor Colares e Caio Dias quebram com um grande porrete parte das ruinas, a força da cena estão não somente porque esses seres vivem essas situações em seus corpos, mas essencialmente porque eles a vivem em suas próprias vidas. Todo filme de Dellani é uma autobiografia, e este certamente não é diferente. Mas aqui a forma como as carências pessoais são entrecruzadas com um sentimento grave para a cidade ganha um contorno especial. Por fim, é preciso citar a emblemática presença de Jean-Claude Bernardet, como esse pai que surge na tela com toda a sua força e toda a sua fragilidade. Em seu corpo, Bernardet sintetiza os desejos de AGRESTE.

Texto: Marcelo Ikeda 


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